Memórias e Arquivos da Fábrica de Loiça de Sacavém

Setembro 01 2012

 

O INÍCIO DE UMA CARREIRA NA FLS (I)

 

Nunca na minha infância sonhei que algum dia iria trabalhar na indústria cerâmica, embora soubesse que a minha família era dona da Fábrica de Loiça de Sacavém e que o meu avô e o meu pai trabalhavam lá. Só quando acabei o secundário em Londres, sem quaisquer ideias quanto ao meu futuro, é que aceitei ir fazer o curso de cerâmica em Stoke-on-Trent. Isto passou-se em 1956.

 

As primeiras impressões não foram nada boas. As "Potteries", como era conhecida a área da cidade de Stoke-on-Trent (composta por seis vilas – Burslem, Fenton, Hanley, Longton, Stoke e Tunstall), eram o centro da indústria cerâmica de Inglaterra e nessa altura existiam centenas de pequenas e médias empresas todas à volta das grandes cerâmicas, tais como a H&R Johnson, Royal Doulton, Twyfords, Wedgwood, e outras. Todas estas fábricas, particularmente as centenas das mais pequenas que ainda não tinham investido em fornos modernos devido às dificuldades económicas do pós-guerra, debitavam cá para fora uma espessa camada de fumo proveniente dos antigos fornos redondos, bottle ovens, e das chaminés das caldeiras que ainda eram alimentadas a carvão. Nessa época era impossível usar uma camisa branca pois era sabido que pela altura do almoço o colarinho já estaria preto... Só para dar uma ideia, as papelarias e tabacarias locais vendiam uns postais de Stoke-on–Trent apresentando uma imagem totalmente a preto com o título "Stoke-on-Trent by night", havendo outros exactamente iguais mas com o título "Stoke-on-Trent by day"!

 

Ao fim de algum tempo ficávamos habituados não só ao denso fumo como à chuva e ao frio, sendo tudo atenuado pelas amizades que se criavam – ainda em Julho passado me veio visitar um antigo colega de curso que hoje em dia vive na Austrália e eu não via há mais de quarenta anos!

 

© Clive Gilbert 

© MAFLS


Adorei ler este texto, sobretudo as referências feitas às Potteries, as "five towns" de Arnold Bennett, efetivamente seis cidades oleiras no Staffordshire.
É um dos meus sonhos fazer uma viagem demorada por essa zona, podendo visitar essas cidades industriais tão ligadas à produção cerâmica e os respetivos museus.
A alusão que aqui é feita à atmosfera carregada e negra de Stoke-on Trent faz-me lembrar a descrição de Coketown nos "Tempos Difíceis" de Charles Dickens...
Muito obrigada.
Maria Andrade a 2 de Setembro de 2012 às 22:04

Obrigado pelos seus comentários, Maria Andrade. Na realidade apanhei o princípio do fim da era da indústria cerâmica como nós a conhecíamos. Houve um período em que os fornos redondos dominaram a paisagem das 'Potteries' mas já no meu tempo eles foram desaparecendo e novas fábricas foram sendo construídas fora de Stoke-on Trent. Este aspecto foi positivo pois, não havendo transportes públicos nessa altura, as casas dos operários eram junto às fábricas, com as consequências que se podem imaginar.

Hoje, Stoke já não é o que era, tendo surgido ali vários museus, entre os quais o Gladstone em Longton, que filmou o último cozimento num forno redondo nas Potteries. Mas existem ainda algumas empresas cerâmicas de sucesso, entre as quais a Emma Bridgewater que produziu as peças comemorativas do jubileu de SM a Rainha Isabel II.

Clive Gilbert
Clive Gilbert a 1 de Outubro de 2012 às 11:20

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