Memórias e Arquivos da Fábrica de Loiça de Sacavém

Outubro 05 2012

 

Miniatura de urinol formato Inglez, conforme se verifica pela anotação manuscrita na etiqueta de papel. 

 

Esta raríssima peça, com cerca de 8,7 x 7,1 x 6,5 cm., integraria certamente os mostruários que a FLS disponibilizava através dos seus agentes ou, eventualmente, dos caixeiros-viajantes que representassem a empresa.

 

A tabela de preços de revenda das loiças sanitárias de Julho de 1938 regista urinóis deste formato ao preço de 65$00, referenciando ainda modelos de face e de canto, ao preço de 40$00, e higiénico, ao preço de 120$00. Regista ainda um "Formato especial para serie", "Tipo moderno Higienico", ao preço de 300$00.

 

 

Aparentemente, a marca aqui reproduzida aplicou-se apenas na loiça sanitária da FLS, pois ao contrário do que acontece nas tabelas de serviços de mesa e de loiça decorativa, esta tabela reproduz a marca da FLS que aparece neste exemplar, sem no entanto apresentar o acrónimo S.A.R.L.

 

A brochura encerra com diversos considerandos, entre os quais surgem os seguintes:

 

"A nossa loiça sanitaria é de faiança vitrificada que, não sendo porosa, não pode absorver aguas nem sujidades."

 

"O seu vidrado não é uma simples capa de vidro que cae ou fendilha com pouco uso, deixando infiltrar os detritos. Perfeitamente identificado com a pasta, torna o artigo impermeavel, dando-lhe a condição sine qua non para que seja efectivamente loiça sanitária."

 

"Toda a loiça sanitaria de Sacavem leva a nossa marca registada, devendo os nossos estimaveis clientes rejeitar qualquer peça que lhes seja apresentada como sendo do nosso fabrico e que não tenha a marca Sacavem".

 

 

Através da intervenção de Marcel Duchamp (1882-1968), que em 1917 assinou um exemplar com o pseudónimo de R. Mutt e, invertendo-lhe a  tradicional posição de colocação, o apresentou como uma fonte, o urinol acabou por ser um dos ícones paradigmáticos da revolução da arte na década de 1910.

 

Duchamp, aliás, desenvolveu ainda outros exemplares desses objectos, que posteriormente vieram a ser conhecidos por ready-made, como a roda de bicicleta, de 1913, o escorredor de garrafas, de 1914, e a famosa imagem litografada de Mona Lisa com bigode e pêra e a inscrição L.H.O.O.Q., de 1919 (desta, Duchamp produziu diversas réplicas, as últimas das quais em 1964; cf. http://blogdaruanove.blogs.sapo.pt/96303.html.).

 

A estrutura do escorredor de garrafas foi recentemente evocada e recriada, a outra escala, numa obra (http://mirror.berardocollection.com/?toplevelid=33&CID=102&opt=sw&v1=988&lang=pt) de Joana Vasconcelos (n. 1971) executada em 2006 para a Fundação Colecção Berardo, em Lisboa, que aliás possui uma das réplicas do modelo original que Duchamp veio a produzir já na década de 1960 (http://mirror.berardocollection.com/?toplevelid=33&CID=102&a1=artist&v1=110&lang=pt&tab=works).

 

© Nick Knight Show Studio & Lady Gaga

 

Mais recentemente ainda, o conceito do urinol de Duchamp foi reaproveitado pela cantora e performer Lady Gaga (pseudónimo de Stefani Joanne Angelina Germanotta, n. 1986) para uma sessão fotográfica da revista Japan Vogue Home (http://www.vogue.co.jp/).

 

Esse urinol, da marca Armitage Shanks, em que Lady Gaga inscreveu o texto “I’m not a fucking king Duchamp but I love pissing with you” e a sua assinatura, foi colocado à venda em Novembro de 2011 por US $ 460,000.

 

 

© MAFLS


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