Memórias e Arquivos da Fábrica de Loiça de Sacavém

Maio 12 2011

 

                     

 

 

"O meio dia era a hora da maré alta na casa de hóspedes. Os pratos voavam nas mãos da Ervilha, embora aliviada da grande travessa que ia circulando fumegante de mão em mão, onde cada um tirava a pitança da lei. Os comensais entravam em regra muito curiais, fazendo ao geral uma leve vénia ou lançando o bom dia, pela rapidez e a mesura actos de superior urbanidade. Dirigiam-se à gaveta comum a tirar o guardanapo numerado, ou ao aparador, onde estava encarapuçando a garrafa, os que bebiam vinho. Depois dum olhar, certeiro de pontaria, ao assento devoluto, avançavam sôbre o talher. A Ervilha acercava-se solerte a limpar as migalhas para depois pôr o prato com o menos de estreloiçada possível. D. Flávia não suportava criadas caqueiras, e ao mais pequeno boucelado da sua rica louça fazia-lha substituir por nova. Não raro se abria subscrição entre os comensais para pagar uma terrina rachada de Sacavém. A conversa ia decorrendo em smorzo sôbre coisas e loisas até a chegada do Hermano Bexiga. Em género de agitador não havia como êste. Adquirira tal arte, porventura, no manejo da espátula e das baguettes de vidro com que anaçava os componentes viscosos e irreconciliáveis de electuários e colírios."

 

Parágrafo retirado do romance Lápides Partidas (1945), de Aquilino Ribeiro (1885-1963), cuja maior parte da acção decorre em Lisboa nos meses que imediatamente antecedem o regicídio (1 de Fevereiro de 1908).

 

© MAFLS

publicado por blogdaruanove às 21:01

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