Memórias e Arquivos da Fábrica de Loiça de Sacavém

Janeiro 02 2013

 

© MAFLS

publicado por blogdaruanove às 23:59

Janeiro 02 2013

Caricatura de Clive Gilbert executada em 1967 por Leonel Cardoso (1898-1987).

Note-se o novo logótipo da FLS concebido por Clive Gilbert.


O INÍCIO DE UMA CARREIRA NA FLS (V)

 

A seguir à Segunda Guerra Mundial a Fábrica de Loiça de Sacavém decidiu fazer investimentos na área de produção, pois os custos directos de fabrico eram bastante elevados, especialmente no que dizia respeito à mão de obra. Optou-se por investir na renovação do equipamento e do sistema de cozimento tendo em consideração que os antigos fornos redondos intermitentes, semelhantes àquele que veio a ser preservado no Museu de Sacavém, para além de precisarem de muita mão de obra em certos períodos, como na altura da carga e descarga, não eram totalmente fiáveis.

 

Além disso, dependiam muito de uma constante e competente vigilância do forneiro que estivesse de serviço, particularmente em determinados períodos do aquecimento e do arrefecimento, que eram momentos críticos. Nessa altura a curva do cozimento tinha de ser mais lenta para permitir que a transformação da sílica na pasta decorresse sem problemas num período bastante sensível que, no caso de não ser devidamente acompanhado, resultaria em elevadas perdas na loiça, pois esta ficaria rachada.

 

Havia uma história que se contava sobre o Mestre John Barlow que dizia conseguir ele ver, a mais de cem metros de distância, se uma fornada de loiça tinha saído com poucas perdas ou se, pelo contrário, tinham havido muitas perdas por falta de controle do cozimento. Quem ouvia isto ficava espantado e perguntava como é que aquilo era possível. O Mestre repondia então que se houvesse muita gente à volta do forno ficava a saber que tinham havido poucas perdas. Se, pelo contrário, não estivesse lá ninguém era certo que o cozimento tinha sido um desastre!

 

Assim, no final da década de 1940, a administração resolveu adquirir em Itália fornos eléctricos contínuos de rolos, para aproveitar o baixo custo da energia eléctrica na altura. Contudo, estes fornos apresentavam uma desvantagem pois, durante o cozimento, os azulejos tinham de ser transportados em placas refractrárias importadas, que eram muito caras.


A solução encontrada foi a de aplicar a experiência adquirida ao longo da segunda Guerra Mundial, durante a qual era impossível importar produtos complementares deste género para o fabrico de loiça. Nesse período, até o ministro Duarte Pacheco (1900-1943) intercedeu junto da FLS para que parte das suas reservas de lenha seca, destinadas aos fornos intermitentes redondos, fosse cedida a terceiros, uma vez que era praticamente impossível importar carvão!


Na altura da guerra os técnicos da Sacavém foram obrigados a puxar pela cabeça e a produzir, ou procurar internamente, eles próprios, muitos destes produtos ou matérias primas. Anos depois, assim foi no caso das placas cerâmicas para os azulejos! 

 

Mais tarde viriam a adquirir-se fornos túneis para o cozimento da loiça de mesa e da loiça sanitária, para substituir aquele que já existia desde 1912 (cf. http://mfls.blogs.sapo.pt/58149.html). Obsoleto, quer quanto ao consumo de energia, quer quanto à fiabilidade de cozimento, ainda chegou a ser transformado por duas vezes, primeiro para cozer a gás pobre e mais tarde a gás propano.

 

É este um assunto que voltarei a tratar posteriormente.


© Clive Gilbert

© MAFLS


Janeiro 02 2013

 

Taça em faiança, com cerca de 6 cm. de altura e 21,2 cm. de diâmetro, da fábrica inglesa Pilkington Tile and Pottery Co., decorada em baixo relevo executado na pasta por Richard Joyce (1873-1931).

 

Fundada em 1892, a empresa tornou-se famosa pela sua cerâmica com lustre glaze, introduzida cerca de 1906. Acolhendo inúmeros ceramistas e designers aclamados, a fábrica produziu diversas outras peças notáveis, como esta que se apresenta, e muitos outros vidrados e motivos interessantes, como os da linha lapis ware, lançada em 1928 e preponderante na produção da empresa durante a década seguinte.

 

No motivo desta taça é evidente um certo ambiente evocativo dos mundos fantásticos característicos do ciclo arturiano, do Celtic folk lore e do Celtic fairy lore, e do mundo ficcional que, com base nesse imaginário, J. R. R. Tolkien (1892-1973) haveria de vir a (re)criar posteriormente nas suas obras – The Hobbit (1937; veja-se a capa de uma edição portuguesa de 1962 aqui: http://blogdaruaonze.blogs.sapo.pt/254298.html), na trilogia The Lord of the Rings (1954-1955) e no volume, publicado postumamente, The Silmarillion (1977).

 

Como seria de esperar numa peça desta qualidade, o próprio acabamento semi-mate do vidrado e a sua tonalidade musgosa contribuem para evocar um mundo de lagos e florestas mágicas.

 

 

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