Memórias e Arquivos da Fábrica de Loiça de Sacavém

Março 22 2017

   Autocolante comemorativo da segunda Festa do Avante!, 1977.

 

No jornal Avante! número 155, de Janeiro de 1951, publicou-se o seguinte artigo:

 

"OPERÁRIOS!

 De Pé Contra o Desemprêgo!

 

Debaixo do mais desenfreado terror desencadeado pela camarilha salazarista, aliada do patronato, contra os trabalhadores, êstes lutam corajosamente pelas suas reinvidicações, conscientes de que as pequenas vitórias alcançadas abrem o caminho para as grandes vitórias na luta pelo derrubamento do fascismo, pela Democarcia e pela Paz.

 

(...)

 

São os operários da Fábrica de Louça de Sacavém lutando contra as miseráveis condições de trabalho, exploração e despedimentos e conseguindo aumento de salário e melhores condições de trabalho.

 

(...)

 

OPERÁRIOS E OPERÁRIAS!

 

Exigi, através de Comissões por vós eleitas, de concentrações, de protestos, exposições, etc., trabalho para todos os desempregados ou subsídio, salários que vos permitam fazer face ao actual nível de vida.

 

Exigi que cesse a desenfreada política de guerra da camarilha salazarista, causadora do aumento crescente de desemprêgo e do nível de vida [sic]."

 

 

© MAFLS

publicado por blogdaruanove às 21:01

Março 19 2017

 

Pequena moldura, para fotografia ou relógio, com cerca de 7,8 x 5,5 x 2,5 cm. e 2,9 cm. de diâmetro na abertura, em porcelana da fábrica Artibus, de Aveiro.

 

A decoração floral da parte superior, aplicada sobre uma superfície em relevo, traduz uma certa gramática Art Déco que, na cerâmica portuguesa, se prolongou pela década de 1940 e chegou, inclusive, à década seguinte. 

 

A atenção ao pormenor, a delicadeza e a elegância de certa decoração desta fábrica estão bem patentes no detalhe do motivo floral complementar, já sem qualquer influência Art Déco mas também pintado à mão, como toda a outra decoração, aplicado no reverso da moldura.

 

 

Como acontece em peças de muitas outras fábricas, portuguesas e estrangeiras, a sigla junto da marca corresponderá ao/à pintor/a que executou a decoração.

 

Curiosamente, esta sigla de pintor/a, semelhante a um Phi, surge também em algumas peças de uma outra fábrica de Aveiro, a Aleluia – http://mfls.blogs.sapo.pt/arte-em-cacos-350019 .

 

 

© MAFLS 


Março 17 2017

 

Por cortesia de Clive Gibert, que muito se agradece, apresenta-se hoje a fotografia de um conjunto de bule e cafeteira do período final da FLS.

 

Segundo o mesmo, este modelo, com decoração minimalista a preto e branco, destinar-se-ia provavelmente à comercialização exclusiva pela empresa Debenhams (http://www.debenhams.com/#), embora tal pareça nunca ter vindo a acontecer.

 

De qualquer modo, conhece-se este formato com diferentes decorações, como se pode constatar no catálogo da exposição 150 Anos – 150 Peças, Fábrica de Loiça de Sacavém, realizada em 2006 no Museu de Cerâmica de Sacavém.

 

O corpo apresenta evidente semelhança com o do formato Hotel (http://mfls.blogs.sapo.pt/tag/formato+hotel), centrando-se a modernização das peças nos arcos da pega da tampa e das asas. Também o bico corresponde a um anterior formato, clássico, da FLS e de outras fábricas internacionais.

 

O processo de criação de formatos nas duas últimas décadas da FLS passava frequentemente por um processo colectivo de desenho, construção e reconstrução até ao formato final, dependendo muito mais do atelier do que do exclusivo trabalho individual.

 

Embora Clive Gilbert, na sua capacidade de engenheiro especializado em cerâmica, tenha participado activamente no desenvolvimento de alguns formatos durante as décadas de 1960 e 1970, particularmente de loiça sanitária – onde interveio na criação dos formatos Savoy e Superbus, não recorda se também interveio neste conjunto em particular.

 

 

No entanto, na obra Raul Cunca: O Designer Plural (2014) podemos encontrar duas páginas onde se ilustram as obras desenvolvidas por Raul Cunca (n. 1963) para a FLS e surge este formato.

 

Tais páginas, reproduzidas no seu site (http://raulcunca.com/), referem ainda que este designer colaborou com a FLS entre 1986 e 1988 e reproduzem vários exemplos deste modelo, com distintas decorações.

 

O formato de loiça sanitária Superbus, aliás, é um óptimo exemplo da múltipla colaboração anteriormente referida. Inicialmente concebido por Clariano Casquinha da Costa (1929-2013), o desenho deste conjunto veio posteriormente a ser renovado por Clive Gilbert (n. 1938), que concebeu o lavatório, e pelo modelador Daniel Rodrigues (datas desconhecidas), que concebeu o bidé e a bacia.

 

Finalmente, note-se o logótipo da FLS que, embora surja apenas num autocolante, é distinto de quaisquer outras marcas que se tenham aplicado na loiça.

 

© MAFLS


Março 15 2017

   Autocolante comemorativo da primeira Festa do Avante!, 1976.

 

No jornal Avante! número 135, de Abril de 1949, publicou-se o seguinte artigo:

 

"FACE AO AGRAVAMENTO DO CUSTO DE VIDA

 Intensifiquemos as lutas de massas

 

As massas trabalhadoras, especialmente a classe operária sabem com larga experiência que é pelas lutas de massas que vêm [sic] satisfeitas as suas reinvidicações mais prementes, que é pelas lutas de massa que conseguem sustar [sic] a exploração desenfreada do patronato e do governo.

 

A história de um passado recente dá-nos conta de inúmeras vitórias das classes trabalhadoras do campo e da cidade, através das lutas parciais por empresa, por rancho, por ramo de indústria e por região.

 

Sabendo que a força do proletariado está na unidade e na acção das massas, os trabalhadores formaram as suas Comissões de Unidade, organizaram e popularizaram os seus cadernos reivindicativos e lançaram-se na luta pela satisfação des-as [sic] reivindicações. Foram as lutas parciais, encabeçadas pelas Comissões de Unidade, que lhes deu a vitória sobre a exploração dos baixos salários, sobre o mercado negro, sobre as faltas de pão e de géneros. Serão ainda e sempre as lutas parciais que abrirão caminho para o levantamento nacional que há-de derrubar o fascismo salazarista, o grande responsável pela miséria do povo português.

 

O agravamento actual do custo de vida (os aumentos já havidos nas rendas de casa e nos transportes, a falta de géneros em mercado livre e as perspectivas do mercado negro com todas as suas consequências) impõe que o proletariado intensifique as lutas reivindicativas nos seus sectores de trabalho, apresentando-se juntos dos patrões e dos dirigentes dos sindicatos respectivos, a fazerem valer os seus direitos e a conseguirem exito nas suas justas reclamações.

 

Assim o compreendem os operários de algumas empresas de Lisboa e arredores, que, por intermédio das suas Comissões de Unidade, estão a levar avante e com exito movimentos reivindicativos.

 

(...)

 

O pessoal de fogo da Fábrica de Louças de Sacavém obteve pela luta um aumento de 3$00 no seu salário.

 

(...)

 

Trabalhadores! Avante na luta pelas vossas reivindicações!"

 

 

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publicado por blogdaruanove às 21:01

Março 11 2017

 

Terrina em faiança, com cerca de 13,4 x 18,2 x 27,7 cm., decorada a azul com o motivo habitualmente conhecido como Cantão Popular.

 

Tal como acontece em diversos outros exemplares semelhantes, quer do século XIX quer do século XX (http://mfls.blogs.sapo.pt/tag/cant%C3%A3o+popular), esta decoração combina motivos aplicados a stencil com pintura manual.

 

Como acontece também em muitos exemplares com esta decoração, particularmente nos mais antigos, esta peça não se encontra marcada. 

 

© MAFLS

 


Março 08 2017

   Autocolante comemorativo dos dois anos de actividade legal das Edições Avante!, 1976.

 

O jornal Avante!, órgão central do Partido Comunista Português, publicou o seu primeiro número a 15 de Fevereiro de 1931. Desde a fundação do P.C.P., a 6 de Março de 1921, havia sido antecedido por dois outros títulos de imprensa – O Comunista, publicado logo em 1921, ainda durante a I República, e O Proletário, publicado em 1929, já em período da Ditadura Nacional, que antecederia o Estado Novo.

 

Publicando-se e distribuindo-se na clandestinidade entre 1931 e 1974, o Avante! apresentou durante esse período diversos artigos, ou curtas notícias, sobre a FLS.

 

Por cortesia do Gabinete de Estudos Sociais do P.C.P., que novamente se agradece, o Memórias e Arquivos da Fábrica de Loiça de Sacavém recebeu cópia de jornais onde alguns desses artigos surgiram, os quais serão aqui transcritos ao longo do corrente mês de Março.

 

No jornal Avante! número 46, de Agosto de 1937, publicou-se o seguinte artigo:

 

"GRAVES ACONTECIMENTOS EM SACAVEM

 

Acaba de se produzir em Sacavem um acontecimento duma gravidade extrema. Em resposta às reclamações dos aprendizes da fabrica de loiça, que pretendiam um aumento de salário há vários meses prometido e exigiam a libertação de dois camaradas injustamente presos, o fascismo pôs em prática as mais violentas medidas contra os operarios e contra todo o povo de Sacavem. Pôs Sacavem em estado de sítio fazendo invadir esta pacífica população [sic] por tropas numerosas da polícia, G.N.R. e polícia da Informa armados de mais de 40 metralhadoras.

 

Depois de cercarem a fabrica espancaram violentamente os operarios.

 

Foi tão barbara esta violencia que a mãe dum camarada, muito doente, faleceu, vítima da comoção sofrida. Um camarada foi assassinado.

 

O povo de Sacavem, em pêso, vibra de indignação contra estas prepotências do fascismo. E assim, esta luta que, a princípio, se resumia na luta pela melhoria da miseravel situação em que se encontravam os aprendizes, tornou-se com razão a luta de tôdo o povo de Sacavem contra o fascismo barbaro e assassino.

 

Não foi casualmente que a população de Sacavem ao ter conhecimento das dezenas de prisões que se efectuaram na fabrica, tocou os sinos a rebate e compareceu em massa em auxílio da parte agredida. Graças à intervenção rapida e massiva do povo, fôram restituidos à Liberdade 40 trabalhadores que já estavam sob prisão, ficando, no entanto, 25 que já tinham seguido para Lisboa.

 

Todas as pessoas honestas de Sacavem estão ao lado dos operarios e vêem claramente a sua razão.

 

Quem poderá, depois disto, esconder a verdadeira cara de assassino do govêrno de Salazar? Quem acreditará mais na demagogia fascista? Ninguem, certamente.

 

Para todos é claro que o fascismo quere reduzir a população laboriosa de Portugal a simples escravos, sem vontade, e sem direitos de especie alguma. Mas a essa tendencia bestial deve o povo trabalhador opor uma firme resistência organizada e uma vontade inquebravel de luta.

 

O fascismo é o inimigo fundamental de todos os povos.

 

Trabalhadores da fabrica de loiças de Sacavem, não vos submeteis [sic] à canga infamante que vos querem pôr.

 

Se fôsseis agora derrotados, os patrões desencadeariam contra as vossas condições de vida a mais violenta ofensiva.

 

Lutai até arrancar a vitória.

 

Povo de Sacavem. Êste caso não interessa só aos operarios das fábricas, mas a todos nós. Uni-vos todos, e como um só homem, exigi a liberdade dos presos!

 

Não permiti [sic] que tais violências se repitam em Sacavem.

 

Todos juntos lutar;

 

Pela liberdade dos presos!

 

Pela solidariedade às suas familias!

 

Pelo cumprimento das promessas feitas aos homens!"

 

 

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publicado por blogdaruanove às 21:01

Março 06 2017

 

Pequeno cinzeiro, com cerca de 10,9 cm. de diâmetro, ostentando o símbolo e as iniciais do Partido Comunista Português, que foi fundado há precisamente 96 anos, em 6 de Março de 1921.

 

Vejam-se outras peças da FLS, com este símbolo partidário, aqui: http://mfls.blogs.sapo.pt/tag/pcp.

 

 

© MAFLS

publicado por blogdaruanove às 21:01

Março 05 2017

 

Taça em faiança, com cerca de 9,8 cm. de altura e 22,9 cm. de diâmetro máximo, produzida em 1977 na ilha de S. Miguel, Açores.

 

Apresenta uma invulgar decoração floral, em relevo, onde predominam tonalidades de rosa e verde, combinação cromática que evoca alguma da iridescente cerâmica Art Nouveau produzida pela fábrica húngara Zsolnay na viragem do século XIX para o século XX.

 

Nesta ilha açoriana subsistem ainda três centros de produção cerâmica – a fábrica Micaelense, na Ribeira Grande, a fábrica Vieira, na Lagoa, fundada em 1862, e ainda um centro oleiro em Vila Franca do Campo, que produz essencialmente cerâmica não vidrada.

 

Ao contrário das restantes, as peças da Cerâmica Micaelense são originalmente produzidas no exterior e posteriormente decoradas e cozidas na fábrica.

 

 

 © MAFLS


Março 03 2017

 

Atingiram-se hoje as quinhentas mil visitas ao espaço Memórias e Arquivos da Fábrica de Loiça de Sacavém.

 

Para assinalar a efeméride, apresenta-se uma figura de elefante em pasta de loiça sanitária, com cerca de 21,6 x 25,8 x 9,8 cm., ostentando vidrado pérola semi-mate.

 

Esta peça foi originalmente modelada pelo escultor britânico Donald Gilbert (1901-1961) e, tal como já foi mencionado, surge referenciada na tabela de preços de Novembro de 1945 sob o número 183 e a designação "Elefante" ao preço de 141$00 para "Colorido s/ ouro", surgindo ainda nas tabelas de Maio de 1951, ao preço de 162$00 para "Côres Mates ou coloridos s/ ouro", e de Maio de 1960, ao mesmo preço para "Branco colorido s/ ouro".

 

O exemplar desta última tabela existente no CDMJA/MCS regista que o peso da peça é de 930 gramas.

 

Elefantes com este formato estiveram em produção provavelmente até à década de 1980, sendo esta uma das esculturas de animais mais comercializadas pela FLS. Um exemplar com o mesmo vidrado pode ser visto numa fotografia onde aparece conjuntamente com outras figuras de animais que também tiveram uma produção prolongada no tempo: http://mfls.blogs.sapo.pt/176503.html

 

Dois outros exemplos de diferente vidrado monocromático aplicado em peças com o formato 183 podem ser vistos no espaço de MUONT: http://modernaumaoutranemtanto.blogspot.pt/search/label/Elefante.

 

Sendo esta uma peça do período final da FLS, não apresenta qualquer marca, como acontecia com outros exemplares dessa época produzidos na mesma pasta.

 

© MAFLS 


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