Memórias e Arquivos da Fábrica de Loiça de Sacavém

Dezembro 03 2012

Caricatura de Clive Gilbert executada em 1967 por Leonel Cardoso (1898-1987).

Note-se o novo logótipo da FLS concebido por Clive Gilbert.

 

O INÍCIO DE UMA CARREIRA NA FLS (IV) 

 

Para complementar os apoios sociais já referidos, existiu na fábrica, durante as décadas de 1930 e 1940, uma vacaria, pois havia a ideia de que o leite então disponível no mercado era, em grande parte, adulterado. Assim, a qualidade do leite disponível para o pessoal da empresa ficava assegurada. Junto às vacas havia uma cocheira com algumas mulas, que puxavam uns vagões sobre carris pelos arruamentos principais da fábrica. Estes vagões transportavam matérias-primas e outro material necessário em vários locais ou dependências da fábrica. O mais curioso era que, todos os dias, logo que tocava a sirene ao meio-dia para indicar a hora do almoço, as mulas recusavam-se a continuar a trabalhar e voltavam para a cocheira! Sem sequer acabarem o trabalho que tinham iniciado. Ao fim do dia acontecia exactamente a mesma coisa!

 

Alguns funcionários mais maliciosos comentavam que até parecia haver um sindicato das mulas na FLS! Estes comentários sibilinos estabeleciam contraponto com uma organização activa na empresa, que havia sido encorajada por Herbert Gilbert – o sindicato dos trabalhadores da indústria cerâmica, cuja primeira sede foi dentro da própria fábrica.

 

Continuando a referir os aspectos sociais, para além da vacaria havia uma horta, perto das moradias, que fornecia a cantina. A empresa tinha também o seu próprio corpo de bombeiros, pois os meios da corporação que nessa altura existia em Sacavém não se revelavam suficientes para acudir a um eventual incêndio industrial de grandes proporções.

 

Como não haviam grandes actividades fora das horas do trabalho, a empresa tinha um campo de jogos para a prática de futebol, hóquei em patins, basquetebol, atletismo, e outras modalidades. Ainda antes desta época, a empresa tinha já a sua equipa de futebol que, em 1909, jogou contra o S. L. Benfica. O resultado desse encontro foi de 1-0 a favor do Benfica.

 

Pouco tempo depois de eu começar a trabalhar na Sacavém, em Julho de 1960, fui convidado a candidatar-me a presidente do Grupo Desportivo da Fábrica de Loiça de Sacavém. Fui eleito (claro, aquilo só dava trabalho que não era pago!) e escolhi a minha equipe para a direcção. Qual não foi o meu espanto quando fui informado que teria de mandar a lista para a P.I.D.E., a fim de todos os membros da lista serem aprovados!

 

Uma das particularidades de que me apercebi quando fui acompanhar jogos da nossa equipa, que na altura participava no campeonato da F.N.A.T. (Fundação Nacional para a Alegria no Trabalho, instituída em 1935), era que os jogos normalmente acabavam em pancadaria, com vários jogadores de ambas as partes a serem expulsos! Como resultado resolvemos acabar com a prática do futebol na FLS e aplicar a verba destinada a esta área (cerca de 100.000$00 escudos por época, o que na altura era um valor bastante elevado) para fins sociais. Essencialmente, garantindo empréstimos ou donativos aos trabalhadores mais carenciados. O funcionamento deste serviço foi entregue à assistente social da empresa. Tudo corria muito bem, mas ao fim de algum tempo notámos que os "clientes" eram sempre os mesmos pois aqueles que realmente precisavam de apoio tinham vergonha de o pedir…

 

O mais engraçado, no meio disto tudo, é que houve um caso de uma trabalhadora que tinha pedido um empréstimo e que um dia veio entregar a verba em dívida, despedindo-se da empresa na mesma altura. Viemos a saber mais tarde que ela tinha uma casa da má fama em Moscavide. Consta que, certo dia, um cliente, não tendo dinheiro para pagar o serviço prestado, lhe deu uma cautela da lotaria. Claro que já se está a ver o que veio a acontecer... A trabalhadora acabou por ganhar uma pequena fortuna!

 

© Clive Gilbert

© MAFLS

publicado por blogdaruanove às 13:09

A estas memórias chama-se património imaterial, sem o seu registo perder-se-iam...

Um obrigada ao contador e ao autor deste blog.

Queremos continuar a viver esta história grande da faiança da SACAVÉM...

Parabéns,
Conceição
Anónimo a 19 de Dezembro de 2012 às 22:47

Conceição.

Obrigado pelo elogio! Dá-me força para continuar!

Boas Festas!

Clive
clive gilbert a 21 de Dezembro de 2012 às 12:35

Concordo inteiramente! São preciosas estas memórias!
Espero continuar a desfrutar desta agradável leitura.
Cumprimentos
Maria Andrade a 20 de Dezembro de 2012 às 22:16

Bom dia Maria Andrade,

Obrigado pelo apoio. Dá-me forças para continuar!

Boas Festas e Feliz Ano Novo,

Clive Glbert
clive gilbert a 21 de Dezembro de 2012 às 12:37

Referiu-se a um sistema de vagões em carris que percorriam a Fábrica. Em fotografias do golpe de 28 de Maio notam-se carris junto à antiga Fábrica de Moagem que se dirigem ao cais no rio, pergunto se pertenceriam à FLS?
José Costa a 5 de Outubro de 2016 às 03:54

Bom dia, José Costa.

Clive Gilbert encontra-se de momento fora do país, a fim de ser agraciado no Reino Unido pela Casa Real, mas enviar-lhe-ei a sua questão para que, logo que lhe seja possível, a esclareça.

Evidentemente, seria mais fácil esclarecer esta questão caso tivesse também acesso à fotografia que refere.

Saudações.

Obrigado pelo esclarecimento sobre a indisponibilidade temporária do Sr. Gilbert. Não sei como enviar as fotos, pelo que colocarei aqui os links das mesmas.

Existia em Sacavém de baixo uma rede de carris que. pensei assim que os vi. que deveriam pertencer à FLS, porque foi a primeira a estabelecer-se e porque movimentava muita matéria prima e combustível para os fornos.

Nesta foto de 01JUN1926 notam-se carris, com aspecto de haver muito tempo não serem usados, na R. Domingos José de Morais: http://digitarq.arquivos.pt/viewer?id=1204534 .

Nesta foto de 17JUN1926 , http://digitarq.arquivos.pt/viewer?id=1204595 nota-se uma bifurcação desses carris. No lado direito, fora da objectiva, fica a fábrica conhecida como dos Torrados. O pelotão está formado frente à antiga fábrica de moagem e, os carris que seguem para a esquerda, entram num corredor entre esta e os antigos armazéns dos Torrados.

Nesta de 1961, http://arquivomunicipal2.cm-lisboa.pt/xarqdigitalizacaocontent/PaginaDocumento.aspx?DocumentoID=289035&AplicacaoID=1&Pagina=1&Linha=1&Coluna=1 apesar de não haver mais vestígios dos carris em Sacavém de baixo, ainda existiam estes que inflectiam para as traseiras da FLS onde eu conhecia um portão servido por um acesso que passava por debaixo da linha do comboio.

O meu raciocínio é que como a fábrica recebia a matéria prima e o carvão através de navios provenientes de Inglaterra, seria normal que fossem descarregados para embarcações menores que descarregariam nos dois cais que existiam no Trancão. Sei que esta rede é muito anterior a si mas a minha esperança é se teria conhecimento ou documentos que satisfizessem a minha curiosidade.
José Costa a 7 de Outubro de 2016 às 17:41

Para ressalvar o que disse no meu comentário anterior, a fábrica dos Torrados fica à esquerda, fora da objectiva, e não à direita.
José Costa a 7 de Outubro de 2016 às 17:44

Bom dia, José Costa.

Agradeço as imagens, que tive oportunidade de observar com atenção. De momento, não recordo qualquer fonte documental ou iconográfica que possa esclarecer a sua questão.

Creio que Clive Gilbert, tendo nascido já em 1938, talvez não possa adiantar muito sobre a realidade sacavenense de 1926, mas é possível que possa comentar a foto de 1961.

Saudações.
blogdaruanove a 8 de Outubro de 2016 às 09:18

Bom dia, mais uma vez, José Costa.

Acabei de ser contactado por Clive Gilbert, que esclareceu o seguinte:

A rede interna de carris da FLS limitava-se à zona da loiça sanitária e dos refractários, junto do antigo Forte de Sacavém, não se estendendo para norte até às habitações ou ao portão principal junto da E. N. 10. A linha externa comunicava apenas para sul, entroncando na rede da CP junto daquela que ainda é hoje a estação ferroviária de Sacavém. A FLS nunca teve qualquer ligação por carris aos cais e à margem direita do Trancão.

Saudações.

Agradeço a amabilidade e o esclarecimento. Acho estas histórias esclarecedoras sobre aspectos que não dizem apenas respeito à fábrica, uma vez que é impossível dissociá-la da orgânica envolvente de Sacavém. O campo de futebol. por exemplo. foi um pólo dinamizador da vida desportiva e social da localidade. Mesmo estando já ao abandono, foi palco de um dos mais importantes acontecimentos anuais; a feira. Tudo o que veio da FLS foi bom e poucos podem dizer que não tiveram ninguém ligado à fábrica; eu, pelo menos, não posso.

Os senhores e Sacavém não mereciam o fim que teve a fábrica. Foi demasiado triste.

Bem haja Mr. Gilbert.
José Costa a 8 de Outubro de 2016 às 18:53

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