Memórias e Arquivos da Fábrica de Loiça de Sacavém

Janeiro 14 2014

 

Gravura de Caetano Alberto da Silva (1843-1924).

 

"Foi quando se ouviram, coadas no ar macio e quente, umas badaladas alegres e alviçareiras. Mas ninguém se iludiu. Aquilo não era toque de missa ou baptizado. As badaladas eram do almofariz de bronze, que os Bravais tinham na varanda grande e que, batido pelo pilão nas bordas cinzeladas, produzia um som mais rico e poderoso que o sino da Igreja. Tocá-lo nos dias festivos de malhada ou vindima, para avisar a sua gente de que a comida estava pronta, constituía uma das prosápias do abastado lavrador. E com justa razão, que o tanger daquele traste, herdado de antigos avós, ouvia-se até Vilela Seca, quando o vento corria de feição.

 

Meia hora mais tarde, já toda a gente abancava à mesa, armada a toda a correnteza da varanda grande, com tábuas de castanho sobre toscos cavaletes adrede preparados, a poder de prego e martelo, pelo Moina Tamanqueiro, que era um ás em carpintaria do género forte e feio. Mas as toalhas eram de linho e a louça, da Fábrica de Sacavém, ainda exibia, esmaltada a azul escuro, a brava figura de Dom Fuas Roupinho, com o cavalo todo empinado na borda dum rochedo, e salvo do abismo por estupendo milagre da Virgem.

 

– Eh gente! agora é que vai ser malhar! – dizia o Ladral, enquanto lhe serviam uma enorme montanha de arroz.

 

– Santo nome de Deus! – fez um dos parceiros, admirando a pratada. – Parece a serra do Marão!

 

– Trabalha aqui melhor do que na eira! – acrescentou um terceiro.

 

– Deixem comer o homem! – proferiu o dono da casa. – E sirvam-se todos à vontade. Graças a Deus, há que bonde!."

 

Excerto do romance Fazenda Abandonada (1965), de Reis Ventura (1910-1988).

 

Embora haja notícia de que a FLS produziu pratos com imagem da Nossa Senhora da Nazaré, como peças de devoção e recordação da visita ao Sítio da Nazaré, não é muito provável que estes fossem adquiridos em tão grande quantidade com o fim de serem usados nas refeições.

 

O autor terá usado aqui de liberdade literária ou então terá sobreposto sincreticamente esta imagem do cavaleiro D. Fuas Roupinho ao motivo Estátua (Cavalinho), esse sim produzido como conjunto de jantar. 

 

© MAFLS


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