Memórias e Arquivos da Fábrica de Loiça de Sacavém

Junho 29 2013

 

Taça fruteira em faiança, com cerca de 8,5 de altura e 28,9 cm. de diâmetro, sem qualquer marca visível. A decoração do motivo central foi aplicada sobre stencil (chapa recortada) enquanto o rebordo recebeu complementos esponjados a verde.

 

A denominação destes recipientes deu origem a diferentes vocábulos, que muitas vezes são usados indistintamente - alguidar, bacia, escudela, malga, palangana, taça, tigela.

 

Neste conjunto lexical há alguns vocábulos mais arcaizantes, como o castelhanismo palangana ou o termo medieval escudela, e outros de aplicação mais discutível, como o termo malga, que em certas regiões é sinónimo de tigela.

 

A já mencionada (http://mfls.blogs.sapo.pt/103727.html) obra Cerâmica Portuguesa (1931), onde a figura tutelar do coleccionador e estudioso de cerâmica José Queirós (1856-1920) é evocada através da caricatura reproduzida abaixo, regista também um léxico alargado onde, entre as dezenas de vocábulos, surgem referências a "malgas, cuncas, covilhetes tigellas, almofias ou almofas (que eram antigamente vasos grandes do feitio de tigellas)" e "Alguidares, bacias de mãos, palanganas (vasos de muita circunferencia e pouco pé), tigellas da casa (...)".

 

 

O vocábulo cuncas é obviamento um castelhanismo, estando os recipientes denominados concas, cuencos e cuncas bem ilustrados na obra Cerámica Popular Española (1970), da autoria do poeta e historiador de arte J. Corredor-Matheos (n. 1929) e do célebre ceramista J. Llorens Artigas (1892-1980).

 

Já o vocábulo de origem árabe almofia surge referido na obra Vestigios da Lingoa Arabica em Portugal (1830), de frei João de Sousa (1735-1812) e frei José de Santo António Moura (1770-1840), sendo tal recipiente aí definido como uma "Sopeira de estanho, ou de barro vidrado".

 

Visando uma uniformização e aplicação mais precisa de terminologia, o volume Itinerário de Faiança do Porto e Gaia (2001) observa e propõe: "Ao longo dos tempos, os termos malga e tigela foram sendo utilizados para descrever indiferentemente peças de loiça fosca, de vidrado plumbífero, estanífero ou porcelana. Assim sendo, e para que se comece a constituir um corpus terminológico para a descrição das formas cerâmicas, propomos que se passe a utilizar o termo malga para descrever tão só as peças de barro com as características atrás definidas [Vasilha de faiança em forma de calote esférica, com pé, com ou sem perfil carenado.] e revestidas de esmalte estanífero (faiança) ficando o termo tigela cativo para as peças de barro fosco (vermelha ou preta) ou de vidrado plumbífero."

 

Esta proposta, que, além de subestimar a importância do substrato regionalista na pluralidade da oferta lexical, pretende curiosamente constituir um corpus terminológico de formatos com base nas pastas e nos vidrados, acaba por contribuir, obviamente, para aumentar ainda mais a galáxia da disparidade e confusão terminológica.

 

Seja como for, nos catálogos da FLS, e sem que se pretenda sugerir de forma alguma que esta é uma peça dessa fábrica, os recipientes semelhantes a este surgem catalogados quer sob a designação malgas quer sob a designação fruteiras, coadunando-se esta última, sem dúvida, com a decoração da peça que aqui se ilustra.

 

 

© MAFLS


Outubro 28 2012

 

Grande prato de parede, com cerca de 36,4 cm. de diâmetro, apresentando decoração de F. Macedo (datas desconhecidas) executada em 1934 na Fábrica do Agueiro, em Vila  Nova de Gaia.

 

Sobre esta fábrica, o livro Itinerário da Faiança do Porto e Gaia (2001) refere o seguinte:

 

"Estabelecida em 1919 no sítio do Agueiro, em Mafamude, mas com entrada por Soares dos Reis. Dedicava-se ao fabrico de louça e azulejo. Foi continuada por impulso de José de Almeida Pinheiro, em 1941, sendo conhecida sob a firma Cerâmica Soares dos Reis Lª, embora também use, sobretudo em painéis de azulejo, a antiga firma Fábrica do Agueiro. Manteve-se em laboração, com alguma qualidade e originalidade artística, até 1964."

 

Reproduzidas abaixo encontram-se algumas imagens de um revestimento azulejar ostentando a assinatura da Fábrica do Agueiro. Trata-se de um dos conjuntos públicos mais conhecidos desta empresa. Tendo sido executado em 1931, ornamenta a antiga Praça do Rossio, entretanto rebaptizada Praça da República, em Viseu.

 

 

 

       

 

Como também já havia sido referido anteriormente (ver artigo mencionado abaixo) a fábrica Soares dos Reis foi reestruturada em 1941. Efectivamente, nos dois primeiros artigos de uma escritura datada de 25 de Agosto desse ano pode ler-se o seguinte:

 

" Sob a denominação de Fábrica de Cerâmica Soares dos Reis, Limitada, e com o objectivo de explorar o fabrico de louças de pó de pedra e quaisquer outros tipos ou géneros de cerâmica, podendo, no entanto, dedicar-se a outros ramos de indústria ou comércio que os sócios determinem, constitue-se a presente sociedade [sociedade comercial por cotas de responsabilidade limitada], que durará por tempo ilimitado, a contar desta data, sendo a sua sede e domicílio na Rua Soares dos Reis, 159, da vila e concelho de Gaia.

 

O capital social, que se acha inteiramente realizado em dinheiro, é de 80.000$00, dividido nas seguintes cotas dos sócios: D. Beatriz Magalhãis de Almeida, 47.500$00; António Pereira da Silva, 12.500$00; Fernando Osório Oliveira e Manuel João da Costa, 10.000$00 cada um."

 

Assim, poder-se-á concluir que, muito provavelmente, foi a partir desta data que a popular designação Fábrica do Agueiro passou a deixar de constar das peças produzidas na empresa.

 

Sublinhe-se ainda o curioso facto de o nome de José de Almeida Pinheiro, referido no Itinerário da Faiança do Porto e Gaia, não surgir nesta escritura de 1941, nem como sócio, nem como administrador ou gerente, embora se trate muito provavelmente de um familiar da maior accionista.

 

Veja-se um outro prato desta fábrica, com a designação Soares dos Reis, aqui: http://mfls.blogs.sapo.pt/68135.html.

 

 

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Outubro 07 2012

 

Anúncio de página inteira publicado no Almanaque Lello para 1931.

 

Como se viu anteriormente (http://mfls.blogs.sapo.pt/192804.html), neste almanaque publicou-se também um anúncio da FLS, traduzindo esta publicação simultânea a nova realidade empresarial criada em 1930 com a aquisição da Fábrica do Carvalhinho pela FLS.

 

© MAFLS


Setembro 21 2012

 

Anúncio de meia página publicado no Almanaque Lello para 1931.

 

Neste almanaque publicou-se também um anúncio da Fábrica do Carvalhinho, que será reproduzido posteriormente.

 

O aparecimento simultâneo destes dois anúncios num almanaque para 1931, editado no Porto, está indubitavelmente ligado ao facto de a FLS ter adquirido em 1930 a Fábrica do Carvalhinho e à publicitação dessa nova realidade empresarial. Com efeito, ao longo dos oito anos em que este almanaque se publicou – 1929-1936, este foi o único em que se apresentou publicidade destas fábricas.

 

Sublinhe-se ainda a sensibilidade e tacto publicitário dos responsáveis por estes anúncios, que optaram por meia página, sem ilustração, para a FLS e por página inteira, com ilustração, para a Fábrica do Carvalhinho.

 

 

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publicado por blogdaruanove às 21:01

Dezembro 11 2011

 

 

Grande prato de parede, com cerca de 36,8 cm. de diâmetro, pintado à mão sob o vidrado e com aplicação de stencil (chapa recortada) na legenda e nos triângulos.

 

Tal como acontece com um exemplar anteriormente reproduzido (cf. http://mfls.blogs.sapo.pt/68510.html), esta será já uma peça da Fábrica Cerâmica do Cavaco, Lda.

 

Havendo adoptado a designação Fábrica Cerâmica do Cavaco, Lda. em 1920, como já foi referido (cf. http://mfls.blogs.sapo.pt/68510.html), a empresa veio a alterar o seu pacto social em 1931.

 

Através dessa alteração, Júlio Teixeira de Queiroz consolidou a sua posição na gestão técnica da empresa e viu consagrada a obrigatoriedade de a sua assinatura ser necessária para corroborar as assinaturas das sócias, D. Isaura Celeste Ramos de Macedo e D. Ana de Sousa Varela de Queiroz, e lhes conferir validade em quaisquer documentos relacionados com os negócios sociais.

 

Conforme também já foi aqui referido (cf. http://mfls.blogs.sapo.pt/90088.html), em 1 de Agosto de 1936 Luciano Pereira Valente constituiu sociedade com António Augusto Fragateiro Júnior e Manuel Rodrigues Ferreira da Costa para adquirir a fábrica, que ficou com um capital social de 15.000$00, equitativamente repartido pelos sócios.

 

Não tendo sido exibida nos E.U.A., esta peça encontra-se a ilustrar, no entanto, um dos textos do único exemplar conhecido do catálogo da exposição Portuguese Ceramics in the Art Deco Period, realizada em 2005.

 

 

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Novembro 13 2011

 

Grande escultura em terracota de uma mulher da Nazaré, com cerca de 39,4 cm. de altura, inicialmente patinada a verde mate e posteriormente a purpurina dourada, também sem brilho.

 

Encontra-se marcada e datada na base, à direita da figura, com a inscrição "Cerâmica Moderna, Lda. / Caldas da Rainha / 1931".

 

Desta escultura, modelada por Alberto Morais do Vale (1901-1955), conhecem-se mais três versões – uma com cerca de 30,5 cm. de altura, exibida na exposição 50 Anos de Cerâmica Caldense: 1930-1980, realizada nas Caldas da Rainha em 1990, outra com cerca de 20,5 de altura, reproduzida no livro A Cerâmica de Rafael Bordalo Pinheiro (1987; 2.ª ed., 2009), de Aida Sousa Dias e Rogério Machado, e ainda uma outra com cerca de 19,4 cm., que se reproduz abaixo.

 

Para além das dimensões e da patine, qualquer uma destas três versões apresenta outras diferenças, quer entre si quer relativamente à peça aqui destacada.

 

       

 

A versão exibida em 1990, em pasta branca chacotada, apresenta a nazarena com a boca fechada, o dedo mindinho da mão esquerda afastado, um avental sobreposto à saia, e uma canastra distinta.

 

A versão menor aqui reproduzida, uma cópia muito mais rudimentar, também apresenta a figura com a boca fechada, com avental, com o dedo afastado e diferente canastra, mas perdeu os detalhes do vestuário, passou a apresentar bolsos no avental e passou a ter a designação Nazaré, da base, à esquerda da figura.

 

A versão apresentada na obra publicada em 1987 parece ser o protótipo desta última, embora não apresente os bolsos que aqui surgem. Nessa obra, a peça ilustrada é em barro vermelho, não vidrado, indicando-se que a mesma, datada de 1934, ostenta a marca da Cerâmica Moderna e o monograma de Alberto Vale.

 

De todas estas alterações, que no caso do avental e da canastra pretenderam reproduzir com mais rigor o trajo nazareno, é de estranhar, mesmo por motivos estéticos, aquela que eliminou a sugestão do característico apregoar das vendedeiras.

 

 

Alberto Morais do Vale

 

Embora a tábua cronológica do catálogo da exposição de 1990 refira que a Cerâmica Moderna, Lda. terá sido fundada em 1933, e não terá subsistido para além desse ano, esta peça encontra-se datada de 1931, como se pode verificar na fotografia reproduzida abaixo.

 

No entanto, até ao momento, ainda não foi encontrado qualquer registo oficial da empresa quer para o ano de 1931 quer para o ano de 1933.

 

Registe-se, ainda, que na exposição de 1990 foram exibidas oito esculturas de Morais do Vale – uma bailarina, uma representação da actriz Greta Garbo (1905-1990), um perú, uma mulher do Minho, a já referida versão desta mulher da Nazaré, uma tremoceira das Caldas da Rainha, um ampara-livros mulher e um ampara-livros cavalo.

 

Finalmente refira-se que, traduzindo o sucesso e a popularidade das estrelas de cinema, a FLS produziu um busto da também famosa actriz Marlene Dietrich (1901-1992), em diferentes pastas, uma variante das quais será brevemente aqui apresentada.

 

 

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Maio 16 2011

 

Vinheta e legenda que rematam as dezasseis páginas do opúsculo Cerâmica Portuguesa (1931), integrado na colecção Patrícia dirigida por Albino Forjaz de Sampaio (1884-1949).

 

O texto desta publicação indica a data de fundação da FLS como sendo 1850, observando ainda o seguinte sobre a fábrica, no contexto da produção cerâmica nacional:

 

"Em Portugal fabrica-se ceramica artistica, popular, sanitaria e de construção. A ceramica artistica nas Caldas da Rainha, Vista Alegre, Porto, Coimbra e Lisboa. A popular em quasi todo o paiz como a de construção. A sanitaria é, na sua quasi totalidade, da fabrica de Sacavem, arrabaldes de Lisboa. A fabrica de Sacavem é a mais importante fabrica de ceramica portuguesa. Vista Alegre a da porcelana."

 

Reproduz-se abaixo a capa do opúsculo, da autoria, como todas as capas da colecção, do consagrado artista Jorge Barradas (1894-1971), o qual também se afirmou como notável ceramista.

 

 

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Abril 17 2010

 

Prato estampado sobre o vidrado. A marca Gilman & Cta. também se encontra aplicada sobre o vidrado.

 

Conhece-se um exemplar semelhante a este, com a mesma imagem e os mesmos tipos de letra, em preto, apresentando a data de 15 de Agosto de 1905.

 

Considerando o sentimento anti-clerical que se desenvolveu durante o regime republicano e a lei de 1911, que implementava a separação entre a Igreja e o Estado, é muito  provável que a produção de pratos comemorativos desta festa não tenha sido constante, ou tenha mesmo cessado, ao longo da I República (1910-1926).

 

O culto a Nossa Senhora da Oliveira encontra-se disseminado de norte a sul do país, sendo particularmente ancestral o culto observado em Guimarães, que remonta pelo menos ao século XIV.

  

Em Portugal, associando também o culto da imagem de Nossa Senhora  a uma oliveira, ou olival, registam-se ainda as invocações de Nossa Senhora da Oliva, Nossa Senhora dos Olivais, Nossa Senhora do Olival, Nossa Senhora das Oliveiras e Nossa Senhora da Oliveirinha.

 

Uma das invocações mais recentes no âmbito dos cultos marianos é a de Nossa Senhora da Paz a qual, seguindo a simbologia bíblica, também se apresenta associada à oliveira.

 

 

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