Memórias e Arquivos da Fábrica de Loiça de Sacavém

Abril 05 2014

 

Conjunto de leiteira, açucareiro e bule, formato "Asa Triangular", em porcelana da Vista Alegre, Ílhavo, apresentando marcas correspondentes ao período 1924-1947.

 

Os arquivos da VA, relativos a uma leiteira similar a esta registada sob a entrada número 4072 de 1938, referem que este formato foi introduzido em Julho de 1933, embora o arredondado bico desta peça seja distinto daquele original, que era angular.

 

A imagem destes exemplares consta, juntamente com outra imagem de chávenas do mesmo formato, do catálogo da exposição Portuguese Ceramics in the Art Deco Period, realizada nos EUA em 2005, sendo da autoria da fotógrafa americana Maggie Nimkin (http://www.maggienimkin.com/).

 

Uma leiteira do formato "Asa Triangular" original, com o bico angular e decoração floral foi também exibida nesse evento, surgindo sob o número 154 de catálogo.

 

Esse formato original, com decoração exactamente igual a esta, pode também ser visto no espaço de Maria Andrade: http://artelivrosevelharias.blogspot.pt/2012/04/formas-clarice-cliff-em-porcelana-da.html.

 

Conforme referido no catálogo daquela exposição, e também no espaço acima mencionado, esta leiteira é muito semelhante ao modelo Bizarre Ware Conical Shape introduzido em Inglaterra em 1929 e desenhado pela consagrada Clarice Cliff (1899-1972).

 

Por sua vez, a base do açucareiro evoca claramente a influência da Bauhaus, em particular o famoso design que Marianne Brandt (1893-1983) produziu para bules, taças e cinzeiros, de metal, em meados da década de 1920.

 

Peças com formatos semelhantes constam também do catálogo da Fábrica de Cerâmica de Joaquim Macedo Correia, de Barcelos, sob os números 794, cafeteira, e 797, açucareiro, sendo o desenho das mesmas atribuído a João Macedo Correia (1908-1987).

 

Note-se que a imagem original foi registada em película e posteriormente digitalizada, o que afectou a sua qualidade e não reflecte as características que uma impressão em papel fotográfico oferece.

 

Uma diferente fotografia destas peças surgiu em grande destaque na primeira página de jornal Luso-Americano (http://www.lusoamericano.com/), publicado em Newark, New Jersey, E.U.A., algumas semanas antes da inauguração da referida exposição.

 

© MAFLS


Dezembro 27 2013

 

Fundada em 1825, a fábrica sueca Gustavsberg (cuja grafia original era Gustafsberg) tornou-se particularmente célebre entre as décadas de 1930 e 1960 pela sua produção modernista, pela produção de estúdio e pela série Argenta, criada por Wilhelm Kåge (1889-1960).

 

No entanto, a fábrica produzira já importantes peças decorativas no século XIX. Durante a última década desse século e as primeiras do século XX foram particularmente notáveis as criações do director artístico Josef Ekberg (1877-1945), que favoreceu a decoração de peças com a técnica de sgraffito.

 

Utilizando como base um corpo cerâmico em faiança branca, essa técnica caracteriza-se pela sobreposição de outras camadas monocromáticas (azuis e, com menor frequência, verdes), em tons claros e escuros,  que depois são trabalhadas e parcialmente retiradas para efectuar a decoração. O vidrado era preferencialmente mate, embora se tenham produzido algumas peças com vidrado brilhante.

 

 

Seguiu-se um período em que a decoração insistia particularmente no dourado para complementar o próprio formato das peças, mas na década de 1930, quando Wilhelm Kåge já era director artístico, a fábrica passou a favorecer a técnica da série Argenta, desenvolvida pelo próprio Kåge.

 

Esta técnica caracteriza-se pela utilização de uma  base de vidrado mate, preferencialmente verde de cobre mas também vermelho sangue de boi, a que se sobrepõe a decoração efectuada através de uma fina camada de prata.

 

A empresa Gustavsberg acabou por ser adquirida em 2000 pela companhia alemã Villeroy & Boch (fundada em 1748), que mantém aquela marca.

 

 

A primeira peça apresentada, com cerca de 20,4 cm. de altura, é uma jarra trabalhada com a técnica de sgraffito, ostentando um motivo de bagas e folhagem muito característico do gosto Art Nouveau. Assinada por Josef Ekberg, está datada de 1909.

 

A segunda, também assinada por Ekberg mas datada de 1919 e com cerca de 29,6 cm. de altura, apresenta um esgrafitado que evoca as rosas e flores estilizadas desenvolvidas por C. R. Mackintosh (1868-1928) numa específica e consagrada variante escocesa do estilo Art Nouveau.

 

 

A terceira peça, uma taça assinada já por Wilhelm Kåge, datada de 1928 e com cerca de 10 cm. de altura e 22,5 cm. de diâmetro máximo, apresenta uma decoração de estilo Art Déco, mais geometrizante e feérica, com predominância de dourados que não seriam posteriormente a imagem de marca das cerâmicas desenvolvidas por Kåge.

 

A quarta peça, também uma taça com cerca de 10,3 cm. de altura e 22 cm. de diâmetro máximo, utiliza mais sobriamente os dourados, procurando fazer ressaltar as formas geométricas e escultóricas da sua modelação. Assinada ainda por Ekberg, num período mais tardio das suas criações, quando este já era sexagenário, está datada de 1938.

 

                         

 

A última peça, uma pequena taça da série Argenta concebida por Kåge, com cerca de 8 cm. de altura e 8,8 cm. de diâmetro máximo, é já de uma fase intermédia desta linha, sendo datável da década de 1940 ou 1950.

 

               

 

© MAFLS


Janeiro 30 2012

 

 

 

Eva Zeisel (nascida Eva Amalia Striker, ou Stricker), a consagrada designer e ceramista de origem húngara, faleceu há precisamente um mês, a 30 de Dezembro de 2011, com 105 anos.

 

Homenageando a sua memória e a sua obra, reproduz-se hoje uma peça em porcelana da Vista Alegre que poderá estar ligada ao seu nome. Com efeito, o design desta terrina é-lhe atribuído com algumas reservas, mas a atribuição faz-se com base na informação que consta dos arquivos da VA.

 

De facto, no verbete 6485 desses arquivos surge uma cafeteira modelo "Primavera" cuja autoria é atribuída a "Mme. Stricker" [sic]. O seu formato, aprovado em Janeiro de 1961, apresenta uma variante mais rectilínea do motivo aqui aplicado em relevo, com a mesma pega na tampa.

 

Estes pormenores rectangulares, que na cafeteira surgem também na asa, não são consentâneos com o design da fase americana de Zeisel, mas surgem com frequência na sua fase alemã da fábrica Schramberg (SMF), onde produziu inúmeras peças influenciadas pelos princípios da Bauhaus. Considerando os dois modelos, este da terrina apresenta o formato que mais se aproxima da característica gramática curvilínea de Zeisel. 

 

Como já foi aqui referido, existe uma outra peça VA que nem sequer lhe é atribuída, mas que é indubitavelmente da sua autoria. Trata-se do canjirão "Machado", produzido pela VA a partir de 1938. Embora não se encontre assim creditado nos arquivos da VA (no verbete 2594 da fábrica, a única anotação manuscrita sobre os dados históricos da peça P.A. 617 refere ter sido este modelo dado [sic] por Machado dos A.), o formato corresponde à adaptação de uma peça criada por Zeisel para a SMF, em 1929 ou 1930.

 

Um exemplar desse canjirão da VA, com a inscrição "Recordação de Braga" e uma imagem do Santuário do Sameiro, foi exibido na exposição Portuguese Ceramics in the Art Deco Period, realizada em 2005 nos E.U.A.

 

Lucie Young, Eva Zeisel (2003).

 

Dando provas de enorme vitalidade e dinâmica criativa, Eva Zeisel colaborou ainda em 2004 e 2005 num projecto da Vitrocristal, agrupamento empresarial criado para promover o vidro da Marinha Grande sob a designação MGlass, naquela que terá sido porventura a sua última ligação ao design da indústria portuguesa.

 

Tal projecto culminou numa pequena exposição realizada em Nova Iorque, no edifício das Nações Unidas, onde se exibiram peças em vidro criadas por mulheres de três diferentes nacionalidades e de diferentes gerações (cf. http://www.un.int/portugal/mglassfotos.htm).

 

Ironicamente, este parece ter sido o canto do cisne do projecto MGlass, que se tinha iniciado em 1999 e era um aparente caso de sucesso na recuperação e promoção da indústria vidreira (cf. http://www.cmjornal.xl.pt/detalhe/noticias/nacional/actualidade/o-ultimo-sopro-na-marinha-grande).

 

Terminando com uma nota de humor, refira-se que o célebre conjunto para sal e pimenta Town and Country, criado em 1946 por Zeisel e produzido a partir do ano seguinte pela fábrica americana Red Wing (http://www.washingtonpost.com/eva-zeisel-salt-and/2012/01/02/gIQADz72WP_photo.html), parece ter inspirado o desenho e a forma dos famosos Shmoos (http://en.wikipedia.org/wiki/Shmoo), personagens de BD criadas em 1948 por Al Capp (1909-1979), embora as pessoas se preocupem mais em estabelecer outras semelhanças formais e ninguém pareça querer admitir tal facto...

 

Sobre Eva Zeisel, consultem-se mais alguns dados publicados neste espaço, em: http://mfls.blogs.sapo.pt/43735.html, e veja-se o vídeo The playful search for beauty, com cerca de 18 minutos, aqui: http://www.youtube.com/watch?v=x72uoP2a55I.

 

Eva Zeisel em 1935.

 

© MAFLS


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