Memórias e Arquivos da Fábrica de Loiça de Sacavém

Maio 06 2017

 

Pequena jarra moldada, com cerca de 7 cm. de altura, apresentando decoração floral pintada à mão.

 

Este será um dos poucos exemplares que subsistem da exígua produção realizada, entre 1945 e 1947, na efémera Fábrica de Loiça de Viana. É possível que o molde desta peça tenha sido trazido, da sua fábrica de Barcelos, pelo ceramista e modelador João Macedo Correia (1908-1987), o qual foi o responsável técnico da L. V. no atribulado e curto período da sua existência.

 

A Fábrica de Loiça de Viana, Limitada, foi constituída por escritura datada de 25 de Setembro de 1945, localizando-se a sua sede e estabelecimento fabril no lugar da Senhora da Ajuda, freguesia da Meadela, em Viana do Castelo.

 

O seu capital social era de 330.000$00, distribuído da seguinte forma pelos accionistas – José Jorge Alves de Sousa Cruz, 150.000$00; D. Maria Amélia de Sousa Cruz, 100.000$00; Octávio Pereira da Silva, 50.000$00; Dr. João de Espregueira Mendes, 20.000$00; e José Augusto Rosa de Araújo, 10.000$00.

 

No entanto, à data da constitução, José Jorge Alves de Sousa apenas realizara uma entrega de 100.00$00 e José Augusto Rosa de Araújo uma entrega de 1.000$00, pelo que a caixa social apenas totalizava 279.000$00.

 

A maioria das quotas desta fábrica veio a ser adquirida em 1948 pela empresa Jerónimo Pereira Campos, Filhos, de Aveiro, que já se encontrava estabelecida, desde meados da década de 1930, a sul do rio Lima, em Alvarães.

 

Mantendo as instalações da Meadela, a empresa aveirense passou a comercializar esta sua nova produção, na maioria realizada em pasta de faiança fina, um grés feldspático não poroso, com a marca C. F. Viana.

 

 

© MAFLS


Dezembro 08 2015

 

Painel de nove azulejos, com imagem alusiva a Nossa Senhora da Conceição pintada à mão, patente num edifício arruinado de Porto da Cruz, na ilha da Madeira.

 

Este exemplar representa uma invulgar variante aos mais comuns painéis de apenas quatro azulejos, sincrética e iconicamente consagrados a um tema que se confunde com este, os quais começaram a ser lançados em 1940.

 

Os painéis datados de 1940, produzidos em diferentes fábricas e habitualmente estampados, comemoram o dogma da Imaculada Conceição (concepção), apresentando quase sempre a legenda "A Virgem Maria Senhora Nossa foi concebida sem pecado original". Este mesmo motivo conhece-se também num único azulejo (cf. http://mfls.blogs.sapo.pt/228397.html).

 

De facto, para além de apresentar nove azulejos, este conjunto surge com a imagem de Nossa Senhora pintada à mão, não alude explicitamente ao dogma, tendo ainda sido produzido em 1948, dois anos depois do tricentenário da consagração do reino de Portugal a Nossa Senhora da Conceição.

 

Veja-se um azulejo produzido pela FLS no ano de 1946 e com a mesma temática religiosa, mas com uma gramática totalmente distinta, aqui: http://mfls.blogs.sapo.pt/44854.html.

 

 

Em 1818, D. João VI (1767-1826; rei, 1816-1826) instituíu a Real Ordem Militar de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa, que foi extinta enquanto ordem militar pelo governo republicano instaurado em 1910.

 

Com os graus de grã-cruz, comendador, cavaleiro e servente, e condecorações desenhadas pelo artista francês Jean-Baptiste Debret (1768-1848), a ordem tinha el-rei como grão-mestre, sendo preservada nos nossos dias, e concedida ainda a título privado, pelo actual Duque de Bragança.

 

Depreciativamente tratada como a medalhinha de Nossa Senhora da Conceição pelos republicanos do final da monarquia, e também durante a I República, ostenta as iniciais AM (Avé Maria) envolvidas pela legenda Padroeira do Reino e ainda hoje apresenta a tradicional banda monárquica em seda azul celeste.

 

 

© MAFLS


Janeiro 26 2013

     

 

Pequena jarra cilíndrica, com cerca de 16,6 cm. de altura e cerca de de 8,6 cm. de diâmetro, em faiança da Cerâmica Artística e Industrial, Lda. (C.A.I.L.), localizada em Moitalina, Porto de Mós.

 

Por escritura de 31 de Dezembro de 1947, a Cerâmica Artística Industrial, Lda., através da cessão de quotas, passou a ter apenas quatro sócios – Álvaro Augusto das Neves, Jaime Augusto das Neves, Romeu Augusto e Rogério Amaral.

 

Pouco depois, através de nova escritura datada de 10 de Janeiro de 1948, a sociedade aumentou o seu capital social de 60.000$00 para 300.000$00, passando este a ficar assim distribuído – uma quota de 210.000$00, em nome de Álvaro Augusto das Neves, e três quotas de 30.000$00, estando cada uma destas em nome de Jaime Augusto das Neves, Romeu Augusto e Rogério Amaral.

 

Poder-se-ia pensar que o nome de José Rosa (datas desconhecidas), citado no catálogo da exposição Cerâmica em Alcobaça – 1875 até ao Presente: CeRamICa PLUS (2011), seria um daqueles que estaria associado à C.A.I.L. antes de 1948, mas o texto patente nesse catálogo apenas refere o seguinte sobre a fábrica – "(...) e CAIL ou Cerâmica Artística Industrial, Lda., na Moitalina, a que está ligado o nome de Romeu Augusto e, depois, José Rosa; (...)"

 

A C.A.I.L. foi dissolvida a 3 de Dezembro de 1964, não havendo lugar a qualquer liquidação por, de acordo com certidão publicada em Diário do Governo, "a sociedade não possuir activo ou passivo".

 

 

© MAFLS


Março 24 2012

 

Jarra em faiança fina de Viana, da empresa Campos & Filhos, produzida durante a década de 1960. Esta faiança fina é uma pasta feldspática de grés, não porosa, semelhante à porcelana.

 

O formato desta jarra evoca claramente formatos populares desde finais da Idade Média até ao século XVIII, como o de alguns albarellos, os famosos potes de farmácia, distinguindo-se da generalidade da loiça de Viana sua contemporânea pela ausência de qualquer pintura manual (hoje, como então, tradicionalmente apresentando o azul como cor principal) e pela modelação em relevo da pasta.

 

Esta empresa de Viana do Castelo, adquirida em 1948 pela Jerónimo Pereira Campos, Filhos, de Aveiro, tinha o seu centro de produção de loiça doméstica e decorativa na Meadela, mas a CF, mantendo estas instalações e diversificando a sua produção, veio a recuperar e ampliar na outra margem do rio Lima, em Barroselas, uma unidade onde produzia cerâmica de construção e grés, de acordo com a vocação original das suas outras unidades industriais.

 

                    

 

Um aspecto curioso sobre a produção do período de administração da CF é que esta empresa comercializou pires e chávenas de chá e café, monocromáticos e com complemento a ouro, de formatos muito semelhantes a outros produzidos pela Electro-Cerâmica do Candal, formatos esses que foram exibidos na exposição Portuguese Ceramics in the Art Deco Period, realizada em 2005 nos EUA.

 

O conjunto de chávena de chá e pires que se reproduz acima representa esse formato, na versão de porcelana da fábrica da Electro-Cerâmica do Candal, de que se conhecem exemplares em diversas cores. Os exemplares conhecidos da CF são em azul ultramarino, numa clara evocação do prestígio da porcelana decorada a azul cobalto e ouro, combinação cromática consagrada na expressão "ouro sobre azul".

 

Do ponto de vista formal, a única diferença significativa entre este exemplar e os exemplares da CF situa-se ao nível do remate da asa – aqui constituído pela aparente união de duas hastes, nos exemplares da CF apresentando uma única forma contínua.

 

Consultem-se aqui mais informações sobre a loiça de Viana: http://www.lrviana.com/ e http://www.youtube.com/watch?v=kV1fFj8jXZc.

 

 

© MAFLS


Outubro 05 2011

 

Conforme é comummente referido nos catálogos e livros que tratam da história e da produção da porcelana na Vista Alegre, esta é a empresa cerâmica portuguesa que apresenta um dos mais claros registos cronológicos para a mudança de logótipo e marcas, uma vez que a mudança de administração é tradicionalmente acompanhada de mudança da marca que se apõe nas peças.

 

Estas breves notas debruçam-se sobre algumas marcas utilizadas entre 1922 e 1980 que, se exceptuarmos variantes, se resumem a quatro modelos e aos correspondentes períodos – 1922-1947, 1947-1968, 1968-1971 e 1971-1980.

 

Entre outras publicações, esta tabela encontra-se registada no livro Vista Alegre: Porcelanas (1989), de autoria colectiva, e no opúsculo Vista Alegre: Porcelanas Portuguesas (1998), de Ilda Arez (datas desconhecidas).

 

   Marca correspondente ao período 1924-1947.

 

Através da consulta dessa tabela, constata-se que a marca reproduzida acima correponde ao período de 1924 a 1947, sendo que a antecedente desta variante, em que, por exemplo, os traços horizontais que rematam a inicial V são mais curtos, havia sido introduzida em 1922 e esteve também em uso até 1947.

 

Neste primeiro exemplo, contudo, o interessante é que esta é a marca aposta no verso do cinzeiro, sob o vidrado, enquanto que a frente apresenta a marca e a data que se reproduzem. Tal como a filetagem, surgem a azul sobre o vidrado.

 

Será esta uma indicação de a nova marca ter sido apenas introduzida a 19 de Julho de 1948, uma segunda-feira? O facto de a nova marca surgir em destaque na peça sugere que a data celebra uma efeméride relativa à VA, muito possivelmente a da introdução do novo logótipo. Assim sendo, haveria lugar a um pequeno ajustamento na cronologia da referida tabela.

 

 

O segundo exemplo, patente numa peça experimental, apresenta a marca correspondente ao período 1947-1968 acompanhada de anotações referentes aos tempos de cozedura.

 

A marca VA surge sob o vidrado, bem como a referência e a data P. H. 19.7-54. Também o tempo de  cozedura de 20 minutos foi aposto, a azul, sob o vidrado, embora a indicação de cozedura adicional de mais 15 minutos tenha sido já aposta sobre o vidrado.

 

Esta peça, decorada a azul cobalto, sob o vidrado, e a dourado, sobre o vidrado, é um excelente exemplo do acompanhamento que a VA fazia do design da época.

 

Marca correspondente ao período 1947-1968.

 

De facto, este é um motivo que está muito próximo de outros motivos que então surgiram na cerâmica escandinava, particularmente em algumas peças desenhadas por Stig Lindberg (1916-1982; http://mfls.blogs.sapo.pt/63240.html), a partir da década de 1940, para a fábrica sueca Gustavsberg.

 

No entanto, esta peça da VA destaca-se dos desenhos florais de Lindberg pela maior elegância decorrente do tratamento singelo e harmonioso das formas vegetais e pela abordagem quase minimalista da composição.

 

Além de tudo isto, note-se ainda como a circularidade do rebordo está bastante imperfeita, traduzindo assim as características experimentais da peça.

 

          

 

O exemplo seguinte surge numa taça decorada integralmente sobre o vidrado, com um motivo mais uma vez próximo do gosto orientalizante que marcou durante décadas a produção da VA.

 

As romãzeiras, a representação das flores de maiores dimensões e a predominância em exclusivo dos tons de azul e dos retoques a dourado remetem claramente para essa gramática oriental.

 

Marca especial correspondente a 1974.

 

A marca aqui reproduzida corresponde à marca comemorativa dos 150 anos da VA, utilizada durante todo o ano de 1974.

 

Surge ainda a legenda complementar "1.° dia do lançamento / da nova marca / 2-1-74". Esta indicação "nova marca" refere-se exclusivamente à marca do centenário, pois uma versão quase igual deste logótipo, sem coroa de louros nem as datas 1824-1974, como se pode ver abaixo, havia sido já introduzida em 1971.

 

 

Finalmente, o último exemplo apresentado ilustra algo que aconteceu com frequência na década de 1970 – a aposição simultânea da marca VA e da marca SP.

 

Como referido anteriormente, a Sociedade de Porcelanas, de Coimbra, foi adquirida pela VA em 1945. No entanto, até à década de 1970 não era comum haver sobreposição das distintas marcas da fábrica de Coimbra e da fábrica de Ílhavo.

 

A peça apresenta a marca SP sob o vidrado, indicando portanto ser originária de Coimbra, e a marca VA sobre o vidrado, o que poderá indicar ter sido decorada em Ílhavo. Esta sobreposição é conhecida em peças com marca VA correspondentes quer a 1968-1971 quer a 1971-1980, quer ainda em peças exportadas nesse período para os EUA.

 

Esta decoração, de grande qualidade, aliás, embora não pintada à mão, como à primeira vista parece, poderá ter sido também destinada ao mercado de exportação.

 

   Marca correspondente ao período 1971-1980.

 

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Setembro 29 2011

 

Pequena taça com pintura manual aplicada a azul sob o vidrado.

 

Encontra-se marcada, também manualmente, "F. L. Sacavem", datada "1948", numerada "n. 195" e assinada com as iniciais "M. E.", que corresponderão certamente ao/à pintor/a.

 

Note-se como o motivo e o azul aproximam esta peça da produção da Olaria de Alcobaça e de Raul da Bernarda, e da de outras oficinas que usavam semelhante tonalidade, como a do Bombarral, apresentando esta, ainda, o característico escorrido da tinta azul (flow blue) comum na maior parte da faiança assim decorada, quer em Sacavém (cf. http://mfls.blogs.sapo.pt/5773.html) quer noutras fábricas (cf. http://mfls.blogs.sapo.pt/79964.html).

 

Veja-se como, sem ser exactamente igual, este formato é semelhante ao de uma outra taça, datada de 1954, anteriormente aqui apresentada (cf. http://mfls.blogs.sapo.pt/4781.html), sendo os remates laterais desta muito mais próximos da gramática da olaria popular.

 

 

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publicado por blogdaruanove às 21:01

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