Memórias e Arquivos da Fábrica de Loiça de Sacavém

Janeiro 02 2013

Caricatura de Clive Gilbert executada em 1967 por Leonel Cardoso (1898-1987).

Note-se o novo logótipo da FLS concebido por Clive Gilbert.


O INÍCIO DE UMA CARREIRA NA FLS (V)

 

A seguir à Segunda Guerra Mundial a Fábrica de Loiça de Sacavém decidiu fazer investimentos na área de produção, pois os custos directos de fabrico eram bastante elevados, especialmente no que dizia respeito à mão de obra. Optou-se por investir na renovação do equipamento e do sistema de cozimento tendo em consideração que os antigos fornos redondos intermitentes, semelhantes àquele que veio a ser preservado no Museu de Sacavém, para além de precisarem de muita mão de obra em certos períodos, como na altura da carga e descarga, não eram totalmente fiáveis.

 

Além disso, dependiam muito de uma constante e competente vigilância do forneiro que estivesse de serviço, particularmente em determinados períodos do aquecimento e do arrefecimento, que eram momentos críticos. Nessa altura a curva do cozimento tinha de ser mais lenta para permitir que a transformação da sílica na pasta decorresse sem problemas num período bastante sensível que, no caso de não ser devidamente acompanhado, resultaria em elevadas perdas na loiça, pois esta ficaria rachada.

 

Havia uma história que se contava sobre o Mestre John Barlow que dizia conseguir ele ver, a mais de cem metros de distância, se uma fornada de loiça tinha saído com poucas perdas ou se, pelo contrário, tinham havido muitas perdas por falta de controle do cozimento. Quem ouvia isto ficava espantado e perguntava como é que aquilo era possível. O Mestre repondia então que se houvesse muita gente à volta do forno ficava a saber que tinham havido poucas perdas. Se, pelo contrário, não estivesse lá ninguém era certo que o cozimento tinha sido um desastre!

 

Assim, no final da década de 1940, a administração resolveu adquirir em Itália fornos eléctricos contínuos de rolos, para aproveitar o baixo custo da energia eléctrica na altura. Contudo, estes fornos apresentavam uma desvantagem pois, durante o cozimento, os azulejos tinham de ser transportados em placas refractrárias importadas, que eram muito caras.


A solução encontrada foi a de aplicar a experiência adquirida ao longo da segunda Guerra Mundial, durante a qual era impossível importar produtos complementares deste género para o fabrico de loiça. Nesse período, até o ministro Duarte Pacheco (1900-1943) intercedeu junto da FLS para que parte das suas reservas de lenha seca, destinadas aos fornos intermitentes redondos, fosse cedida a terceiros, uma vez que era praticamente impossível importar carvão!


Na altura da guerra os técnicos da Sacavém foram obrigados a puxar pela cabeça e a produzir, ou procurar internamente, eles próprios, muitos destes produtos ou matérias primas. Anos depois, assim foi no caso das placas cerâmicas para os azulejos! 

 

Mais tarde viriam a adquirir-se fornos túneis para o cozimento da loiça de mesa e da loiça sanitária, para substituir aquele que já existia desde 1912 (cf. http://mfls.blogs.sapo.pt/58149.html). Obsoleto, quer quanto ao consumo de energia, quer quanto à fiabilidade de cozimento, ainda chegou a ser transformado por duas vezes, primeiro para cozer a gás pobre e mais tarde a gás propano.

 

É este um assunto que voltarei a tratar posteriormente.


© Clive Gilbert

© MAFLS


Dezembro 03 2012

Caricatura de Clive Gilbert executada em 1967 por Leonel Cardoso (1898-1987).

Note-se o novo logótipo da FLS concebido por Clive Gilbert.

 

O INÍCIO DE UMA CARREIRA NA FLS (IV) 

 

Para complementar os apoios sociais já referidos, existiu na fábrica, durante as décadas de 1930 e 1940, uma vacaria, pois havia a ideia de que o leite então disponível no mercado era, em grande parte, adulterado. Assim, a qualidade do leite disponível para o pessoal da empresa ficava assegurada. Junto às vacas havia uma cocheira com algumas mulas, que puxavam uns vagões sobre carris pelos arruamentos principais da fábrica. Estes vagões transportavam matérias-primas e outro material necessário em vários locais ou dependências da fábrica. O mais curioso era que, todos os dias, logo que tocava a sirene ao meio-dia para indicar a hora do almoço, as mulas recusavam-se a continuar a trabalhar e voltavam para a cocheira! Sem sequer acabarem o trabalho que tinham iniciado. Ao fim do dia acontecia exactamente a mesma coisa!

 

Alguns funcionários mais maliciosos comentavam que até parecia haver um sindicato das mulas na FLS! Estes comentários sibilinos estabeleciam contraponto com uma organização activa na empresa, que havia sido encorajada por Herbert Gilbert – o sindicato dos trabalhadores da indústria cerâmica, cuja primeira sede foi dentro da própria fábrica.

 

Continuando a referir os aspectos sociais, para além da vacaria havia uma horta, perto das moradias, que fornecia a cantina. A empresa tinha também o seu próprio corpo de bombeiros, pois os meios da corporação que nessa altura existia em Sacavém não se revelavam suficientes para acudir a um eventual incêndio industrial de grandes proporções.

 

Como não haviam grandes actividades fora das horas do trabalho, a empresa tinha um campo de jogos para a prática de futebol, hóquei em patins, basquetebol, atletismo, e outras modalidades. Ainda antes desta época, a empresa tinha já a sua equipa de futebol que, em 1909, jogou contra o S. L. Benfica. O resultado desse encontro foi de 1-0 a favor do Benfica.

 

Pouco tempo depois de eu começar a trabalhar na Sacavém, em Julho de 1960, fui convidado a candidatar-me a presidente do Grupo Desportivo da Fábrica de Loiça de Sacavém. Fui eleito (claro, aquilo só dava trabalho que não era pago!) e escolhi a minha equipe para a direcção. Qual não foi o meu espanto quando fui informado que teria de mandar a lista para a P.I.D.E., a fim de todos os membros da lista serem aprovados!

 

Uma das particularidades de que me apercebi quando fui acompanhar jogos da nossa equipa, que na altura participava no campeonato da F.N.A.T. (Fundação Nacional para a Alegria no Trabalho, instituída em 1935), era que os jogos normalmente acabavam em pancadaria, com vários jogadores de ambas as partes a serem expulsos! Como resultado resolvemos acabar com a prática do futebol na FLS e aplicar a verba destinada a esta área (cerca de 100.000$00 escudos por época, o que na altura era um valor bastante elevado) para fins sociais. Essencialmente, garantindo empréstimos ou donativos aos trabalhadores mais carenciados. O funcionamento deste serviço foi entregue à assistente social da empresa. Tudo corria muito bem, mas ao fim de algum tempo notámos que os "clientes" eram sempre os mesmos pois aqueles que realmente precisavam de apoio tinham vergonha de o pedir…

 

O mais engraçado, no meio disto tudo, é que houve um caso de uma trabalhadora que tinha pedido um empréstimo e que um dia veio entregar a verba em dívida, despedindo-se da empresa na mesma altura. Viemos a saber mais tarde que ela tinha uma casa da má fama em Moscavide. Consta que, certo dia, um cliente, não tendo dinheiro para pagar o serviço prestado, lhe deu uma cautela da lotaria. Claro que já se está a ver o que veio a acontecer... A trabalhadora acabou por ganhar uma pequena fortuna!

 

© Clive Gilbert

© MAFLS


Outubro 13 2009

 

A produção de Jasper Ware em Portugal cingiu-se, tanto quanto se sabe, a quatro fábricas – Artibus, em Aveiro, Fábrica de Loiça de Sacavém, Sociedade de Porcelanas, em Coimbra, e Vista Alegre, em Ílhavo.

 

De todas as outras fábricas conhecidas, existiria mais uma com capacidade técnica e artística para produzir também peças nessa pasta cerâmica – a Electrocerâmica do Candal, fundada em finais da década de 1910, em Vila Nova de Gaia. Esta veio a ser adquirida em meados do século XX pela Vista Alegre, tal como a Sociedade de Porcelanas (SP), pelo que não seria de todo impossível que, tal como a SP, tivesse produzido peças nesta pasta.

 

A Artibus desenvolveu diversas peças de altíssima qualidade, quer na modelagem, quer na pintura, quer ainda na combinação de processos de tratamento da porcelana, incluindo o biscuit

 

 

Para complementar a peça da FLS apresentada anteriormente (cf. http://mfls.blogs.sapo.pt/1638.html) e ilustrar algumas das variantes conhecidas em Jasper Ware das restantes fábricas portuguesas, reproduzem-se duas peças da Vista Alegre, acima, e uma da Sociedade de Porcelanas.

 

A primeira peça da VA, em azul, apresenta a marca relativa aos anos de 1968-1971 e a segunda, uma caixa com remate metálico, de origem, nos rebordos de encaixe, a marca relativa a 1947-1968.

 

A peça da SP, como se pode observar, foi produzida em 1967 e apresenta a particularidade de combinar pasta azul, vidrada na superfície, com biscuit para a figura de Nossa Senhora.

 

Refira-se, ainda, que a combinação de biscuit com pasta de porcelana branca pintada a esmalte de outra cor ocorreu em diversas peças da Artibus, com notáveis resultados.

 

 

© MAFLS


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