Memórias e Arquivos da Fábrica de Loiça de Sacavém

Janeiro 30 2012

 

 

 

Eva Zeisel (nascida Eva Amalia Striker, ou Stricker), a consagrada designer e ceramista de origem húngara, faleceu há precisamente um mês, a 30 de Dezembro de 2011, com 105 anos.

 

Homenageando a sua memória e a sua obra, reproduz-se hoje uma peça em porcelana da Vista Alegre que poderá estar ligada ao seu nome. Com efeito, o design desta terrina é-lhe atribuído com algumas reservas, mas a atribuição faz-se com base na informação que consta dos arquivos da VA.

 

De facto, no verbete 6485 desses arquivos surge uma cafeteira modelo "Primavera" cuja autoria é atribuída a "Mme. Stricker" [sic]. O seu formato, aprovado em Janeiro de 1961, apresenta uma variante mais rectilínea do motivo aqui aplicado em relevo, com a mesma pega na tampa.

 

Estes pormenores rectangulares, que na cafeteira surgem também na asa, não são consentâneos com o design da fase americana de Zeisel, mas surgem com frequência na sua fase alemã da fábrica Schramberg (SMF), onde produziu inúmeras peças influenciadas pelos princípios da Bauhaus. Considerando os dois modelos, este da terrina apresenta o formato que mais se aproxima da característica gramática curvilínea de Zeisel. 

 

Como já foi aqui referido, existe uma outra peça VA que nem sequer lhe é atribuída, mas que é indubitavelmente da sua autoria. Trata-se do canjirão "Machado", produzido pela VA a partir de 1938. Embora não se encontre assim creditado nos arquivos da VA (no verbete 2594 da fábrica, a única anotação manuscrita sobre os dados históricos da peça P.A. 617 refere ter sido este modelo dado [sic] por Machado dos A.), o formato corresponde à adaptação de uma peça criada por Zeisel para a SMF, em 1929 ou 1930.

 

Um exemplar desse canjirão da VA, com a inscrição "Recordação de Braga" e uma imagem do Santuário do Sameiro, foi exibido na exposição Portuguese Ceramics in the Art Deco Period, realizada em 2005 nos E.U.A.

 

Lucie Young, Eva Zeisel (2003).

 

Dando provas de enorme vitalidade e dinâmica criativa, Eva Zeisel colaborou ainda em 2004 e 2005 num projecto da Vitrocristal, agrupamento empresarial criado para promover o vidro da Marinha Grande sob a designação MGlass, naquela que terá sido porventura a sua última ligação ao design da indústria portuguesa.

 

Tal projecto culminou numa pequena exposição realizada em Nova Iorque, no edifício das Nações Unidas, onde se exibiram peças em vidro criadas por mulheres de três diferentes nacionalidades e de diferentes gerações (cf. http://www.un.int/portugal/mglassfotos.htm).

 

Ironicamente, este parece ter sido o canto do cisne do projecto MGlass, que se tinha iniciado em 1999 e era um aparente caso de sucesso na recuperação e promoção da indústria vidreira (cf. http://www.cmjornal.xl.pt/detalhe/noticias/nacional/actualidade/o-ultimo-sopro-na-marinha-grande).

 

Terminando com uma nota de humor, refira-se que o célebre conjunto para sal e pimenta Town and Country, criado em 1946 por Zeisel e produzido a partir do ano seguinte pela fábrica americana Red Wing (http://www.washingtonpost.com/eva-zeisel-salt-and/2012/01/02/gIQADz72WP_photo.html), parece ter inspirado o desenho e a forma dos famosos Shmoos (http://en.wikipedia.org/wiki/Shmoo), personagens de BD criadas em 1948 por Al Capp (1909-1979), embora as pessoas se preocupem mais em estabelecer outras semelhanças formais e ninguém pareça querer admitir tal facto...

 

Sobre Eva Zeisel, consultem-se mais alguns dados publicados neste espaço, em: http://mfls.blogs.sapo.pt/43735.html, e veja-se o vídeo The playful search for beauty, com cerca de 18 minutos, aqui: http://www.youtube.com/watch?v=x72uoP2a55I.

 

Eva Zeisel em 1935.

 

© MAFLS


Dezembro 03 2011

 

Depois de um período de conservadorismo e de eterno retorno a um revivalismo orientalizante, ocorrido entre as décadas de 1970 e 1990, a Vista Alegre tem vindo a prestar maior atenção, desde o final do século XX, ao design contemporâneo.

 

Diversificando a sua oferta de formatos e decorações na loiça doméstica e recorrendo a designers e artistas plásticos, nacionais e estrangeiros, para a criação de inovadoras e interessantes peças na loiça decorativa, a VA tem vindo a apostar, finalmente, num segmento de mercado que consolidou a imagem de marca e deu grande prestígio a outras fábricas de porcelana europeias, como a Rosenthal (http://www.rosenthal.de/) e a Villeroy & Boch (http://www.villeroy-boch.com/en/au/home.html).

 

Lançada em 2008, a colecção Artistas Contemporâneos, com edição numerada e limitada, apresentando normalmente entre 200 a 500 exemplares, já promoveu obras de Eduardo Nery (n. 1938), Joana Vasconcelos (n. 1971; cf. a sua taça La Tache aqui: http://mfls.blogs.sapo.pt/127933.html), Manuel João Vieira (n. 1962), Oscar Mariné (n. 1951) e Pedro Calapez (n. 1953).

 

A última peça editada nesta série, em Julho deste ano, foi a taça Copacabana, de Nadir Afonso (nascido a 4 de Dezembro de 1920), de que aqui se reproduz o exemplar número 396 de um total anunciado como sendo de 500.

 

Esta peça recebeu o seu título da pintura homónima, datada de 1955, que foi adaptada a esta forma cerâmica e aqui apresenta a inovação do complemento a ouro na própria composição geométrica.

 

O subtil trocadilho copa/taça, contido também no título e no formato desta peça, traduz uma nova aproximação do autor ao valor dos títulos na sua obra, uma vez que Nadir Afonso sempre defendeu serem os títulos meras formas de catalogar as suas obras, sem que qualquer outra leitura lhes devesse estar subjacente.  

 

Ver as edições especiais da VA em: http://www.vistaalegreatlantis.com/peca.aspx/543/5ddot;50%20Tea%20Set%20(%C3%81lvaro%20Siza)/29/.

 

Detalhe de uma montra da loja Vista Alegre Atlantis, patente entre Julho e Setembro no Centro Comercial Vasco da Gama, em Lisboa.

 

© MAFLS


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