Memórias e Arquivos da Fábrica de Loiça de Sacavém

Julho 29 2017

 

Dois bustos em terracota representando o escritor Guerra Junqueiro (1850-1923).

 

O primeiro, patinado a esmalte e com cerca de 14,5 cm. de altura, foi produzido pela Moderna Industrial Decorativa, Limitada, fundada em Coimbra no ano de 1941, conforme se comprova pela marca reproduzida abaixo.

 

O segundo, com cerca de 13,6 cm. de altura, não apresenta qualquer marca, mas assemelha-se bastante a um busto que é possível ver numa fotografia, não datada mas provavelmente da década de 1930, da montra do estabelecimento da Cerâmica Macedo, de Barcelos, que existiu na Póvoa de Varzim entre 1935 e 1951.

 

 

É provável que, em Portugal, este hábito de celebrar em bustos industriais de terracota a memória de diversos escritores, e outras personalidades, tenha sido introduzido, e consolidado, pelo escultor José Joaquim Teixeira Lopes (1837-1918), através da produção da fábrica das Devezas, de que era co-proprietário.

 

Outros escultores e modeladores terão seguido esta tendência, tais como Rafael (1846-1905) e Gustavo Bordalo Pinheiro (1867-1920), Costa Mota, Sobrinho (1877-1956), Avelino Belo (1872-1927), Francisco Elias (1869-1937), os menos conhecidos  Alberto Morais do Vale (1901-1955), João dos Santos Calisto (1905-1946), Francisco Caetano Ferreira (1908-1987), e o próprio João Macedo Correia (1908-1987).

 

No entanto, muitos destes bustos não apresentam qualquer assinatura na sua versão industrial, pelo que nem sempre é fácil indicar o seu autor, e a verdade é que muitas fábricas e oficinas copiaram obras entre si sem respeitar quaisquer direitos ou creditar a sua autoria.

 

Sabe-se, por exemplo, que a Estatuária Artística de Coimbra, fundada em 1943, reproduziu e comercializou, sem qualquer atribuição de autor, um busto de António de Oliveira Salazar (1889-1970) que João Macedo Correia havia modelado, e comercalizado através da Cerâmica Macedo, na década de 1930.

 

 

© MAFLS


Setembro 15 2013

     

 

Figura moldada em terracota patinada, com cerca de 25,7 cm. de altura, apresentando uma réplica da célebre escultura clássica denominada Vénus de Milo, produzida pela fábrica Moderna Industrial Decorativa, de Coimbra.

 

Esculpida originalmente em mármore, cerca de 130-100 A.C., esta figura hoje incompleta, com cerca de 203 cm. de altura, é atribuída a Alexandros de Antioquia (datas desconhecidas) e integra o acervo do Museu do Louvre, em Paris (http://www.louvre.fr/accueil).

 

Imagem extremamente popular ao longo dos últimos dois séculos, paradigma da arte clássica greco-latina e termo de comparação para os novos paradigmas modernistas do século XX – "O binómio de Newton é tão belo como a Vénus de Milo", afirmou Fernando Pessoa (1888-1935; http://arquivopessoa.net/textos/224), esta escultura tem sido reproduzida em diversos formatos e diferentes materiais.

 

Como exemplo dessa produção diversificada, apresenta-se abaixo um pequeno sinete, com cerca de 7 cm. de altura, em vidro moldado, possivelmente também de manufactura portuguesa, embora se conheça uma outra peça similar que ostenta uma etiqueta, em papel metalizado, da antiga Checoslováquia.

 

          


No final deste artigo pode ver-se a etiqueta que acompanha a figura em terracota, MID 2, que nos permite já começar a ensaiar uma sistematização da cronologia e das marcas desta fábrica.

 

Ao contrário do que acontece com as peças da primeira fase (http://mfls.blogs.sapo.pt/154589.html), talvez porque a patine também se estende à base, contribuindo assim para uma eventual obliteração ou ilegibilidade das marcas na pasta, parece que a produção posterior desta fábrica tende a apresentar exclusivamente uma etiqueta identificativa da sua origem, sem qualquer marca impressa ou incisa na pasta.

 

Esta opção, como é óbvio, prejudica uma posterior e precisa identificação das peças oriundas da Moderna Industrial Decorativa, pois, ao contrário das marcas impressas ou incisas, a maioria das etiquetas dificilmente sobrevive à passagem do tempo.

 

A propósito de mais esta peça da MID, aproveita-se a oportunidade para reproduzir abaixo uma fotografia datável da década de 1940 (também já publicada por Maria Andrade no seu espaço: http://artelivrosevelharias.blogspot.pt/2012/05/moderna-industrial-decorativa-de.html) onde surgem retratados os trabalhadores desta unidade cerâmica coimbrã.

 

© Ana Maria Caetano

 

Cedida por Ana Maria Caetano (veja-se um blog de sua autoria aqui: http://rdqntnadaquefazer.blogspot.pt/), a quem se agradece a amabilidade, esta fotografia apresenta ao centro, na última fila, envergando uma bata branca, seu avô Francisco Caetano Ferreira (1908-1987), um dos fundadores da empresa e seu responsável artístico, cargo que provavelmente desenvolveria em conjunto com o desenhador Carlos dos Reis (datas desconhecidas).

 

Francisco Caetano Ferreira modelou diversas peças cerâmicas, dentro e fora da MID, colaborando posteriormente, segundo declarações desta sua neta, com a Companhia da Fábricas Cerâmica Lusitânia, quer na unidade de Coimbra quer na unidade do Porto.

 

É possível, pois, que algumas das peças escultóricas da Lusitânia de Coimbra sejam de sua autoria, havendo também notícia de que modelou um presépio produzido pela MID e exibido, no início da década de 1950, no posto de turismo do Largo da Portagem, em Coimbra.

 

Finalmente, sublinhe-se como é curioso o facto de esta peça ser da MID, quando o logótipo da fábrica A Nova Decorativa, também de Coimbra, é que ostenta o busto da Vénus de Milo (http://mfls.blogs.sapo.pt/tag/f%C3%A1brica+a+nova+decorativa).

 

Não se conhecendo dados sobre a fundação ou encerramento de A Nova Decorativa, nem dados sobre a data de encerramento da Moderna Industrial Decorativa, esta coincidência faz-nos reflectir sobre a hipótese de estas duas fábricas estarem de algum modo relacionadas, eventualmente através de alguns sócios da MID que tenham vindo a fundar a AND, ou mesmo sobre o facto de a AND ter sucedido à MID.

 

     

MID 1                                               MID 2

 

© MAFLS


Março 18 2012

          

 

Grande escultura em terracota pintada, com cerca de 56,8 cm. de altura, produzida na fábrica Moderna Industrial Decorativa, Limitada, de Coimbra.

 

A pintura que recobre esta terracota apresenta tons característicos das décadas de 1940 e 1950 em Portugal, sendo conhecidos muitos objectos, como molduras e outras peças em madeira, apresentando variantes desta tonalidade. São conhecidas ainda outras figuras, representando aves diferentes, com pintura beige.

 

Como nota curiosa, sublinhe-se que quer a marca impressa (não reproduzida pela sua má legibilidade) quer a etiqueta da Moderna Industrial Decorativa recordam a célebre marca triangular relevada da, então checoslovaca, fábrica Royal Dux, famosa pelas suas estatuetas em porcelana.

 

No entanto, esta aproximação monumental à modelação cerâmica evoca claramente, no contexto europeu, as peças de majólica oitocentista como o bengaleiro-cegonha, com cerca de 103 cm. de altura, produzido pela fábrica inglesa Minton & Co. em 1876, e o floreiro-cegonha, com cerca de 66 cm. de altura, produzido pela fábrica inglesa de Joseph Holdcroft, também no último quartel do século XIX.

 

No contexto nacional, as suas proporções evocam, apenas nesse aspecto, algumas das criações de Rafael Bordalo Pinheiro (1846-1905), particularmente a peça que ilustra a fábula da raposa e do grou, reproduzida abaixo.

 

 

 

De acordo com o Diário do Governo, a sociedade Moderna Industrial Decorativa foi constituída por escritura de 19 de Abril de 1941, com um capital social de 50.000$00 e sede na Rua da Manutenção Militar, número 3, em Coimbra.

 

O capital estava equitativamente distribuído pelos cinco sócios, César Rodrigues Antero, industrial, João dos Reis, construtor civil, Francisco Caetano Ferreira, decorador, Bernardo Teles, construtor civil, e Carlos dos Reis, desenhador.

 

Esta empresa, que tinha "por objecto o exercício da indústria de estatuetas e artes decorativas", antecedeu assim em cerca de dois anos a constituição da mais conhecida e longeva Estatuária Artística de Coimbra.

 

Recorde-se que, na área da estatuária cerâmica, existiu ainda em Coimbra uma empresa denominada A Nova Decorativa (cf. http://mfls.blogs.sapo.pt/78219.html), dedicada também à produção de estatuetas em terracota pintada.

 

Muitas das suas estatuetas femininas são semelhantes, no formato e na pose das figuras, às produzidas pelas fábricas Goldscheider, na Áustria, Katzhütte, na Alemanha, e Royal Doulton, em Inglaterra.


 

© MAFLS


mais sobre mim
Outubro 2017
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5
6
7

8
9
10
12
13
14

16
17
18
19
20

22
23
24
25
26
27
28

29
30
31


pesquisar