Memórias e Arquivos da Fábrica de Loiça de Sacavém

Maio 28 2017

 

Jarra em porcelana da Vista Alegre, com decoração minalista repetitiva, a verde, sobre fundo creme.

 

Veja-se uma jarra com o mesmo motivo e considerações sobre o seu formato, e a sua eventual origem de influência estrangeira, que não se restringirá apenas à produção da fábrica alemã Rosenthal e se alargará à produção inglesa, e de outras nacionalidades, aqui: http://modernaumaoutranemtanto.blogspot.pt/2013/01/jarra-art-deco-com-riscas-verdes-vista.html.

 

 

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Abril 16 2017

 

Jarra em terracota, com cerca de 21,3 cm. de altura, produzida na Cerâmica Macedo, Barcelos.

 

A decoração floral de inspiração Art Déco foi aplicada a aerógrafo sobre stencil (neste caso, cartão ou chapa recortada) para o amarelo, azul, verde e vermelho, e aplicada livremente para o preto e o fundo beige.

 

Sendo louça com fins decorativos, mas também utilitários, a interessante e extensa produção da Cerâmica Macedo sobreviveu em ínfimas quantidades até aos dias de hoje e, como se verifica neste e na maioria desses reduzidos exemplares, em condições de grande deterioração da pintura.

 

Este problema técnico, que afectou também as grandes fábricas de faiança produtoras de decoração sobre o vidrado, como a FLS, acentuava-se na decoração sobre terracota.

 

Embora a Cerâmica Macedo submetesse as suas peças a um banho impermeabilizante antes de aplicar as tintas, o processo de escamagem acentuava-se na terracota com a passagem do tempo, mesmo sem que as jarras recebessem água no seu interior.

 

 

De acordo com Adélio Macedo Correia (n. 1943), a Fábrica de Cerâmica Joaquim Macedo Correia foi fundada em 1893, em Areias de S. Vicente, embora Joaquim Macedo Correia (1871-1948) provavelmente já viesse a produzir cerâmica desde o início dessa década.

 

Exportando, na década de 1920, para todo o país, incluindo Madeira, e Espanha, a fábrica veio a denominar-se Cerâmica Macedo entre 1930 e 1949, difícil período, que se seguiu ao crash bolsista de 1929 e foi afectado quer pela Guerra Civil de Espanha (1936-1939) quer pela II Guerra Mundial (1939-1945), em que a administração passou a ser exercida pelo filho do fundador, o modelador e escultor cerâmico João Macedo Correia (1908-1987).

 

Apesar daquelas adversidades, datam deste período as inovações técnicas na decoração, nomeadamente a utilização do aerógrafo e do stencil, a adopção da gramática Art Déco e ainda a abertura de uma loja na Póvoa de Varzim, em 1935. 

 

Como já foi referido, a Cerâmica Macedo encerrou as suas últimas instalações, no Campo de S. José, Barcelos, em 1950. A loja da Póvoa de Varzim acabou por fechar em 1951.

 

João Macedo Correia, que entretanto, entre 1945 e 1947, dera muito de si e da sua experiência para implementar o projecto e evitar o malogro da efémera Fábrica de Loiça de Viana, ainda continuou em Barcelos a sua produção, de forma artesanal, durante as duas décadas seguintes.

 

 

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Março 19 2017

 

Pequena moldura, para fotografia ou relógio, com cerca de 7,8 x 5,5 x 2,5 cm. e 2,9 cm. de diâmetro na abertura, em porcelana da fábrica Artibus, de Aveiro.

 

A decoração floral da parte superior, aplicada sobre uma superfície em relevo, traduz uma certa gramática Art Déco que, na cerâmica portuguesa, se prolongou pela década de 1940 e chegou, inclusive, à década seguinte. 

 

A atenção ao pormenor, a delicadeza e a elegância de certa decoração desta fábrica estão bem patentes no detalhe do motivo floral complementar, já sem qualquer influência Art Déco mas também pintado à mão, como toda a outra decoração, aplicado no reverso da moldura.

 

 

Como acontece em peças de muitas outras fábricas, portuguesas e estrangeiras, a sigla junto da marca corresponderá ao/à pintor/a que executou a decoração.

 

Curiosamente, esta sigla de pintor/a, semelhante a um Phi, surge também em algumas peças de uma outra fábrica de Aveiro, a Aleluia – http://mfls.blogs.sapo.pt/arte-em-cacos-350019 .

 

 

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Março 03 2017

 

Atingiram-se hoje as quinhentas mil visitas ao espaço Memórias e Arquivos da Fábrica de Loiça de Sacavém.

 

Para assinalar a efeméride, apresenta-se uma figura de elefante em pasta de loiça sanitária, com cerca de 21,6 x 25,8 x 9,8 cm., ostentando vidrado pérola semi-mate.

 

Esta peça foi originalmente modelada pelo escultor britânico Donald Gilbert (1901-1961) e, tal como já foi mencionado, surge referenciada na tabela de preços de Novembro de 1945 sob o número 183 e a designação "Elefante" ao preço de 141$00 para "Colorido s/ ouro", surgindo ainda nas tabelas de Maio de 1951, ao preço de 162$00 para "Côres Mates ou coloridos s/ ouro", e de Maio de 1960, ao mesmo preço para "Branco colorido s/ ouro".

 

O exemplar desta última tabela existente no CDMJA/MCS regista que o peso da peça é de 930 gramas.

 

Elefantes com este formato estiveram em produção provavelmente até à década de 1980, sendo esta uma das esculturas de animais mais comercializadas pela FLS. Um exemplar com o mesmo vidrado pode ser visto numa fotografia onde aparece conjuntamente com outras figuras de animais que também tiveram uma produção prolongada no tempo: http://mfls.blogs.sapo.pt/176503.html

 

Dois outros exemplos de diferente vidrado monocromático aplicado em peças com o formato 183 podem ser vistos no espaço de MUONT: http://modernaumaoutranemtanto.blogspot.pt/search/label/Elefante.

 

Sendo esta uma peça do período final da FLS, não apresenta qualquer marca, como acontecia com outros exemplares dessa época produzidos na mesma pasta.

 

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Janeiro 04 2017

 

Pequena jarra em faiança, com cerca de 12,6 cm. de altura e 13,4 de diâmetro máximo, apresentando decoração floral Art Déco pintada manualmente sob o vidrado e craquelé induzido.

 

Este exemplar apresenta as iniciais correspondentes a Jules Tiélès (datas desconhecidas) sobre quem quase nada se sabe, ignorando-se mesmo se se trata um mero retalhista ou de um industrial ou artista cerâmico.

 

Existem peças assinadas com as iniciais JT, e o P dentro do triângulo, produzidas também em porcelana, ostentando algumas delas a marca complementar de Sèvres, embora não se saiba se esta última foi aplicada abusivamente ou se Tiélès adquiria peças de Sèvres que depois decorava ou comercializava.

 

O período de produção para as peças conhecidas parece corresponder ao final do século XIX e às primeiras três ou quatro décadas do século XX.

 

Esta técnica de decoração e pintura sob o vidrado foi também adoptada durante um curto período pela fábrica belga Boch Frères / Keramis, embora tenha sido abandonada devido à falta de homogeneidade cromática, nalgumas cores, que resultava num degradé muito irregular e esteticamente pouco apelativo.

 

No entanto, ao contrário desta, a decoração da Boch Frères / Keramis apresentava geralmente uma prévia estampagem dos motivos para estabelecer os contornos que depois seriam preenchidos com pintura manual: http://blogdaruaonze.blogs.sapo.pt/258654.html.

 

 

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Janeiro 02 2017

 

Duas jarras em faiança de Sarreguemines, com cerca de 25,6 cm. de altura, apresentando o mesmo formato mas ostentando diferentes motivos florais, de inspiração Art Déco, e diferentes técnicas decorativas.

 

A primeira surge ilustrada na estampa número 45 de um catálogo, datável da década de 1920, das Fayenceries de Sarreguemines, Digoin et Vitry-le-François.

 

Aqui se indica que este formato corresponde ao número 5203 da produção da empresa e a decoração, como também se pode verificar na marca reproduzida abaixo, ao motivo número 2329.

 

Curiosamente, combinam-se neste exemplar duas técnicas decorativas – no corpo, secções com um fundo craquelé artificial, estampado, alternando com secções apresentando motivos florais estilizados, aplicados sobre o vidrado. No bocal, pintura a esmalte num tom esverdeado que replica a tonalidade patente nos motivos vegetais.

 

 

 

A segunda jarra, apresentando também a mesma organização em secções verticais mas decorada exclusivamente em tons de azul, ostenta já motivos florais estilizados executados através de pintura manual.

 

O vidrado que serve de fundo à decoração, estilizada mas mais tradicional e classicizante que a anterior, é de um azul semi-mate homogéneo.

 

Este exemplar poderá não ser de produção anterior à do modelo 2329 mas, devido à sua técnica decorativa menos industrializada, surgirá certamente com menor frequência nos museus e lojas de antiguidades.

 

Segundo algumas publicações da especialidade, esta última marca, que integra ainda as iniciais de Utzschneider & Cie., remetendo para o patriarca da família e para a memória da empresa no princípio do século XIX, foi aplicada entre 1920 e 1950.

     

 

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Dezembro 29 2016

 

Pequena jarra em grés, com cerca de 11 cm. de altura, da fábrica francesa La Faïencerie Héraldique, localizada em Pierrefonds.

 

A combinação de um corpo de linhas curvas, naturalmente sugestivas da modelação artesanal (embora este exemplar tenha sido moldado), com remates angulosos remete para a execução de peças em metal e para um certa ideia característica da prática Arts & Crafts.

 

Tal prática surge também, pontualmente, na produção de outras empresas, como a francesa Denbac (http://blogdaruaonze.blogs.sapo.pt/118998.html).

 

 

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Dezembro 28 2016

 

Em cima, uma pantera em faiança, com cerca de 12,8 x 32,5 x 8 cm., ostentando na base os números 10, impresso, 5 e 21, incisos manualmente, e a marca francesa ODYV.

 

Depois, um esquilo também em faiança, com cerca de 14,2 x 22,6 x 9 cm., que, embora apenas ostente na base os números 15, impresso, e 17, inciso manualmente, sem qualquer outra marca visível, foi obviamente produzido na mesma empresa.

 

Em seguida, um bode em faiança, com cerca de 15,6 x 27,7 x 8,9 cm., que também apenas ostenta na base os números 14, impresso, e 45, inciso manualmente, sem qualquer outra marca visível, mas é indubitavelmente da mesma proveniência.

 

Por último, um cervídeo em faiança, com cerca de 22,5 x 39 x 12,7 cm., ostentando na base os números 1, impresso, e 16 e 5, incisos manualmente, e também a marca ODYV.

 

Conhecem-se diversas outras esculturas de animais produzidas pela ODYV, constituindo estas um bestiário bastante diversificado que inclui galgos, gazelas, leoas, leopardos, tigres, que ora surgem em representações singulares ora em representações colectivas, ora, ainda, em conjuntos para relógios de lareira.

 

 

Para além das que apresentam vidrado brilhante preto, como o que surge em três destas peças, e que tem tendência a estalar com a passagem do tempo, formando um craquelé algo frágil que contrasta com o sólido vidrado das figuras, e vidrado baunilha semi-mate, como o que surge na última, conhecem-se ainda bases com vidrado matizado, a imitar padrões e tonalidades de pedras ornamentais, e bases beiges que servem de apoio a esculturas com vidrado monocromático também castanho, ou de outras tonalidades escuras.

 

O corpo principal das peças, a escultura animal em si, apresenta quer vidrado acetinado semi-mate, como o de este esquilo e do cervídeo, quer vidrado mate com acabamento ligeiramente microcristalino e rugoso, como o da pantera e do bode, surgindo em diversas cores e tonalidades. Nos conjuntos para relógio, para além de poderem surgir decorados a platina ou ouro, os animais são por vezes acompanhados de figuras femininas.

 

Nos conjuntos escultóricos monobloco, que não têm a base aparafusada ao corpo principal, como acontece com os quatro exemplares aqui ilustrados, conhece-se ainda um acabamento vidrado com gotículas em relevo, característico de algumas jarras ODYV produzidas na década de 1930, e também da fábrica checoslovaca Amphora (http://blogdaruaonze.blogs.sapo.pt/161780.html), cujo apelo técnico e estético nas figuras animais é muito questionável.

 

Durante várias décadas adensaram-se as dúvidas quanto às origens e à existência de documentação relativa a esta hipotética empresa, e ainda no final do século XX obras de referência como La Céramique Art Déco (1988), Craquelés – Les Animaux en Céramique, 1920-1940 (1993), ou Art Deco and Modernist Ceramics (1995) a ignoravam ou exprimiam dúvidas sobre a sua identificação.

 

 

Já no princípio do século XXI, com a maior circulação de dados na internet e o inerente aumento de fontes webliográficas e iconográficas, foi possível começar a encontrarem-se imagens de peças marcadas ODYV com etiquetas na base apresentando a indicação manuscrita Berlot-Mussier associada ao preço.

 

Finalmente, em 2007, uma obra intitulada Le Temps d'ODYV: 1927-1940, dedicada em particular aos relógios em faiança comercializados sob essa marca, os quais integravam habitualmente conjuntos de três peças denominados garniture de cheminée (vejam-se alguns desses exemplares aqui: http://www.clockarium.com/musee/index.htm.), veio divulgar informações relevantes sobre a empresa.

 

Assim, ficou a saber-se que a Manufacture Berlot-Mussier, fundada em 1927 e activa até cerca de 1975, sedeada em Vierzon e inicialmente denominada Faïencerie du Tunnel – uma das suas marcas representa precisamente uma locomotiva a sair do túnel urbano de Vierzon, produziu, pelo menos entre 1927 e 1940, uma série de peças que ostentavam a designação comercial ODYV.

 

Curiosamente, também esta designação, a exemplo do que acontecia com outra notável empresa da mesma localidade, a Denbac (http://mfls.blogs.sapo.pt/tag/denbac), deve a sua existência à contracção de dois nomes, desta vez próprios – Odette, filha de Mussier, e Yvonne, irmã de Berlot. 

 

 

Cruzando os exíguos dados conhecidos sobre a Berlot-Mussier, patentes nas obras citadas e noutras fontes, foi possível apurar que um dos escultores que colaborou com a empresa foi Gustave Gillot (1888-1965), nomeadamente através da modelação de uma raposa monobloco que evoca a fábula de Esopo (c. 620 a.C.- 564 a.C.) posteriormente recuperada e celebrizada pela versão de La Fontaine (1621-1695).

 

Também o conceituado escultor e modelador cerâmico Charles Lemanceau (1905-1980), que executou peças para as marcas La Maîtrise, Nouvelles Galeries, Primavera, Robj, e para as fábricas Foecy, Sainte-Radegonde, Saint-Clément, concebeu algumas criações para a Berlot-Mussier, pelo que provavelmente algumas das esculturas de animais marcadas ODYV serão de sua autoria.

 

Mais, foi ainda possível apurar que a esposa de Lemanceau se chamava Odette, embora não se tenha conseguido saber se nos encontramos apenas perante uma coincidência de nome próprio ou perante Odette Mussier.

 

De qualquer modo, estes quatro exemplares demonstram inequivocamente a elevada qualidade composicional, estética e escultórica de algumas das figuras animais comercializadas pela ODYV dentro da gramática Art Déco.

 

 

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Dezembro 26 2016

 

Jarra em pasta vermelha, com cerca de 19,1 cm. de altura, ostentando na base a assinatura manuscrita Jeandet.

 

Embora a sua escassa obra conhecida seja tecnicamente interessante e esteticamente muito apelativa, pouco se sabe sobre o ceramista francês Jacques-Gabriel Jeandet (1873-1945), para além do facto de este ter nascido em Mâcon e ter desenvolvido, a partir de 1926, a sua actividade em Lugny.

 

O exemplar que aqui se apresenta ilustra perfeitamente as excelentes capacidades técnicas e os princípios composicionais de Jeandet, através de um craquelé induzido artificialmente, muito ao gosto Art Déco, e da decoração vegetalista, aplicada manual e livremente, em barbotina, sobre esse fundo beige.

 

Complementarmente, foram ainda aplicadas algumas manchas a esmalte branco, em relevo, que sublinham a riqueza e harmonia desta decoração.

 

 

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Dezembro 24 2016

 

Retomar-se-á este ano, dentro de dois minutos, a tradicional secção natalícia The Twelve Days of Christmas, dedicada à cerâmica estrangeira, ilustrando-se este artigo introdutório com duas peças de distintas fábricas, ou oficinas, que não se encontram identificadas.

 

Em cima, uma jarra em grés com cerca de 17,2 cm. de altura, em baixo, uma taça em faiança com cerca de 7,3 cm. de altura e 23,2 cm. de diâmetro máximo.

 

A jarra, hipoteticamente associada à produção da região francesa de Saint-Uze (http://www.territoire-ceramique.com/exposition-permanente.html), apresenta um princípio de desconstrução da forma encontrado numa peça algo similar (http://www.veniceclayartists.com/pottery-arts-masters/2/) do consagrado ceramista francês Adrien Dalpayrat (1844-1910), aliás na linha de uma abordagem que também havia sido ensaiada, embora de forma mais radical, pelo americano George Ohr (1857-1918).

 

No entanto, as tonalidades aqui patentes não apresentam nem os característicos azuis e verdes, ou o favorito sangue-de-boi, de Dalpayrat nem as cores habitualmente encontradas na generalidade da produção de Saint-Uze (https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/c/c2/Saintuze.pdf).

 

A decoração da interessante taça reproduzida abaixo apresenta motivo com uma figuração neo-clássica recuperada e reinterpretada em alguma cerâmica do período Art Déco.

 

 

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