Memórias e Arquivos da Fábrica de Loiça de Sacavém

Janeiro 03 2017

 

Duas jarras produzidas, muito provavelmente, na Faïencerie de Thulin (1863-1971), fábrica situada na Bélgica, medindo a peça de cima cerca de 23, 8 cm. de altura e a de baixo cerca de 17 cm.

 

Nas suas combinações cromáticas, diversas peças de Thulin apresentam vidrado escorrido semelhante àquele que surge em alguns dos vidrados comercializados também pela fábrica francesa De Bruyn, Fives, Lille.

 

 

O escorrido patente na primeira jarra é exemplo dessa semelhança de vidrado, apresentando uma rica multiplicidade cromática que resulta de diferentes camadas aplicadas sobre o fundo sang-de-boeuf.

 

Esta é uma tonalidade muito característica da influência oriental sobre a cerâmica do final do período victoriano, em Inglaterra, particularmente na produção Arts & Crafts, e do período Art Nouveau.

 

A primeira marca reproduzida abaixo, à esquerda, corresponde a esse exemplar.

 

 

© MAFLS

publicado por blogdaruanove às 00:01

Dezembro 30 2014

 

Pequena jarra, com cerca de 12,2 cm. de altura, produzida na Manufacture Imperiale et Royale, de Nimy.

 

Esta fábrica belga teve as suas origens em 1789, acabando por encerrar em 1951. A história da empresa é habitualmente dividida em cinco períodos - 1789-1849, 1849-1851, 1851-1890, 1890-1921 e 1921-1951 (veja-se um artigo, em Francês, sobre a história da fábrica, aqui: http://www.vieuxnimy.be/newsite/histoire/Page_histoire.html), correspondendo este último à época em que a fábrica foi adquirida e administrada por uma empresa holandesa de Maastricht, a Koninklijke Sphinx, já aqui referida (http://mfls.blogs.sapo.pt/227609.html).

 

A jarra agora ilustrada remete claramente para a influência das formas depuradas e contidas e para a decoração minimalista, ou limitada ao craquelé do vidrado, da cerâmica oriental, sendo um exemplo das peças europeias que, mesmo durante o período Art Déco, continuaram a seguir essa gramática.

 

Veja-se um outro artigo, em Neerlandês, sobre a história e a produção da MIRN aqui: http://rubriek-keramiek.blogspot.pt/2014/12/keizerlijke-en-koninklijke-manufactuur.html.

 

 

© MAFLS


Dezembro 25 2014

 

Jarra em faiança, com cerca de 20,2 cm. de altura, produzida na fábrica belga Cérabelga.

 

Fundada em 1907 na localidade de Haren-Nord, nos arredores de Bruxelas, a fábrica já se denominava Céramique de Bruxelles em 1921, designação complementada com o nome Cérabelga a partir de 1926. Desde esta altura, passou a produzir peças Art Déco cujas decorações pretendiam rivalizar com as da fábrica Boch Frères / Keramis, de La Louvière.

 

A feérica exuberância das cores e o inusitado de muitas das formas utilizadas na Cérabelga, se eram suficientes para manter acesa essa competição, não deixavam de traduzir algumas inferioridades técnicas, nomeadamente a ausência de esmaltes em relevo e do craquelé, características que projectavam a Boch Frères / Keramis para um outro patamar de execução.

 

Apesar de estas limitações, a empresa revelou-se bastante competitiva face a outras fábricas belgas, como Bergen (que copiava a decoração Gouda originária da Holanda), Mons e mesmo a prestigiada Manufacture Imperiale et Royale de Nimy, tendo mantido lojas em Bruxelas e Paris durante vários anos.

 

O renomado decorador ceramista francês Raymond-Henri Chevallier (1900-1959) trabalhou na empresa entre 1935 e 1937, período de que deverá datar esta peça, depois de sair da fábrica francesa Longwy e antes de ingressar na belga Boch Frères / Keramis.

 

Esta relação poderá explicar o facto de o sistema de classificação F. 265 (formato) / D. 5003A (motivo), que surge junto da marca, ser muito semelhante àquele que haveria de vir a ser implementado nas peças mais tardias da BFK e era já comum na Longwy.

 

Chevallier sucedeu a Charles Catteau (1880-1966) na BFK, tendo aí permanecido entre 1937 e 1954. O seu estilo, certamente influenciado pela tradição da Longwy, traduziu-se desde logo por uma acentuada preferência pela profusão de dourados, característica patente também nesta peça da Cérabelga.

 

Não se conhece a data exacta do encerramento da fábrica, mas crê-se que terá ocorrido no final da década de 1930, com o advento da II Grande Guerra.

 

© MAFLS


Setembro 01 2014

 

Conjunto de peças da fábrica belga Boch Frères / Keramis apresentando predominantemente vidrado amarelo.

 

Este amarelo foi muito característico das peças produzidas pela BFK nas décadas de 1920 e 1930, durante o período Art Déco, embora historicamente remeta para uma outra tonalidade conhecida no oriente como amarelo imperial, cor que era tradicionalmente exclusiva dos imperadores da China.

 

 

As duas primeiras peças, uma jarra com flores estilizadas em relevo, correspondente ao formato 1111 e com cerca de 22,3 cm. de altura, e uma base de candeeiro com angulosas linhas geométricas, correspondente ao formato 1027 e com cerca de 17 cm. de altura, ilustram o característico craquelé Art Déco da BFK.

 

A apresentação de um design moldado em relevo na pasta não é, contudo, muito comum na produção da fábrica, a não ser neste período, onde se conhecem mais alguns exemplares com diferentes decorações e formatos.

 

Já estas três jarras, apesar da ocorrência do amarelo, apresentam uma decoração escorrida com esmaltes de diferentes cores, cuja técnica foi mais característica de finais do século XIX e da influência japonizante que então se fez sentir.

 

 

Na época, foi este um recurso técnico comum a várias fábricas ocidentais, sendo em Portugal os exemplos mais consagrados aqueles que se associam à produção cerâmica das Caldas da Rainha, em geral, e à obra de Rafael (1846-1905) e Gustavo (1867-1920) Bordalo Pinheiro, em particular.

 

A marca apresentada abaixo, comum a todas as peças aqui ilustradas, surgindo quer a azul quer a preto, corresponde à jarra com o formato 612, que, com cerca de 16,9 cm. de altura, se encontra à frente das duas outras jarras na fotografia de conjunto apresentada acima.

 

Vejam-se algumas outras peças da BFK, com diferentes vidrados, formatos e pastas cerâmicas, aqui: http://mfls.blogs.sapo.pt/tag/boch+fr%C3%A8res.

 

 

© MAFLS


Dezembro 25 2013

 

Como já foi referido anteriormente (http://mfls.blogs.sapo.pt/211552.html), a tradição cerâmica da família Boch remonta a meados do século XVIII, tendo a fábrica Boch Frères / Keramis sido fundada já em meados do século seguinte.

 

Este ano, o espaço dedicado à BFK ilustra alguma da diversificada produção da fábrica, quer quanto às pastas – faiança e grés, quer quanto às diferentes decorações.

 

A primeira peça apresentada, um jarrão com o motivo 17 e medindo cerca de 39,6 cm. de altura, ilustra uma decoração floral influenciada pelo estilo Art Nouveau, sobre fundo metalizado de cobre.

 

Produzida, certamente, no primeiro período da direcção artística de Charles Catteau (1880-1966), insere-se ainda na tradição de revestimentos metalizados e irisados cuja técnica foi celebrizada em França por Clement Massier (1845-1917), e seus descendentes, a partir da década  de 1880.

 

 

A segunda peça, uma pequena jarra em grés com cerca de 9,4 cm. de altura e ostentando o motivo 661, datável já de 1921, traduz ainda uma influência japonizante que transitou também do século XIX.

 

Evocando na sua forma contida aquele que poderia ser o perfil do monte Fuji, esta jarra apresenta um vidrado escorrido multicolorido sobre um vidrado verde mate, técnica característica da tradição cerâmica japonesa.

 

 

A terceira jarra, com cerca de 30,4 cm. de altura e um design datável de 1927, apresenta já uma característica decoração floral de inspiração Art Déco, com o motivo 1121, associada à técnica de vidrado e ao fundo craquelé que celebrizou a produção da fábrica nesse período.

 

O tom verde de jade predominante nesta peça remete ainda para uma cor derivada do óxido de ferro, denominada celadon green em inglês, característica de diversas peças cerâmicas chinesas e coreanas.

 

 

Finalmente, a última jarra, com cerca de 30,1 cm. de altura, apresenta novamente um vidrado distinto, cuja superfície é mais lisa ao tacto, com tonalidades características do final da década de 1930 e princípios da década seguinte.

 

Através de um prato comemorativo do centenário da fundação da BFK (datado de 18 de Março de 1941), com a mesma tonalidade, a mesma técnica decorativa desta jarra e numeração próxima (2741), deduz-se que o motivo 2524 terá sido criado em 1940, durante o primeiro ano de ocupação da Bélgica pelas forças nazis.

 

               

 

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Dezembro 27 2012

 

Tendo começado  a produzir cerâmica em 1748, em França, François Boch implantou uma fábrica no Luxemburgo, a partir de 1767. No século seguinte, em 1836, essa fábrica fundiu-se com uma outra de Nicolas Villeroy, dando origem à empresa Villeroy & Boch.  Afectada pela separação política e administrativa entre o Luxemburgo e a Bélgica, parte da família Boch implantou uma fábrica neste último país a partir de 1841. O local escolhido foi La Louvière, próximo da fronteira com o Luxemburgo, onde a fábrica se manteve até ao seu encerramento, já na segunda metade do século XX.

 

O nome Boch passou, assim, a ser partilhado por duas empresas – a fábrica Boch Frères / Keramis, na Bélgica, e a fábrica Villeroy & Boch, no Luxemburgo. Esta última empresa ainda se encontra em produção, embora a sua sede actual seja na Alemanha (http://www.villeroy-boch.com/).

 

A fábrica Boch Frères produziu ao longo do século XIX, com sucesso comercial,  diversa loiça utilitária e decorativa, mas foi a partir do início do século XX, com a chegada de Charles Catteau (1880-1966), que a empresa atingiu a consagração, marcando o design contemporâneo no estilo Art Nouveau e, particularmente, no estilo Art Déco.

 

Catteau foi engenheiro ceramista na École Nationale de Sèvres cerca de 1902 ou 1903, e decorador da fábrica de Sèvres entre 1903 e 1904. Teve ainda formação complementar na Königlich-Bayerische Porcellan-Manufaktur de Nymphenburg, na Alemanha, até 1906, ano que em passou a trabalhar para a Boch Frères / Keramis.

 

          

Capa do catálogo editado em 2001, por ocasião da exposição das peças da fábrica Boch Frères / Keramis doadas por Claire De Pauw e Marcel Stal à Fondation Roi Baudoin, Bruxelas, Bélgica.

 

Antes desta data colaborou ainda com a fábrica de Rambervillers, em França, onde assinou algumas peças de clara inspiração Art Nouveau. Já no âmbito do estilo Art Déco, desenhou a partir de 1927 diversos modelos em vidro para a fábrica belga Scailmont (cf. http://www.artdecoducentre.be/Scailmont.html).

 

Com a chegada de Catteau, as peças da BFK passaram a apresentar, entre outras opções estéticas e técnicas, desenhos pintados a esmalte sob vidrado uniforme, esmalte escorrido sob o vidrado, esmalte mate com fundo negro (a exemplo da cerâmica holandesa Gouda), esmalte monocromático com fundo craquelé e, o que constituiu imagem de marca da fábrica durante o período Art Déco, esmalte cloisonné sobre fundo craquelé, representando animais, flores ou formas vegetais estilizadas.

 

Inserindo-se nestas últimas características, a jarra em grés aqui reproduzida, com cerca de 15,4 cm. de altura, ostenta o motivo número 775, que foi concebido cerca de 1923.

 

A produção de cerâmica decorativa diversificou-se então, quer no formato das peças quer na sua decoração, vindo a fábrica a traduzir melhor do que anteriormente l'air du temps. Neste período, a produção de peças decorativas foi também desenvolvida em grés, aproximando-se algumas destas, pela sua contenção formal e pelo seu minimalismo decorativo, da gramática japonesa. 

 

Para outros exemplares Art Déco desta fábrica belga veja-se: http://blogdaruaonze.blogs.sapo.pt/tag/boch+fr%C3%A8res.

 

 

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Outubro 15 2012

 

Cinzeiro do último período da FLS com decoração e legendagem aplicada sobre o vidrado. 

 

Conhece-se a aplicação da mesma imagem central, com outras datas comemorativas da FLS, em diversos cinzeiros do mesmo formato. Um desses exemplares, com a data de 1988, pode ser visto no segundo volume do catálogo da exposição Porta Aberta às Memórias, realizada no MCS em 2008.

 

Note-se como a inscrição na coroa de louros perpetua a ideia da fundação da FLS em 1850.

 

 

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