Memórias e Arquivos da Fábrica de Loiça de Sacavém

Setembro 01 2014

 

Conjunto de peças da fábrica belga Boch Frères / Keramis apresentando predominantemente vidrado amarelo.

 

Este amarelo foi muito característico das peças produzidas pela BFK nas décadas de 1920 e 1930, durante o período Art Déco, embora historicamente remeta para uma outra tonalidade conhecida no oriente como amarelo imperial, cor que era tradicionalmente exclusiva dos imperadores da China.

 

 

As duas primeiras peças, uma jarra com flores estilizadas em relevo, correspondente ao formato 1111 e com cerca de 22,3 cm. de altura, e uma base de candeeiro com angulosas linhas geométricas, correspondente ao formato 1027 e com cerca de 17 cm. de altura, ilustram o característico craquelé Art Déco da BFK.

 

A apresentação de um design moldado em relevo na pasta não é, contudo, muito comum na produção da fábrica, a não ser neste período, onde se conhecem mais alguns exemplares com diferentes decorações e formatos.

 

Já estas três jarras, apesar da ocorrência do amarelo, apresentam uma decoração escorrida com esmaltes de diferentes cores, cuja técnica foi mais característica de finais do século XIX e da influência japonizante que então se fez sentir.

 

 

Na época, foi este um recurso técnico comum a várias fábricas ocidentais, sendo em Portugal os exemplos mais consagrados aqueles que se associam à produção cerâmica das Caldas da Rainha, em geral, e à obra de Rafael (1846-1905) e Gustavo (1867-1920) Bordalo Pinheiro, em particular.

 

A marca apresentada abaixo, comum a todas as peças aqui ilustradas, surgindo quer a azul quer a preto, corresponde à jarra com o formato 612, que, com cerca de 16,9 cm. de altura, se encontra à frente das duas outras jarras na fotografia de conjunto apresentada acima.

 

Vejam-se algumas outras peças da BFK, com diferentes vidrados, formatos e pastas cerâmicas, aqui: http://mfls.blogs.sapo.pt/tag/boch+fr%C3%A8res.

 

 

© MAFLS


Dezembro 25 2013

 

Como já foi referido anteriormente (http://mfls.blogs.sapo.pt/211552.html), a tradição cerâmica da família Boch remonta a meados do século XVIII, tendo a fábrica Boch Frères / Keramis sido fundada já em meados do século seguinte.

 

Este ano, o espaço dedicado à BFK ilustra alguma da diversificada produção da fábrica, quer quanto às pastas – faiança e grés, quer quanto às diferentes decorações.

 

A primeira peça apresentada, um jarrão com o motivo 17 e medindo cerca de 39,6 cm. de altura, ilustra uma decoração floral influenciada pelo estilo Art Nouveau, sobre fundo metalizado de cobre.

 

Produzida, certamente, no primeiro período da direcção artística de Charles Catteau (1880-1966), insere-se ainda na tradição de revestimentos metalizados e irisados cuja técnica foi celebrizada em França por Clement Massier (1845-1917), e seus descendentes, a partir da década  de 1880.

 

 

A segunda peça, uma pequena jarra em grés com cerca de 9,4 cm. de altura e ostentando o motivo 661, datável já de 1921, traduz ainda uma influência japonizante que transitou também do século XIX.

 

Evocando na sua forma contida aquele que poderia ser o perfil do monte Fuji, esta jarra apresenta um vidrado escorrido multicolorido sobre um vidrado verde mate, técnica característica da tradição cerâmica japonesa.

 

 

A terceira jarra, com cerca de 30,4 cm. de altura e um design datável de 1927, apresenta já uma característica decoração floral de inspiração Art Déco, com o motivo 1121, associada à técnica de vidrado e ao fundo craquelé que celebrizou a produção da fábrica nesse período.

 

O tom verde de jade predominante nesta peça remete ainda para uma cor derivada do óxido de ferro, denominada celadon green em inglês, característica de diversas peças cerâmicas chinesas e coreanas.

 

 

Finalmente, a última jarra, com cerca de 30,1 cm. de altura, apresenta novamente um vidrado distinto, cuja superfície é mais lisa ao tacto, com tonalidades características do final da década de 1930 e princípios da década seguinte.

 

Através de um prato comemorativo do centenário da fundação da BFK (datado de 18 de Março de 1941), com a mesma tonalidade, a mesma técnica decorativa desta jarra e numeração próxima (2741), deduz-se que o motivo 2524 terá sido criado em 1940, durante o primeiro ano de ocupação da Bélgica pelas forças nazis.

 

               

 

© MAFLS


Janeiro 03 2013

 

Jarra de Rambervillers, em estilo Art Nouveau, com assinatura manuscrita de Charles Catteau (1880-1966).

 

No catálogo de Rambervillers de 1905 surgem três jarras de Catteau – esta, com o número 27 e altura indicada de 18,2 cm. (este exemplar tem cerca de 17,7 cm. de altura), e ainda as jarras número 11 (a única que surge também nos catálogos de 1920 e 1931) e 29, surgindo posteriormente no suplemento de 1906 uma outra jarra com o número 42 e uma jardineira com o número 81. 

 

Estas cinco peças parecem resumir toda a colaboração deste conceituado ceramista, cujo nome é sinónimo da extraordinária produção Art Déco da fábrica belga Boch Frères / Keramis (cf. http://mfls.blogs.sapo.pt/211552.html) e raramente aparece associado a Rambervillers, com esta notável fábrica francesa.

 

A produção industrial de faiança em Rambervillers remonta a 1738, passando a fábrica herdeira dessa tradição a laborar também com grés a partir de 1850. Pouco depois, em 1863, cessou a produção de faiança.

 

A empresa que se gerou com essa transformação, a Société Anonyme des Produits Céramiques de Rambervillers não fugiu à influência da gramática decorativa da escola de Nancy, localidade vizinha, contando entre os seus colaboradores com vários expoentes dessa escola e do movimento Art Nouveau, tais como Louis Majorelle (1859-1929: cf. http://fr.wikipedia.org/wiki/Louis_Majorelle), que aqui assinou pelo menos seis peças, e Jacques Gruber (1870-1936; cf. http://www.ecole-de-nancy.com/web/index.php?page=jacques-gruber), que assinou pelo menos nove.

 

Aliás, esta jarra assinada por Catteau, embora numa forma mais depurada e despojada da maioria dos complementos vegetais relevados, evoca de certa maneira a jarra Ombelles, correspondente ao número 9 do catálogo Rambervillers de 1905 e com cerca de 49 cm. de altura, modelada em 1903 por Gruber.

 

                    

 

Administrada a partir de 1891 pelo engenheiro ceramista Jean-Baptiste-Alphonse Cytère (1861-1941; cf. http://www.ecole-de-nancy.com/web/index.php?page=alphonse-cytere), a fábrica entrou então num perídodo áureo durante o qual executou diversas peças que surgem como paradigma do melhor que se produziu em cerâmica no estilo Art Nouveau.

 

Foi no início do século XX que Pierre-Roger Claudin (1877-1936) modelou uma das mais notáveis jarras da colecção da SAPCR – La Vague, acima numa versão exemplificativa do famoso azul irisado de Rambervillers, a qual surge já, numa das duas versões de diferentes dimensões – 26 cm. (o exemplar aqui apresentado tem cerca de 27,4 cm.) e 86 cm. de altura, ilustrando a capa do catálogo número 3 da fábrica, correspondente ao ano de 1905.

 

Veja-se um pequeno texto sobre a empresa, e a continuadora da sua tradição – Julie Bernaudin, aqui: http://www.ville-rambervillers.fr/gr%C3%A8s-flamm%C3%A9s.

 

 

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Dezembro 27 2012

 

Tendo começado  a produzir cerâmica em 1748, em França, François Boch implantou uma fábrica no Luxemburgo, a partir de 1767. No século seguinte, em 1836, essa fábrica fundiu-se com uma outra de Nicolas Villeroy, dando origem à empresa Villeroy & Boch.  Afectada pela separação política e administrativa entre o Luxemburgo e a Bélgica, parte da família Boch implantou uma fábrica neste último país a partir de 1841. O local escolhido foi La Louvière, próximo da fronteira com o Luxemburgo, onde a fábrica se manteve até ao seu encerramento, já na segunda metade do século XX.

 

O nome Boch passou, assim, a ser partilhado por duas empresas – a fábrica Boch Frères / Keramis, na Bélgica, e a fábrica Villeroy & Boch, no Luxemburgo. Esta última empresa ainda se encontra em produção, embora a sua sede actual seja na Alemanha (http://www.villeroy-boch.com/).

 

A fábrica Boch Frères produziu ao longo do século XIX, com sucesso comercial,  diversa loiça utilitária e decorativa, mas foi a partir do início do século XX, com a chegada de Charles Catteau (1880-1966), que a empresa atingiu a consagração, marcando o design contemporâneo no estilo Art Nouveau e, particularmente, no estilo Art Déco.

 

Catteau foi engenheiro ceramista na École Nationale de Sèvres cerca de 1902 ou 1903, e decorador da fábrica de Sèvres entre 1903 e 1904. Teve ainda formação complementar na Königlich-Bayerische Porcellan-Manufaktur de Nymphenburg, na Alemanha, até 1906, ano que em passou a trabalhar para a Boch Frères / Keramis.

 

          

Capa do catálogo editado em 2001, por ocasião da exposição das peças da fábrica Boch Frères / Keramis doadas por Claire De Pauw e Marcel Stal à Fondation Roi Baudoin, Bruxelas, Bélgica.

 

Antes desta data colaborou ainda com a fábrica de Rambervillers, em França, onde assinou algumas peças de clara inspiração Art Nouveau. Já no âmbito do estilo Art Déco, desenhou a partir de 1927 diversos modelos em vidro para a fábrica belga Scailmont (cf. http://www.artdecoducentre.be/Scailmont.html).

 

Com a chegada de Catteau, as peças da BFK passaram a apresentar, entre outras opções estéticas e técnicas, desenhos pintados a esmalte sob vidrado uniforme, esmalte escorrido sob o vidrado, esmalte mate com fundo negro (a exemplo da cerâmica holandesa Gouda), esmalte monocromático com fundo craquelé e, o que constituiu imagem de marca da fábrica durante o período Art Déco, esmalte cloisonné sobre fundo craquelé, representando animais, flores ou formas vegetais estilizadas.

 

Inserindo-se nestas últimas características, a jarra em grés aqui reproduzida, com cerca de 15,4 cm. de altura, ostenta o motivo número 775, que foi concebido cerca de 1923.

 

A produção de cerâmica decorativa diversificou-se então, quer no formato das peças quer na sua decoração, vindo a fábrica a traduzir melhor do que anteriormente l'air du temps. Neste período, a produção de peças decorativas foi também desenvolvida em grés, aproximando-se algumas destas, pela sua contenção formal e pelo seu minimalismo decorativo, da gramática japonesa. 

 

Para outros exemplares Art Déco desta fábrica belga veja-se: http://blogdaruaonze.blogs.sapo.pt/tag/boch+fr%C3%A8res.

 

 

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