Memórias e Arquivos da Fábrica de Loiça de Sacavém

Abril 27 2013

     

 

Pires de café com motivo de inspiração oriental estampado sob o vidrado.

 

Embora este pires apenas apresente as marcas que se podem ver abaixo, trata-se certamente de uma peça produzida pela FLS, pois a fábrica comercalizou este motivo, conforme se pode constatar numa manteigueira e num açucareiro anteriormente aqui reproduzidos: http://mfls.blogs.sapo.pt/?tag=chinoiserie.

 

Tendo este exemplar sido provavelmente produzido nas primeiras décadas do século XX, apresenta contudo um formato, com o rebordo ligeiramente levantado, que remete para modelos anteriores, de finais do século XVIII e princípios do seguinte.

 

 

Os pires com o rebordo pronunciadamente levantado eram também complementados por uma chávena sem asa – uma pequena taça, como se pode verificar acima num conjunto de faiança, datável do primeiro quartel do século XIX, produzido pela fábrica inglesa Davenport.

 

Neste pires inglês, notem-se os pontos dispostos em triângulo, que correspondem às marcas das trempes que separavam as peças no forno, bem como a ausência de qualquer concavidade para encaixar a base da chávena.

 

Finalmente, note-se ainda a semelhança de representação patente na perspectiva em que foi desenhada a flor principal deste pires inglês e a flor ilustrada, à esquerda, na base da decoração do pires monocromático.

 

 

© MAFLS

publicado por blogdaruanove às 21:01

Agosto 10 2011

 

 

Chávena de chá e pires em faiança da fábrica OAL, em Alcobaça.

 

Este motivo, conhecido em diferentes cores – amarelo, azul, verde e vermelho, não deixa de recordar as serigrafias com flores de grandes dimensões produzidas nas décadas de 1960 e 1970 por Andy Warhol (1928-1987).

 

Uma dessas obras – Ten Foot Flowers (1967), contemporânea, aliás, desta peça cerâmica da OAL, pode ser observada na magnífica Colecção Berardo de arte moderna (cf. http://mirror.berardocollection.com/?toplevelid=1&lang=pt), depositada no CCB, em Lisboa.

 

Esta decoração cerâmica surge na senda de uma outra gramática decorativa ligada à representação floral de grandes dimensões, praticada nas décadas de 1920 e 1930, particularmente em Inglaterra, na cerâmica de Clarice Cliff (1899-1972; cf. http://www.claricecliff.com/picture_gallery/index_js.shtml), e de outras ceramistas como Susie Cooper (1902-1995) e Charlotte Rhead (1885-1947), mas também na cerâmica continental, em fábricas como a belga Boch Frères Keramis, com Charles Catteau (1880-1966) e seus discípulos (cf. http://blogdaruaonze.blogs.sapo.pt/tag/boch+fr%C3%A8res).

 

Em Portugal, a FLS também seguiu essa tendência com motivos florais de grandes dimensões, podendo dois exemplos dessa decoração ser vistos aqui: http://mfls.blogs.sapo.pt/tag/fgd.

 

 

 

Esta caixa em porcelana da fábrica Vista Alegre, com decoração a esmalte e ouro sobre o vidrado, ilustra também essa tendência noutras fábricas portuguesas.

 

Ostentando a marca VA correspondente ao período 1922-47, esta peça apresenta uma decoração floral invulgar na produção da fábrica, quer pelo tratamento estilizado dos motivos florais ampliados quer pelas tonalidades aplicadas, evocativas de alguma decoração presente na produção das fábricas russas da época, como a Lomonosov.

 

    

 

Prato decorativo de meados do século XX, em porcelana da celebre fábrica russa ΔYΛΕΒΟ (Dulevo), com motivos florais pintados à mão e complementos a ouro.

 

Embora este fundo azul evoque, e tenha conseguido preservar, o prestígio do azul cobalto de Sèvres, é comum encontrar na decoração das grandes fábricas russas (soviéticas), do segundo quartel do século XX, flores de grandes dimensões associadas, obviamente, à cor vermelha.

 

Assim, durante o século XX, a decoração com motivos florais de grandes dimensões teve dois períodos marcantes – as décadas de 1920 e 1930, que coincidiram com o período do estilo Art Déco, e as décadas de 1960 e 1970, que coincidiram com o período da Arte Pop.

 

 

 

No entanto, o pós-modernismo também lhe concedeu atenção, como se  pode observar nestas peças concebidas pelo designer holandês Maarten Vrolijk (n. 1966; cf. http://www.maartenvrolijk.com/; peça à esquerda, editada em 1993) e pelo consagrado e já clássico designer e ceramista dinamarquês Bjørn Wiinblad (1918-2006. cf. http://www.rosenthalusa.com/1288d808/WIINBLAD_Bj%C3%B8rn.htm) para a fábrica alemã de porcelana Rosenthal.

 

O conjunto da direita, modelado pelo arquitecto e designer italiano Mario Bellini (n. 1935), tem a sua componente escultórica complementada com a decoração de Wiinblad, que fez sair da asa da chávena a haste da flor. O conjunto de Vrolijk, modelado e decorado por si, assume-se como um todo escultórico, onde forma, decoração e função pretendem conjugar-se harmoniosamente, formando o próprio conjunto uma flor estilizada.

 

Ao contrário do que se possa pensar, contudo, a tradição da decoração cerâmica com flores de grandes dimensões já vinha de séculos anteriores.

 

Sem recuar à decoração dos azulejos de Iznik (alguns exemplares belíssimos podem ser observados na colecção da FCG, em Lisboa: http://www.museu.gulbenkian.pt/obra.asp?num=1641&nuc=a4&lang=pt), ou de peças de épocas anteriores, basta mostrar o conjunto para chá, fabricado pela empresa inglesa Davenport entre cerca de 1815 e 1860, reproduzido abaixo.

 

Apresentando óbvia influência da cerâmica azul oriental, com uma taça, não uma chávena com asa, e um pires de rebordo alto (características que nos podem levar a datar o seu fabrico do início do período indicado), quase nos faz esquecer as pequenas florinhas que marcaram muita da decoração cerâmica inglesa da segunda metade do século XIX.

 

 

© MAFLS


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