Memórias e Arquivos da Fábrica de Loiça de Sacavém

Dezembro 28 2014

Prato em faiança esgrafitada, com cerca de 28 cm. de diâmetro, produzido na fábrica sueca Gustafsberg.

 

Este exemplar, datado de 1911, foi concebido pelo consagrado director artístico Josef Ekberg (1877-1945), que favoreceu a técnica de sgraffito e estes tons azulados na maioria das suas peças das décadas de 1900 e 1910.

 

Vejam-se outras referências à Gustavsberg, e mais algumas peças, aqui: http://mfls.blogs.sapo.pt/tag/gustavsberg.

 

 

© MAFLS


Dezembro 27 2013

 

Fundada em 1825, a fábrica sueca Gustavsberg (cuja grafia original era Gustafsberg) tornou-se particularmente célebre entre as décadas de 1930 e 1960 pela sua produção modernista, pela produção de estúdio e pela série Argenta, criada por Wilhelm Kåge (1889-1960).

 

No entanto, a fábrica produzira já importantes peças decorativas no século XIX. Durante a última década desse século e as primeiras do século XX foram particularmente notáveis as criações do director artístico Josef Ekberg (1877-1945), que favoreceu a decoração de peças com a técnica de sgraffito.

 

Utilizando como base um corpo cerâmico em faiança branca, essa técnica caracteriza-se pela sobreposição de outras camadas monocromáticas (azuis e, com menor frequência, verdes), em tons claros e escuros,  que depois são trabalhadas e parcialmente retiradas para efectuar a decoração. O vidrado era preferencialmente mate, embora se tenham produzido algumas peças com vidrado brilhante.

 

 

Seguiu-se um período em que a decoração insistia particularmente no dourado para complementar o próprio formato das peças, mas na década de 1930, quando Wilhelm Kåge já era director artístico, a fábrica passou a favorecer a técnica da série Argenta, desenvolvida pelo próprio Kåge.

 

Esta técnica caracteriza-se pela utilização de uma  base de vidrado mate, preferencialmente verde de cobre mas também vermelho sangue de boi, a que se sobrepõe a decoração efectuada através de uma fina camada de prata.

 

A empresa Gustavsberg acabou por ser adquirida em 2000 pela companhia alemã Villeroy & Boch (fundada em 1748), que mantém aquela marca.

 

 

A primeira peça apresentada, com cerca de 20,4 cm. de altura, é uma jarra trabalhada com a técnica de sgraffito, ostentando um motivo de bagas e folhagem muito característico do gosto Art Nouveau. Assinada por Josef Ekberg, está datada de 1909.

 

A segunda, também assinada por Ekberg mas datada de 1919 e com cerca de 29,6 cm. de altura, apresenta um esgrafitado que evoca as rosas e flores estilizadas desenvolvidas por C. R. Mackintosh (1868-1928) numa específica e consagrada variante escocesa do estilo Art Nouveau.

 

 

A terceira peça, uma taça assinada já por Wilhelm Kåge, datada de 1928 e com cerca de 10 cm. de altura e 22,5 cm. de diâmetro máximo, apresenta uma decoração de estilo Art Déco, mais geometrizante e feérica, com predominância de dourados que não seriam posteriormente a imagem de marca das cerâmicas desenvolvidas por Kåge.

 

A quarta peça, também uma taça com cerca de 10,3 cm. de altura e 22 cm. de diâmetro máximo, utiliza mais sobriamente os dourados, procurando fazer ressaltar as formas geométricas e escultóricas da sua modelação. Assinada ainda por Ekberg, num período mais tardio das suas criações, quando este já era sexagenário, está datada de 1938.

 

                         

 

A última peça, uma pequena taça da série Argenta concebida por Kåge, com cerca de 8 cm. de altura e 8,8 cm. de diâmetro máximo, é já de uma fase intermédia desta linha, sendo datável da década de 1940 ou 1950.

 

               

 

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Abril 04 2012

 

Azeitoneiras formato Concha com vidrado microcristalino.

 

Este formato surge ilustrado no catálogo de Maio de 1950 e encontra-se referido na tabela de Setembro de 1949, ao preço de 20$50 para "Colorido s/ ouro, Classe A", não tendo sido encontrada qualquer referência ao mesmo nas tabelas de 1932 e 1938.

 

O vidrado microcristalino aplicado nestas peças, reminiscente de vidrados semelhantes desenvolvidos na cerâmica europeia de finais do século XIX e das primeiras décadas do século XX (cf. http://blogdaruanove.blogs.sapo.pt/tag/denbac e http://blogdaruaonze.blogs.sapo.pt/?skip=10&tag=denbac), não é muito comum na produção da FLS.

 

Este revestimento cerâmico terá resultado das pesquisas e dos vidrados experimentais ensaiados por Álvaro Mendes Alves (1905-1996) durante a década de 1950, a exemplo de outros vidrados por ele desenvolvidos e que se encontram documentados no catálogo da exposição Dar Sentido à Argila, Os Ateliês de Decoração na Fábrica da Loiça de Sacavém, realizada em 2007 no MCS.

 

Um outro tipo de vidrado provavelmente decorrente desses ensaios da década de 1950 foi já anteriormente ilustrado aqui: http://mfls.blogs.sapo.pt/5103.html.

 

Imagem retirada do álbum Beauty in the Making.

 

O revivalismo do vidrado microcristalino no período pós-guerra foi comum a várias fábricas europeias, surgindo particularmente na produção cerâmica de algumas oficinas artísticas das fábricas escandinavas, como a Arabia e a Gustavsberg (cf. http://blogdaruaonze.blogs.sapo.pt/152384.html).

 

Acima podem ver-se duas peças em grés desenvolvidas por Stig Lindberg (1916-1982) no Studio da fábrica sueca Gustavsberg, estando esse revivalismo bem patente no revestimento microcristalino da taça.

 

No Studio da Gustavsberg, as novas variantes desses vidrados microcristalinos eram também aplicadas por outros ceramistas, como Berndt Fridberg (1899-1981), algumas das quais podem ser vistas na obra Beauty in the Making (1947), de Gösta E. Sandström (datas desconhecidas).

 

                    

Jarra da Ruskin Pottery, datada de 1931, com assinatura manuscrita de William Howson Taylor (1876-1935) incisa na base.

 

Contudo, não se pode falar de um completo abandono deste vidrado durante o período Art Déco.

 

Algumas fábricas, como a famosa Ruskin Pottery (1898-1935), de Inglaterra, que se celebrizou precisamente pela inovação nos vidrados de alta temperatura e nos revestimentos microcristalinos, mantiveram a sua produção durante as décadas de 1920 e 1930.

 

Tal revestimento encontra-se exemplificado na peça de 1931 reproduzida acima, que apresenta um formato claramente inspirado na tradição oriental de séculos anteriores.

 

Em França, num registo já algo nostálgico e evocativo quer de algumas formas quer de alguns vidrados Art Nouveau, o mesmo aconteceu com a produção de Rambervillers durante a década de 1930.

 

Nos EUA, durante as décadas de 1920 e 1930, tal prática manteve-se ainda em diversas fábricas como a Fulper (cf. http://blogdaruaonze.blogs.sapo.pt/88845.html) e a Rookwood (cf. http://blogdaruaonze.blogs.sapo.pt/87433.html), entre outras.

 

Destes dois exemplares da azeitoneira formato Concha da FLS apenas se encontra marcado aquele que está em segundo plano.

 

 

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Novembro 14 2010

 

Pequena taça em faiança, decorada à mão sob o vidrado. 

 

Acompanhando as aproximações inovadoras que a fábrica Secla trouxera à cerâmica das Caldas da Rainha durante a década de 1950, a fábrica Belo desenvolveu decorações que se encontravam em plena sintonia com as novas tendências da cerâmica escandinava, e internacional, do pós-guerra, mantendo contudo uma inequívoca ligação aos formatos tradicionais.

 

Curiosamente, este constante esforço de actualização das fábricas das Caldas da Rainha veio a resultar num movimento exportador para a Escandinávia, durante a década de 1960, protagonizado pela produção cerâmica desta cidade mas também pela de Alcobaça.

 

Taça modelada e decorada por Stig Lindberg (1916-1982), para a fábrica sueca Gustavsberg.

 

Comparativamente à taça produzida pela fábrica Belo, nesta peça destaca-se o tratamento mais ousado e inovador da forma que, no entanto, apresenta uma intervenção decorativa muito semelhante à da peça portuguesa.

 

Stig Lindberg foi um mais criativos designers escandinavos do pós-guerra, transmitindo à produção cerâmica da fábrica Gustavsberg um novo alento. Tendo iniciado a sua carreira na empresa em 1937, enquanto pupilo de Wilhelm Kåge (1889-1960), Lindberg manteve-se ligado à mesma até 1980, ano em que decidiu criar um estúdio em Itália.

 

Lindberg ladeado por Kåge (à esquerda) e Friberg. Do álbum Beauty in the Making (1947).

 

Na sequência das inovações que Kåge havia introduzido nas décadas anteriores, a obra de Lindberg, em conjunto com a de Kåge e de Berndt Friberg (1899-1981), contribuiu para que a Gustavsberg se continuasse a manter na vanguarda do design e da produção cerâmica mundial.

 

Vejam-se duas peças de Kåge aqui: http://blogdaruaonze.blogs.sapo.pt/78448.html.

 

É muito pouco provável que a decoração da peça produzida na fábrica Belo seja semelhante à da peça sueca por simples acaso, parecendo evidente que esta seguiu a gramática decorativa desenvolvida por Lindberg. 

 

 

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