Memórias e Arquivos da Fábrica de Loiça de Sacavém

Abril 08 2015

 

Pessoalmente, sinto grande enlevo pelas artes gráficas, em geral, e pela concepção e design de capas, em particular, tal como seria expectável de alguém que criou um blog intitulado Capas & Companhia (http://capasecompanhia.blogs.sapo.pt/) e reproduziu extensivamente capas e documentos gráficos em outros dois, como são o Blog da Rua Nove (http://blogdaruanove.blogs.sapo.pt/) e o Rua Onze.Blog (http://blogdaruaonze.blogs.sapo.pt/).

 

Ainda hoje me empolga o impressionante grafismo que muitas publicações portuguesas das décadas de 1920, 1930 e 1940 apresentam, como se comprova pelas capas reproduzidas abaixo, tal como me entusiasmam as diferentes variantes tipográficas da letra D criadas por Hugo D'Alte, Dino dos Santos e Joana Correia para a capa dos três primeiros volumes desta série sobre o design português.

 

Mas sabem quantas imagens apresenta o volume II desta série? Cento e dezoito. E sabem quantas destas não reproduzem aquilo que já originalmente era um documento gráfico? Apenas vinte e quatro. É verdade. O interessantíssimo texto de Rui Afonso Santos (n. 1963), sobre as mais diversas áreas de produção do período que decorreu entre 1920 e 1939, é completamente engolfado por noventa e quatro imagens reproduzindo apenas documentos gráficos. 

 

Se alguém interessado neste período não se desse ao trabalho de ler o texto daquele autor, o que seria uma desacertada e infeliz decisão considerando toda a eclética, abrangente e pertinente informação que ali nos é transmitida, e apenas atentasse nas imagens, ficaria com a errónea ideia de que estaria apenas perante um volume essencialmente consagrado às artes gráficas desta época.

 

   Capa, de autor não identificado, para a obra Leomil (1921), de António de Sèves (1895-1970).

 

Esta peculiar predominância de iconografia relacionada com tais documentos dever-se-á indubitavelmente a uma forte razão de estratégia editorial, que no entanto não transparece, e provavelmente será contrabalançada nos dois últimos volumes da série, os quais serão consagrados exclusivamente a uma cronologia ilustrada e comparativa.

 

Contudo, não deixa de ser surpreendente folhear estes três primeiros volumes da série e não descobrir uma única imagem de qualquer peça de ourivesaria ou joalharia portuguesa. Nem uma. E isto, num país com a tradição que Portugal tem nesta área, parece traduzir a inexistência, ou menoridade, de qualquer peça com design meritório nestas décadas. O que obviamente é absurdo.

 

Tal opção editorial é tanto mais estranha quanto se sabe que Rui Afonso Santos conhece e está particularmente sensibilizado para toda a produção desta área, conforme se pode constatar no número 22 da revista Umbigo (http://umbigomagazine.com/um/), à qual concedeu uma entrevista onde declarou – "Se olharmos para a história do design em Portugal, é óbvio que a joalharia é uma parte indispensável."

 

   Capa de António Soares (1894-1978).

 

Do mesmo modo, a julgar pela inexistência de qualquer iconografia correlativa nestes três volumes, parece não ter existido nas décadas de 1900 a 1959 qualquer produção ou quaisquer padrões dignos de nota na área dos tecidos, o que também é uma hipótese completamente absurda considerando a tradição têxtil portuguesa.

 

E neste contexto basta recordar, mesmo que a intenção pudesse ser contrastante, uma fotografia de 1915 em que a consagrada Sonia Delaunay (1885-1979) apresenta as suas composições, tapeçarias e propostas criativas tendo como pano de fundo algumas chitas portuguesas, e algumas das suas posteriores declarações:

 

" (...) Chassés par la chaleur torride d'août, Robert Delaunay et moi, conseillés par des amis peintres de Lisbonne, sommes arrivés à Vila do Conde, au nord du Portugal.

 

La lumière n'était pas violente, mais exaltait toutes les couleurs – les maisons multicolores ou d'un blanc éclatant, d'une ligne sobre, des paysans dans des costumes populaires, des tissus, des céramiques aux lignes à la beauté antique d'une pureté étonnante, parmi la foule des boeufs hiératiques à grandes cornes – on a eu l'impression de se trouver dans un pays de rêve."

 

   Tecido estampado aplicado numa encadernação da obra Leviana (1921), de António Ferro (1895-1956).

 

Como se sabe, o design não só pode condicionar a vivência quotidiana como traduzir mentalidades e hábitos culturais. Há simples "objectos do dia-a-dia (cadeiras, livros, cartazes, candeeiros ou jornais)" através dos quais, como afirma José Bártolo, "podemos compreender melhor a história sociocultural do Portugal contemporâneo".

 

Na ourivesaria, l'air du temps das primeiras décadas do século XX pode-se traduzir através de singelos e comezinhos objectos, hoje quase caídos em desuso, como sinetes, monogramas ou argolas de guardanapo. 

 

Os monogramas metálicos recortados, que poderiam personalizar bolsas ou outros objectos, raramente estão marcados devido à sua reduzida dimensão, mas reproduzem-se abaixo cinco exemplares em prata que, com excepção daquele que surge no canto inferior direito, ilustram claramente influências Art Nouveau e Art Déco. Dois desses exemplares, o do centro e o do canto inferior esquerdo, apresentam punção portuguesa anterior a 1938.

 

Este último, com as iniciais M. A., pertenceu ao chefe bombeiro Mário Batista de Almeida (datas desconhecidas), que integrou o Batalhão de Sapadores Bombeiros de Lisboa (activo em 1936), o Corpo de Bombeiros de Vila Viçosa (activo em 1946), os Bombeiros Voluntários de Algés (activo em 1950) e os Bombeiros Voluntários de Campo de Ourique (activo em 1972), em Lisboa.

 

 

A produção de peças maiores de ourivesaria portuguesa durante as décadas de 1900 a 1920 foi desenvolvida regularmente por inúmeras empresas de Lisboa, Porto e Gondomar. Certo é que muita dessa produção traduzia ainda a tradição formal e decorativa de séculos anteriores, ou, na melhor das hipóteses, a predominância de um gosto derivado da influência neo-manuelina.

 

Mas durante a década de 1920 encontramos já diversas casas a produzir peças com tardio gosto Art Nouveau em simultâneo com o inovador gosto Art Déco ou um revivalista gosto pela arte egípcia.

 

Em Lisboa notabilizaram-se as casas Ferreira Marques, Filhos, que produziu caixas para pó, espelhos modernos, pulseiras, salvas polidas e serviços para cacau ao gosto Art Déco, Joaquim Lory & C.ª, que comercializou alfinetes de peito com influência egípcia e alfinetes de peito, barretes e pulseiras ao gosto Art Déco, Leitão & Irmão, que desenvolveu a notável Salva das Azeitonas, de tardia influência Art Nouveau, Mariano Costa, que comercializou ainda uma outra Salva das Azeitonas, de influência Art Nouveau, Olinda de Oliveira & C.ª, Limitada, que desenhou alfinetes de peito e pulseiras ao gosto Art Déco, e Pedro Fraga, que comercializou alfinetes de peito também de influência egípcia.

 

No Porto, onde a influência do gosto neo-manuelino se arrastou, tal como em Lisboa, durante largo período, notabilizaram-se naquela década, particularmente, as casas Miranda & Filhos, com um espelho para toilette de influência Art Déco, e Reis, Filhos, Limitada, com uma esplêndida e monumental caravela de prata e marfim apresentando figuras femininas de influência Art Nouveau, a qual foi encomendada pela [sic] colónia Portuguesa do Rio de Janeiro para ser oferecida ao Hospital da Beneficência Portuguesa da mesma cidade. 

 

 

No plano individual, durante a década de 1920, destacaram-se ainda as obras de dois consagrados artistas.

 

Por um lado, a do renomado escultor João da Silva (1880-1960; cf. http://blogdaruanove.blogs.sapo.pt/85920.html), que, entre muitas outras peças, produziu um tinteiro com figura feminina intitulado O Estudo, uma faca  de cortar papel e um alfinete de peito intitulado Anfitrite e Tritão, todos eles magníficos exemplares tardios de ourivesaria escultórica ao gosto Art Nouveau.

 

Por outro, a do aclamado ourives e cinzelador António Maria Ribeiro (1889-1962), com a escultura intitulada A Vaga, uma alegoria, também de influência Art Nouveau, ao vôo entre Portugal e o Brasil protagonizado em 1922 por Gago Coutinho (1869-1959) e Sacadura Cabral (1881-1924), o Vaso Monumental, oferecido pela Guarnição Militar do Porto à Guarnição Militar de Madrid, taça que combina uma cena de bacanal, de influência neoclássica, com um formato de inspiração Art Nouveau, e a mais conservadora mas monumental escultura intitulada Altar da Pátria, obra produzida na já citada casa portuense Reis, Filhos, Limitada, que também se encontra no Brasil (cf. http://www.realgabinete.com.br/portalweb/Biblioteca/AcervoArt%C3%ADstico.aspx).

 

Para encerrar este artigo, retornamos a peças mais comezinhas, apresentando-se acima algumas argolas para guardanapo, em prata, todas com punção portuguesa anterior a 1938, e abaixo um pendente em platina, com brilhantes e esmeraldas, ostentando também punção portuguesa anterior a 1938.

 

 

© MAFLS


Dezembro 15 2011

 

Num ciberespaço com as actuais características de propagação viral de imagem e texto, cem mil visitas representam certamente um número insignificante.

 

Insignificância que se acentua se considerarmos que este número, largamente suplantado num só dia por visitas a qualquer vídeo, fotografia ou artigo de actualidade aparecido na net, apenas foi atingido ao fim de mais de dois anos.

 

Mas para um espaço específico como este, dedicado quase exclusivamente ao património português e, dentro dele, à restrita temática da cerâmica, tal número não deixa de ser significativo.

 

A peça escolhida para marcar esta efeméride é uma escultura em porcelana representando um cabrito, com cerca de 19 x 17 cm., produzida pela fábrica alemã Rosenthal (http://www.rosenthal.de/).

 

Correspondendo ao formato 836, esta peça foi modelada pelo consagrado escultor português João da Silva (1880-1960; cf. http://blogdaruanove.blogs.sapo.pt/85920.html), que produziu uma das escassas peças cerâmicas de autoria portuguesa comercializadas por fábricas estrangeiras no século XX, durante o período que decorreu entre as duas guerras mundiais.

 

Nesse percurso internacionalmente reconhecido de modelação cerâmica, João da Silva foi ainda acompanhado pelo também consagrado Ernesto do Canto da Maia (1890-1981) e pelo brilhante, mas entretanto esquecido, Correia Dias (1892-1935; cf. http://blogdaruanove.blogs.sapo.pt/tag/correia+dias).

 

Embora Canto da Maia tivesse modelado diversas peças em terracota, incluindo algumas das suas obras maiores (cf. http://tv1.rtp.pt/noticias/?headline=20&visual=9&tm=4&t=Exposicao-de-Canto-da-Maia-no-Palacio-Galveias.rtp&article=347825), a sua obra cerâmica industrializada foi essencialmente marcada pela criação de uma máscara feminina com acabamento craquelé, reproduzida abaixo e comercializada em França pelas empresas Guillard e Robj.

 

 

Este momento também não deixa de ser apropriado para referir outros espaços da blogosfera lusófona que, estando exclusivamente dedicados à divulgação e estudo da cerâmica, prestam inestimável serviço público nessa área. 

 

Apresentam-se, assim, ligações para cinco espaços portugueses e um brasileiro.

 

Sublinhe-se que o autor deste último, o artista plástico Fábio Carvalho, foi este ano convidado pela fábrica Bordallo Pinheiro (http://www.bordallopinheiro.pt/index.html) para desenvolver uma peça cerâmica no âmbito das suas edições de autor limitadas, a qual será comercializada em 2012.

 

 

Moderna Uma, Outra Nem Tanto: http://modernaumaoutranemtanto.blogspot.com/.

 

 

Cerâmica Modernista em Portugal: http://ceramicamodernistaemportugal.blogspot.com/.

 

 

O Motivo Estátua na Faiança Portuguesa dos Séculos XIX e XX: http://motivoestatuanafaiancaportuguesa.blogspot.com/.

 

 

A Memória dos Descobrimentos na Cerâmica Portuguesa: http://memoriadosdescobrimentosnaceramica.blogspot.com/.

 

 

A Fábrica de Louça de Alcântara: Breves Notas Sobre a Sua Produção: http://fabricadealcantara.blogspot.com/.

 

 

Porcelana Brasil: http://porcelanabrasil.blogspot.com/.

 

Finalmente, refiram–se ainda outros espaços que, não se dedicando exclusivamente à cerâmica, revelam também grande paixão por esta área de investigação e coleccionismo, e igualmente prestam inestimável serviço público:

 

 Armazém de Paixões: http://armazemdepaixoes.blogspot.com/.

 

 Arte, livros e velharias: http://artelivrosevelharias.blogspot.com/.

 

  As Coisas de que Eu Gosto: http://ascoisasdequeeugosto.blogspot.com/.

 

  Azulejos na Minha Terra: http://azulejosnaminhaterra.blogspot.com/.

 

  Fabrica de Louças de Sacavem: http://antigoseantiguidades.blogspot.com/

 

  Lérias e Velharias: http://leriasrendasvelhariasdamaria.blogspot.com/.

 

 Memórias de Sacavém: http://memoriasdesacavem.blogspot.com/.

 

 Trapos, Cacos e Velharias...: http://traposcacosevelharias.blogspot.com/.

 

 Velharias: http://velhariasdoluis.blogspot.com/.

 

 

© MAFLS


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