Memórias e Arquivos da Fábrica de Loiça de Sacavém

Dezembro 29 2014

 

Jarra em faiança, com cerca de 27,2 cm. de altura, produzida em Lunévillle pela fábrica Keller et Guérin.

 

Distante da superior qualidade das peças concebidas pelo célebre escultor e ceramista Ernest Bussière (1863-1913), que nos proporcionou algumas das melhores criações cerâmicas da Escola de Nancy (http://www.ecole-de-nancy.com/web/index.php?page=ernest-bussiere-2), esta jarra apresenta decoração floral, de inspiração Art Nouveau, aplicada a aerógrafo sobre stencil (chapa recortada), técnica que a K&G ainda continuou a utilizar nos motivos Art Déco (http://mfls.blogs.sapo.pt/233410.html).

 

Ecoando, no entanto, algum do sentido escultórico que Bussière veio adicionar aos tradicionais formatos cerâmicos da fábrica, encontramos neste exemplar uma modelação em relevo que acentua os seus motivos vegetalistas.

 

Complementarmente, o vidrado recebeu ainda, apenas nas partes relevadas, um acabamento nacarado e, no remate da base e do topo, uma filetagem dourada, detalhes que pretendiam colocar esta peça numa gama cerâmica acima da média.

 

Como é evidente, tais características não aproximam sequer este tipo de produção das exclusivas peças de Bussière, que ilustram a cerâmica francesa Art Nouveau ao seu mais alto nível.

 

Veja-se uma outra jarra da K&G, e leia-se algo mais sobre a empresa, aqui: http://mfls.blogs.sapo.pt/277249.html.

 

 © MAFLS


Dezembro 30 2013

 

Jarra em faiança, com cerca de 33,4 cm. de altura, decorada sob o vidrado e com complementos a dourado sobre o vidrado, produzida pela fábrica francesa Keller et Guérin, em Lunéville, no final do século XIX.

 

A designação empresarial Keller et Guérin surgiu em 1892, após a reunificação das fábricas de Lunéville, que havia sido fundada em 1730, e de Saint-Clément, que havia sido fundada cerca de 1758. Na base desta designação está o nome de Sébastien Keller (1750-1829), que havia adquirido a fábrica de Lunéville em 1786.

 

Em 1922 Edouard Fenal (?-1938), dono das faianças de Badonviller, adquiriu a empresa, criando assim um grande conglomerado empresarial na área de cerâmica, que manteve as unidades autónomas, bem como a sua designação diferenciada.

 

Em 1963, contudo, as três unidades fabris foram englobadas numa só empresa, passando a produção a efectuar-se apenas em Saint-Clément a partir de 1991. Entretanto, a empresa havia feito uma OPA sobre as faianças de Sarreguemines (http://mfls.blogs.sapo.pt/213547.html) em 1978.

 

Já neste século, em 2006, todas as empresas do grupo foram adquiridas pelo grupo Faïence et Cristal de France, passando a designar-se por Terres d'Est (http://www.terresdest.fr/fr/). Actualmente, todas estas empresas integram o grupo Jolies Ceramiques.

 

 

Como se comprova por este exemplar, a empresa Keller et Guérin já se havia notabilizado por harmoniosas e opulentas decorações em formatos tradicionais antes de contar com a colaboração de célebres designers como Ernest Bussière (1863-1913), Geo Condé (1891-1980), Émile Gallé (1846-1904), Edmond Lachenal (1855-1930), e os irmãos Joseph (1876-1961) e Pierre Mougin (1880-1955).

 

A K&G executou também várias e valiosas peças com decoração irisada, ao estilo de Clement Massier (1845-1917), mas foram as extraordinárias criações esculturais de Bussière (http://www.ecole-de-nancy.com/web/index.php?page=ernest-bussiere-2), dentro do estilo Art Nouveau, que vieram a consagrar e consolidar a imagem da fábrica nos grandes museus mundiais da especialidade.

 


Março 31 2013

     

 

Prato fundo de cozinha, com cerca de 28,2 cm. de diâmetro, decorado a aerógrafo sobre stencil (chapa recortada), no centro, e aerógrafo à mão livre, na cercadura.

 

Este exemplar de faiança figurando uma ave exótica, produzido na unidade de Coimbra da Companhia das Fábricas Cerâmica Lusitânia, apresenta um motivo particular do período Art Déco que surge como decoração central em diversas outras peças de fábricas portuguesas.

 

São conhecidas representações de aves exóticas, mais, ou menos, simplificadas, em inúmeros exemplares portugueses de loiça doméstica e decorativa, nomeadamente em peças de porcelana da Electro-Cerâmica, do Candal, da Sociedade de Porcelanas, de Coimbra, e da Vista Alegre, de Ílhavo.

 

A decoração deste prato da CFCL, em particular, evoca claramente o design genérico que Marcel Goupy (1886-1954) criou para os motivos com aves do Service Marquises, produzido em porcelana pela fábrica francesa Théodore Haviland, e do qual se pode ver mais abaixo uma das composições comercializadas.

 

               

 

Marcel Goupy estudou na École Nationale des Arts Décoratifs de Paris, colaborando depois com o famoso empresário comercial Georges Rouard.

 

Já na viragem do século XIX para o século XX as galerias parisienses A La Paix, de Rouard, comercializavam objectos Art Nouveau de grande qualidade – vidros de Gallé (1846-1904), peças únicas de cerâmica, e mobiliário, como se pode verificar no anúncio, datável de cerca de 1901, reproduzido acima.

 

Rivalizando em fama com a célebre Maison de l'Art Nouveau, de Siegfried Bing (1838-1905), a casa Rouard veio a acompanhar l'air du temps, adaptando-se posteriormente, com grande versatilidade e êxito empresarial, à comercialização e promoção de objectos estilo Art Déco.

 

Assumindo as funções de director artístico desta casa, cargo que exerceu até ao seu falecimento, Goupy consagrou-se como designer de motivos Art Déco executados em vidro, desenvolvendo no entanto, também com reconhecido sucesso, designs para outros suportes. 

 

       

 

A porcelana da empresa Haviland foi uma das preferidas pela Casa Real portuguesa durante os finais do século XIX e princípios do século XX, como se pode constatar nas colecções dos Palácios Nacionais e no catálogo da exposição Porcelana Europeia: Reservas do Palácio Nacional da Ajuda (1987).

 

Um dos serviços de jantar mais famosos desta fábrica, que, pela descrição, parece corresponder à entrada 118 do referido catálogo, foi aliás encomendado pela rainha D. Maria Pia (1847-1911; rainha consorte, 1862-1889).

 

Criado pelo consagrado Édouard Dammouse (1850-1903), irmão do ainda mais célebre Albert-Louis Dammouse (1848-1926), este conjunto foi exibido na Exposição Universal de Paris, de 1900, onde obteve um Grand Prix, na Exposição de St. Louis, em 1904, e na exposição de Londres, em 1908.

 

Dois pratos desse serviço podem ser vistos na página 62 do livro Haviland (1988), da autoria de Jean d'Albis (1911-2004), um dos netos de Théodore Haviland (1842-1919).

 

                   

 

A gramática Art Déco, no entanto, apresentou diversas outras aves estilizadas sem recorrer à figuração de aves exóticas, como se pode constatar na jarra ilustrada acima.

 

Executada em faiança pela fábrica francesa Keller et Guérin, esta peça ostenta uma composição estilizada, também aplicada a aerógrafo sobre stencil (chapa recortada), provavelmente concebida por Georges "Géo" Condé  (1891-1980).

 

Diversos outros designs deste autor têm sido divulgados por MUONT, pelo que para saber mais sobre Géo Condé e as fábricas a que esteve ligado pode visitar: http://modernaumaoutranemtanto.blogspot.pt/search/label/G%C3%A9o%20Cond%C3%A9.

 

As aves exóticas, e as composições feéricas que estas proporcionavam, marcaram contudo o imaginário das artes decorativas do período, pelo que abaixo se apresenta ainda uma jarra em vidro cuja figuração e composição têm afinidades com o trabalho de Goupy.

 

 

Esta peça, com cerca de 19,9 cm. de altura e 24,8 cm. de diâmetro, foi executada em vidro fornecido pela fábrica francesa Daum Frères & Cie. e decorada a esmalte na empresa Leune.

 

Os Établissements Leune, cujos elementos de administração tinham laços de parentesco com a família Daum, laboraram entre os princípios do século XX e a década de 1930, contando com Auguste Heiligenstein (1891-1976) como seu conselheiro artístico em meados da década de 1920.

 

Heiligenstein colaborou entre 1919 e 1923 com Marcel Goupy, tendo eventualmente executado alguns dos designs que este haveria de assinar. A impossibilidade de Heiligenstein assinar os seus próprios trabalhos é uma das razões apontadas para que tivesse cessado a colaboração com Goupy.

 

Como esta jarra bem ilustra, os seus trabalhos para os Établissements Leune quase nunca ostentavam a sua assinatura, antes a da empresa, pelo que tal razão não terá sido necessariamente decisiva para que Heiligenstein cessasse colaboração com Goupy.

 

 

© MAFLS


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