Memórias e Arquivos da Fábrica de Loiça de Sacavém

Junho 08 2014

 

Pequena jarra em faiança da fábrica da Fonte Nova, Aveiro, com cerca de 11,2 cm. de altura, apresentando decoração floral pintada à mão sob o vidrado e ligeiro relevo acima da base.

 

Note-se como esta decoração se aproxima daquela que os modelos da Fábrica do Carvalhinho haveriam de vir a recuperar, com grande apuro artístico e muito sucesso comercial, no período de administração da FLS.

 

O formato evoca claramente os modelos de jarras bojudas comuns às diversas fábricas portuguesas de faiança – desde Viana a Gaia, ou de Coimbra a Lisboa, durante os séculos XVIII e XIX.

 

 

Por outro lado, o pormenor simplificado do relevo moldado na pasta, remetendo para anteriores modelos orientais mais elaborados, haveria também de vir a ser recuperado, com um detalhe técnico mais fiel às suas origens, em algumas das peças que a VA comercializou já no terceiro quartel do século XX.

 

O pequeno pote com tampa ilustrado acima, produzido pela VA no período de 1947 a 1968 e medindo cerca 13,8 cm. na sua altura total, recupera esse modelo decorativo com a pasta de porcelana sendo trabalhada em separado e posteriormente aplicada ao conjunto.

 

     

 

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Maio 11 2014

 

Taça em porcelana da Vista Alegre, com cerca de 14,7 cm. de diâmetro e 7 cm. de altura, ostentando uma das marcas da fábrica atribuídas ao período de 1881 a 1921.

 

A decoração monocromática amarela, coroada por um discreto remate dourado no rebordo, sobrepõe-se ao relevo negativo da parte inferior, que parece evocar algas ou um motivo vegetalista, formando uma peça minimalista de harmonioso efeito e algo evocativa da inspiração oriental.

 


Abril 08 2014

 

Ainda a propósito do formato Asa Triangular (http://mfls.blogs.sapo.pt/outras-fabricas-outras-loicas-cci-304854) apresentam-se hoje três peças correspondentes a esse modelo – duas do período 1924-1947, uma cafeteira e um bule, outra, uma leiteira, do final da década de 1990.

 

As duas primeiras, embora surjam num formato que apelaria melhor a uma decoração mais minimalista ou geometrizante, traduzem inequivocamente aquele que seria o gosto pelo figurativismo floral então predominante no público português.

 

Apesar de a decoração já corresponder a uma gramática contemporânea mais contida, e em certa medida até algo minimalista, insere-se ainda num gosto conservador que tendia a centrar a decoração cerâmica nos motivos  florais, pese embora o design claramente contemporâneo, e quase modernista, destes motivos.

 

Esta apetência pela decoração floral era uma característica que também se fazia sentir em Inglaterra, a qual foi clamorosamente sublinhada, talvez devido à sua maior exuberância cromática e inovação composicional, pelo sucesso de vendas das criações de Clarice Cliff (1899-1972) durante as décadas de 1920 e 1930.

 

 

Tal como aquelas que se apresentaram no anterior artigo, as duas primeiras peças integrariam certamente um serviço tête-à-tête para duas pessoas.

 

A cafeteira, que apesar da designação ostenta os orifícios característicos de um bule, mede cerca de 14,4 cm. de altura, enquanto o bule apresenta apenas cerca de 8,7 cm. de altura.

 

As dimensões desta última peça contrastam com as dos bules Asa Triangular destinados aos serviços completos, ou mesmo aos meios-serviços, que apresentam cerca de 13 cm. de altura.

 

Dos formatos originais da década de 1930 conhecem-se chávenas de chá e de café, designadas como "Asa Triangular baixa com asa maciça" na entrada 1524 dos arquivos da VA, que, curiosamente, apresentam dimensões ligeiramente maiores nos conjuntos tête-à-tête do que nos serviços completos.

 

Uma encomenda datada de 1 de junho de 1938, registada nos mesmos arquivos sob o número 32387, refere que o formato da leiteira, criado em 1933, foi também adaptado para cafeteiras número 4 (código numérico correspondente às dimensões da peça).

 

 

Em finais de 1998, a VA anunciou o lançamento do serviço Keisha, comercializado no início do ano seguinte, que retomou o formato Asa Triangular, de que se apresenta acima uma leiteira com cerca de 11,7 cm. altura.

 

Com belíssima decoração geometrizante, a azul cobalto e ouro, de Aïssata Pinto da Costa (datas desconhecidas, filha de Manuel Pinto da Costa [n. 1937], actual presidente de São Tomé e Príncipe; ver uma entrevista de Aïssata aqui: http://www.adelaidedamoah.com/.), este serviço inclui peças de almoço e pequeno-almoço.

 

Na época a VA dispunha da cadeia de lojas Casa Alegre, para as quais Aïssata Pinto da Costa concebeu ainda três outras decorações – Adey, Aisha e Oumi, todas elas em cores quentes e com motivos de alegada inspiração africana, que foram comercializadas em faiança.

 

Não se sabendo se devido a um  elevado custo da decoração ou a um fracasso de vendas, o motivo Keisha, o único produzido em porcelana, foi descontinuado a partir de 2004.

 

          

 

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Fevereiro 08 2014

 

Conjunto para chá em porcelana da Vista Alegre.

 

Ostentando a marca correspondente ao período 1947-1968, foi certamente produzido já na década de 1960, podendo ter sido criado, ou desenhado, nos finais da década anterior. Conhece-se, no entanto, um anúncio, de página inteira, publicado na revista Panorama, número 5, IV série, de Março de 1963, que apresenta este formato.

 

Com a legenda "Vista Alegre / apresenta / SOLTEIRINHA / [imagem] / a sua última criação", o anúncio, reproduzido abaixo, apresenta um conjunto com este formato, mas com diferente decoração, onde se comprova que, originalmente, este integrava também, para além das três tacinhas, um pequeno prato.

 

Na fotografia pode-se ainda constatar que a reentrância na base do bule permite que este se encaixe por cima da chávena, um conceito pragmático e minimalista, orientalizante, que aqui se associa à modernidade.

 

 

 

 

Curiosamente, quer a designação (que se aplicará ao formato e não à decoração) quer a composição do conjunto, que nem sequer se destina a duas pessoas, como os tête-à-tête popularizados nas décadas de 1920 e 1930, mas apenas a uma, traduzem uma nova mentalidade e uma nova aproximação à vivência do quotidiano feminino.

 

Notem-se as diversas combinações peculiares nos formatos apresentados, características de certas propostas híbridas das décadas de 1950 e 1960, como sejam o conservador bico do bule conjugado com o seu cilíndrico formato modernista, e a asa em verga revestida a fita sintética, e as, aparentemente conservadoras, asas, quer da chávena quer da leiteira, combinadas com o formato menos conservador do corpo principal das peças.

 

Embora estas asas não sejam efectivamente tão conservadoras como parecem, até pelo amplo espaço criado no seu interior, a verdade é que propostas posteriores destas formas cilíndricas, ou mesmo tronco-cónicas, vieram a prescindir de quaisquer asas, tal como já anteriormente tinha acontecido em alguns modelos modernistas derivados das propostas da Bauhaus.

 

A simples decoração listada, no seu minimalismo repetitivo, contribui também para sublinhar a modernidade da proposta deste conjunto.

 

 

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Setembro 10 2013

 

A propósito das alterações que durante as décadas de 1960 e 1970 se fizeram no equipamento e na produção das fábricas portuguesas de cerâmica, e das referências a esse assunto que Clive Gilbert (n. 1938) fez no mais recente artigo das suas Memórias (http://mfls.blogs.sapo.pt/261086.html), apresenta-se hoje um prato que celebra a inauguração do forno Riedhammer de cozedura rápida na Vista Alegre.

 

A empresa alemã Riedhammer, fundada em 1924 e actualmente integrada no grupo empresarial italiano SACMI (http://www.sacmi.com/Default.aspx?ln=en-US), ainda hoje é uma das líderes de mercado no equipamento especializado para fábricas cerâmicas, tendo fornecido mais de 8.000 unidades industriais em todo o mundo, podendo saber-se mais sobre os seus produtos aqui: http://www.riedhammer.de/default.aspx?ln=en-US

 

Aproveita-se a oportunidade para divulgar três marcas da VA que não são muito comuns nem são habitualmente reproduzidas nos livros e catálogos relativos à fábrica.

 

                    

 

A primeira corresponde à já conhecida dupla marcação da SP, sob o vidrado, e da VA, sobre o vidrado, sendo a marca VA do período 1947-1968, período em que esta dupla marcação não era muito comum, como já foi referido (http://mfls.blogs.sapo.pt/129589.html). Encontra-se aplicada num conjunto de loiça infantil formato Angola da SP, formato relançado na década passada pela VA com algumas peças monocromáticas avulsas, e tem a particularidade de apresentar uma tonalidade verde-água pouco vulgar.

 

A segunda é uma variante da marca correspondente ao período de 1968 a 1971, surgindo predominantemente na loiça destinada à hotelaria. Encontra-se aplicada num prato de sobremesa formato Sagres, a linha que durante décadas foi um sucesso de vendas nos fornecimentos de hotelaria e restauração da VA, produzido para a antiga Albergaria dos Condes de Barcelos, em Barcelos.

 

A terceira corresponde à celebração dos cento e sessenta anos da fundação da VA, encontrando-se aplicada num conjunto relevado de pires e chávena de café com decoração a dourado.

 

A marca patente no prato comemorativo que hoje se apresenta corresponde, como é óbvio e se pode verificar abaixo, ao período de 1971 a 1980.

 

 

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Setembro 01 2013

 

Jarra em porcelana da Vista Alegre apresentando uma composição intitulada Sketch, da autoria do designer de moda espanhol Jesús del Pozo (1946-2011). 

 

Lançada em finais de 2002, esta jarra veio confirmar uma nova opção comercial da VA, ilustrando a sua maior preocupação em acompanhar o design contemporâneo.

 

A revista Vista Alegre número 22, de Abril de 2003, apresenta um artigo de quatro páginas onde podem ver-se exemplares de um serviço de mesa e chá com similar decoração, também da autoria de Jesús del Pozo.

 

 

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Agosto 04 2013

 

Tinteiro em porcelana da Vista Alegre com motivos florais estilizados ao gosto Art Déco.

 

Apresentando decoração esmaltada e complementos a dourado, pintados à mão sobre o vidrado, ostenta na base a marca correspondente ao período de 1922 a 1947.

 

O tinteiro propriamente dito, avulso, mede cerca de 4,5  cm. de altura, apresentando um diâmetro de cerca de 4,7 cm. em cima e 3 cm. em baixo. Conhecem-se outros exemplares com distintos formatos e dimensões.

 

Diversas outras fábricas produziam também tinteiros avulso em diferentes tamanhos, como a Electro-Cerâmica do Candal, de que se conhecem, por exemplo, peças com apenas cerca de 2,7 cm. de altura e um diâmetro de cerca de 3,4 cm. em cima e 2,4 cm. em baixo.

 

Tinteiros avulso com dimensões-padrão semelhantes às do exemplar da VA estiveram em produção, pelo menos, até à década de 1960, sendo de uso comum nas carteiras, individuais ou colectivas, de madeira das escolas nacionais, as quais apresentavam um orifício destinado a encastrar o tinteiro.

 

 

Tinteiro em porcelana, constituído por três elementos distintos, apresentando conceitos claramente associáveis à gramática decorativa pós-modernista.

 

Conjugando alusões à esfera armilar com alusões aos mon (brasões) japoneses, este tinteiro surge como uma das escassas peças produzidas pela VA no último quartel do século XX em consonância com as tendências do design contemporâneo.

 

Concebida na sua forma e decoração pelo artista plástico António Viana (n. 1947), esta peça, intitulada Calamus, integra um conjunto de três diferentes tinteiros de sua autoria, produzidos em 1998 para comemorar o quinto centenário da viagem de Vasco da Gama (c.1469-1524) à Índia (1497-98).

 

Como se pode observar, ostenta o número 185 de uma edição limitada a 250 exemplares. Curiosamente, os outros dois tinteiros do conjunto – intitulados Armilar e Pentecostes, tiveram uma tiragem superior, limitada a 350 exemplares cada um.

 

     

 

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Março 09 2013

                                             

 

Jarra cilíndica com cerca de 22,8 cm. de altura e 11,3 cm. de diâmetro, cujo formato é vulgarmente conhecido como canudo, em porcelana da Vista Alegre.

 

Segundo a tabela de marcas da VA habitualmente divulgada pela empresa, a marca desta peça, reproduzida no final do artigo, corresponderá ao período de 1881 a 1921. 


Esta mesma decoração encontra-se num cântaro com testo e púcaro existente no Museu da Fábrica da Vista Alegre, e datado de 1865, que está reproduzido na página 120 do livro Vista Alegre: Porcelanas (1989), sendo a imagem acompanhada do seguinte texto:


"Decoração em estilo grego. O gosto pela imitação de vasos gregos (considerados na altura etruscos) nasce com a vinda para França de peças dos países conquistados por Napoleão. A fábrica Denuelle expõe vasos "etruscos" na exposição de 1834. Estava lançada a moda".

 

Contudo, os catálogos da fábrica inglesa Wedgwood apresentavam já uma decoração denominada Etruria em finais do século XVIII (podendo ver-se um prato decorado com esse motivo aqui: http://mfls.blogs.sapo.pt/11133.html), e muito do seu famoso jasperware era decorado com motivos de similar inspiração clássica. Aliás, uma das mais consagradas peças da Wedgwood é a jarra denominada Portland (Portland Vase), executada pela primeira vez cerca de 1789, que reproduz um original da antiguidade clássica criado em vidro (http://www.metmuseum.org/Collections/search-the-collections/120002080).

 

Ainda na página 121 do mesmo livro pode ver-se uma jarra existente no Museu Nacional de Arte Antiga, em Lisboa, também datada de 1865, que apresenta não só o motivo do friso geométrico patente nesta jarra da VA como também um motivo muito semelhante ao do friso que decora o rebordo do prato da Wedgwood.

 

      

 

Constata-se, assim, que a cor de laranja, antes de ser uma das cores preferidas para a cerâmica do período Art Déco, tinha estado em voga no século XIX, paradoxalmente em pasta de porcelana que pretendia remeter para o glamour histórico das peças em terracota, ou barro vermelho, da antiguidade clássica.

 

Essa preferência pelo laranja pode ainda ser constatada na garrafa e copo da VA, com marca correspondente ao período de 1870 a 1880, ilustrada acima.

 

Estas duas peças integrariam habitualmente um conjunto de acessórios para quarto, que incluiria ainda um jarro e bacia para mãos, caixa para escovas e bacia de quarto. Eventualmente, este conjunto poderia também apresentar arrastadeira e cuspideira, ou escarrador.

 

O conjunto de garrafa e copo poderia ainda ser acompanhado de um pequeno açucareiro.

 

                                            

 

O glamour e apelo do alaranjado da antiguidade clássica é ainda testemunhado nesta jarra, ou garrafa, holandesa de meados do século XIX, produzida pela fábrica de Petrus Regout (1801-1878), mais tarde conhecida como Royal Sphinx (Koninklijke Sphinx), fundada em 1836.

 

O aspecto depurado, e surpreendentemente minimalista avant la lettre, desta peça traduz-se numa elegância sublinhada pela filetagem e pelo vidrado, que apenas reveste a base e a área das três marisas do gargalo, contrastando com o aspecto mate do resto do corpo.

 

Apesar de a peça ser executada em argila vermelha, a presença das marisas remete claramente para a herança funcional e estilística da empresa vidreira que Regout havia fundado em 1827.

 

Sobre o historial da Royal Sphinx veja-se o site oficial da empresa em: http://www.sphinx.nl/AboutSphinx/Geschiedenis.aspx.

 

 

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Fevereiro 09 2013

 

Prato relevado em porcelana da Vista Alegre, com decoração alusiva ao Carnaval.

 

O motivo central foi estampado tendo a decoração do rebordo sido aplicada a aerógrafo.

 

Segundo a tabela de marcas da VA habitualmente divulgada pela empresa, que se encontra incompleta, esta marca corresponderá ao periodo de 1881 a 1921. 

 

 

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Novembro 17 2012

 

Jarra em porcelana da Vista Alegre com o logótipo da fábrica de tintas DYRUP. Com cerca de 31,1 cm. de altura, ostenta a marca correspondente ao período de 1947 a 1968.

 

O formato modernista desta jarra, executada em finais da década de 1950, ou princípios da década seguinte, é acentuado pelo pontilhado em relevo, sendo tal característica comum a várias peças de produção alemã, encontrando-se particularmente em alguns exemplares das fábricas Eschenbach (http://www.eschenbachporzellan.com/) e Rosenthal (http://www.rosenthal.de/).

 

Nesta última fábrica, o relevo pontilhado, acompanhado ou não de motivos figurativos, aparece muitas vezes associado às decorações desenvolvidas pelo consagrado designer e ceramista dinamarquês Bjørn Wiinblad (1918-2006; http://www.rosenthal.de/product/studio-line-tableware-magic-flute-sarastro-plate-25-cm-en/.)

 

 

Como se pode constatar neste anúncio da Vista Alegre, publicado na revista Panorama, número 2, III série, de Junho de 1956, este formato já era comercializado nesse ano.

 

O facto de esta peça ter sido encomendada em porcelana, e executada numa fábrica de Ílhavo, apresenta em si uma nota irónica, pois as instalações da DYRUP em Portugal, que ainda hoje se encontram no mesmo local, confinavam a norte com o perímetro da Fábrica de Loiça de Sacavém...

 

A DYRUP, empresa de origem dinamarquesa fundada em 1928 e activa em Portugal desde 1947, foi entretanto adquirida no início do corrente ano de 2012 pela empresa americana PPG (http://www.ppg.com/en/Pages/home.aspx).

 

 

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