Memórias e Arquivos da Fábrica de Loiça de Sacavém

Novembro 29 2014

 

Prato estampado a preto, sob o vidrado, com imagens de três edifícios e um monumento do Porto e as efígies hipotéticas de três personalidades ligadas aos descobrimentos portugueses.

 

Os edifícios representados na aba são, respectivamente, de cima para baixo e da esquerda para a direita, o primitivo Palácio de Cristal, projectado pelo arquitecto inglês Thomas Dillen Jones (datas desconhecidas), inaugurado em 1865 e demolido em 1951, o Palácio da Bolsa, projectado inicialmente pelo arquitecto Joaquim da Costa Lima Júnior (1806-1864) e inaugurado em 1848 e 1880 (Salão Árabe), e a ponte Maria Pia, projectada por Gustave Eiffel (1832-1923) e inaugurada em 1877.

 

As efígies, pela mesma ordem, representam Vasco da Gama (c. 1469-1524), o infante D. Henrique (1394-1460) e Pedro Álvares Cabral (c. 1467-c. 1520). O monumento ao centro representa a estátua equestre do rei D. Pedro IV (1798-1834), da autoria do escultor francês Célestin Anatole Calmels (1822-1906), inaugurada em 1866.

 

O tardoz deste prato produzido na fábrica de Massarelos, bem como o de todos os exemplares conhecidos com esta decoração, entre os quais se conhece um conjunto, estampado a azul, de chávena almoçadeira com pires, mas sem o motivo central (http://memoriadosdescobrimentosnaceramica.blogspot.pt/2010/06/n19-almocadeira-busto-de-infante-d.html), havendo ainda notícia da existência de uma caneca, apresenta a marca comercial ADRIÃO / RUA D' ASSUMPÇÃO 20 / PORTO inscrita num duplo círculo.

 

Parecem não ter existido determinações para a aplicação específica das duas estampas, pois, nos exemplares conhecidos, a posição relativa das imagens presentes na aba varia relativamente à figura central. Note-se ainda a quebra acidental, na estampa da aba, que surge na imagem do Palácio de Cristal e a quebra, esta intencional, à esquerda da ponte, que correspondente ao remate da estampa.

 

É muito provável que estas peças tenham sido produzidas entre 1894, ano em que se emitiram também os primeiros selos comemorativos portugueses, precisamente para assinalar os quinhentos anos do nascimento do infante D. Henrique, que terá ocorrido no Porto (http://pt.wikipedia.org/wiki/Casa_do_Infante), e 1898 ou 1900, datas em que se comemoraram, respectivamente, os quatrocentos anos da chegada de Vasco da Gama à Índia e de Pedro Álvares Cabral ao Brasil.

 

Apesar da sua antiguidade, os pratos com este motivo parecem não ser muito raros. Este surgiu em conjunto com um similar, cuja marca, reproduzida abaixo, apenas difere ligeiramente nas letras impressas na pasta.

 

Pode ainda ver-se um outro exemplar, também na mesma cor, mas com nuvens diferentes na imagem central e um deficiente e inestético remate da estampa da aba, que ocorre à direita do Palácio de Cristal, em: http://memoriadosdescobrimentosnaceramica.blogspot.pt/2010/04/n9-prato-estatua-equestre-d-pedro-iv.html. Nesse prato, note-se também como a posição intercalada dos edifícios e das efígies é diferente da que aqui se apresenta.

 

  © MAFLS


Setembro 01 2012

 

Figura em faiança da unidade de Coimbra da Companhia das Fábricas Cerâmica Lusitânia, com cerca de 15,2 cm. de altura, apresentando decoração policromática a esmalte sobre o vidrado.

 

Como se pode constatar, o tratamento desta figura evoca um curioso cruzamento entre as figuras Hümmel anteriormente referidas (http://mfls.blogs.sapo.pt/tag/h%C3%BCmmel), que começaram a ser comercializadas a partir de 1935, e as figuras da série Bébé da FLS (http://mfls.blogs.sapo.pt/56396.html), lançadas a partir de 1945.

 

Uma vez que esta peça não foi produzida antes da década de 1930, dado ser da unidade e Coimbra, e muito provavelmente possa ser de meados da década 1940, é possível que esta seja a resposta concorrencial da CFCL à série Bébé da FLS, embora não se conheçam muitas figuras da CFCL dentro desta gramática.

 

Como se verifica abaixo, esta peça corresponde ao formato 153. Na exposição Portuguese Ceramics in the Art Deco Period, realizada nos EUA em 2005, exibiu-se uma figura de um gato, com marca semelhante, correspondente ao formato 167.

 

Nesse evento exibiu-se ainda a figura de um pelicano, correspondente ao formato 113, com a marca CFCL2, peça semelhante a uma que já foi apresentada por MUONT (http://modernaumaoutranemtanto.blogspot.pt/2011/11/pelicano-da-lusitania-coimbra.html#links). Atendendo ao que se refere nesse artigo, a presença de uma marca de Coimbra, fica a dúvida sobre a produção dos mesmos formatos nas unidades de Coimbra e Lisboa.

 

A propósito da marca desta peça, ensaia-se aqui uma tentativa de sistematização, não exaustiva, de diferentes marcas impressas da CFCL, apresentando-se primeiro, por ordem cronológica, as marcas que possivelmente teriam sido exclusivas da unidade de Lisboa. 

 

Permanece, no entanto, a dúvida se a marca CFCL3 não teria sido comum às diferentes unidades da CFCL a partir da década de 1950.

   

                    

CFCL1                                                     CFCL2                                                      CFCL3

 

Foi a partir de 1929 que a CFCL expandiu consideravelmente o seu património e colocou em prática um plano de reconversão, modernização e diversificação de unidades industriais, originando assim o lançamento de diferentes marcas, conforme se pode constatar no relatório e contas da direcção da CFCL para esse ano:

 

"Completado com pleno êxito, no exercício de 1928, o primeiro plano do desenvolvimento industrial, que o nosso director geral iniciara há cêrca de  oito anos, começámos no exercício  findo a efectivar o segundo plano que, de um modo geral, mereceu já a vossa aprovação.

 

No exercício findo adquiriram-se por compra três novas fábricas de produtos cerâmicos, a de Alcarraques, a de Arraiolos e a de Coimbra, que, livres de encargos, pertencem hoje integralmente à nossa Companhia.

 

As novas fábricas possuem terrenos anexos com mais de 250:000 metros quadrados, uma superfície construída de cêrca de 40:000 metros quadrados, e devem ocupar, quando em marcha normal, mais de 1:000 operários.

 

Na nova fábrica de Coimbra, destinada especialmente a cerâmica fina, estamos concentrando quási todos os nossos esforços, com o objectivo de transformá-la ràpidamente numa das maiores fábricas da especialidade. Algumas secções trabalham já regularmente e esperamos normalizar a produção de todas elas durante o exercício de 1930.

 

É evidente que a aquisição das novas fábricas e o apetrechamento da fábrica de Coimbra, onde se construíram já cinco novos fornos e se utilizaram mais de trinta vagões de maquinismos e utensílios, nos obrigou a grandes imobilizações de dinheiro. Porém, os nossos recursos fizeram face a todos os encargos, mesmo os resultantes da compra de novas matérias primas, continuando a situação financeira da nossa Companhia a ser desafogada."

 

Abaixo apresentam-se três marcas impressas relativas a Coimbra, ressalvando-se o facto de se conhecerem também marcas de Coimbra pintadas à mão: http://modernaumaoutranemtanto.blogspot.pt/2011/11/jarra-esferica-lusitania-coimbra.html#links.

 

                   

CFCL Coimbra1                                       CFCL Coimbra2                                      CFCL Coimbra 3

 

Já no relatório e contas da direcção da CFCL para o exercício de 1930 continua a afirmar-se o sucesso da sua política e a consolidação do seu crescimento:

 

"A grave crise económica e financeira que, de um modo geral, afecta todos os países atingiu em Portugal o seu período agudo. A nossa Companhia sentiu-lhe, como é natural, os efeitos, mas o moderno apetrechamento das nossas fábricas, a perfeição dos nossos variados produtos, a nossa boa organização e os nossos fortes recursos permitiram-nos assim mesmo aumentar consideràvelmente as nossas vendas e obter lucros muitos superiores aos do exercício de 1929.

 

À nova fábrica de Coimbra continuou o nosso director geral a dispensar a maior parte dos seus esforços. A produção desta fábrica está hoje normalizada e os respectivos produtos, especialmente a louça sanitária, os azulejos, o grés, os produtos de barro vermelho e os pavimentos hidráulicos e cerâmicos, estão obtendo um interessante sucesso no mercado. As obras de ampliação, a instalação de novas máquinas e a construção de novos fornos tomaram no exercício findo grande desenvolvimento, e vão continuar, com a possível actividade, no exercício de 1931.

 

Nas outras fábricas continuámos a habitual política de aperfeiçoamento e modernização, conservando-se paradas duas delas, por assim o aconselharem os nossos interêsses e a situação do mercado.

 

Estabelecemos no exercício findo o nosso depósito no Pôrto, ficando o escritório e os armazéns centrais instalados na Rua do Almada, 249 a 253.

 

Adquirimos em 1930 uma casa de habitação e uma regular propriedade rústica em Coimbra, e terrenos de apreciável valor industrial nos lugares de Marmeleira, Adémia e Alcarraques."

 

CFCL Porto / Massarelos

 

Apesar das dificuldades decorrentes do contexto económico-financeiro e de grandes contratempos na implementação total e eficaz da unidade de Coimbra, a política de expansão e aquisições da CFCL veio a desenvolver-se durante mais alguns anos, culminando em 1936 com a compra da fábrica de Massarelos, no Porto.

 

Essa aquisição originou o aparecimento de uma nova marca, LUFAPO / MASSARELOS, que se reproduz acima. Como se verifica, esta é uma marca que manteve na essência o modelo instituído no início do século XX durante a fase da Empresa Cerâmica Portuense (1904-1912), o qual fora também preservado posteriormente na fase Chambers & Wall (1912-1936).

 

Assim, no interior do círculo, às iniciais ECP sucederam-se as iniciais C&W e, no período CFCL, a cruz de Cristo.

 

 

© MAFLS


Fevereiro 06 2011

 

Corças em faiança, fabricadas na unidade de Coimbra da companhia Lusitânia (acima) e na unidade de Lisboa.

 

Fundada em 1890, em Lisboa, a fábrica Lusitânia dedicou-se inicial e essencialmente à produção de materiais de construção e revestimento.

 

A maior atenção dada pela empresa à produção de loiça utilitária e decorativa ocorreu a partir de 18 de Junho de 1920, data em que o Banco Industrial Português, Júlio Martins (Júlio do Patrocínio Martins, 1878-1922; ministro, com diferentes pastas, desde 1919 a 1921) e Augusto Tavares adquiriram a companhia aos seus anteriores proprietários e fundadores, Silvain [sic, Diário do Governo] e Marie Therèse Bessière.

 

 

A 28 de Dezembro de 1921 a Companhia da Fábrica Cerâmica Lusitânia, com sede na Rua do Arco do Cego, número 88, Lisboa, estabeleceu os seus estatutos, sendo o seu capital de 2.500.000$00 dividido em 25.000 acções de 100$00, assim distribuídas:

 

Banco Industrial Português, 1.662.000$00; Júlio Martins, 554.000$00; Augusto Tavares, 277.000$00; Francisco Santos, 1.000$00; António Lourenço Barata, 1.000$00; João Cooke Carrington, 1.000$00; Dr. Vasco Guedes de Vasconcelos, 1.000$00; Armando Luís Rodrigues, 1.000$00; Dr. Álvaro Machado, 1.000$00; e Dr. Augusto Soares, 1.000$00.

 

 

Em 1930 a companhia iniciou a construção de um forno-túnel, com alimentação contínua, em Coimbra. Em 1934, o relatório anual da empresa referia que a fábrica de Coimbra empregava 750 operários mas que não dava lucro. Nesse mesmo ano, João Cooke Carrington, accionista e director da companhia, faleceu.

 

Em 1936 a companhia adquiriu à empresa Chambers & Wall a fábrica de Massarelos, no Porto. Ainda nesse ano, a utilização do forno-túnel de Coimbra foi suspensa, devido a restrições legais, permanecendo em operação apenas os fornos intermitentes.

 

Em 1945 a companhia abandonou os planos de construir uma nova fábrica e de deslocalizar a sua fábrica de Arraiolos para outro local. Posteriormente, a empresa veio a substituir a marca CFCL pala marca LUFAPO.

 

 

Em Coimbra, a acta do municípo de 23 de Setembro de 2002 registava a prevista demolição do edíficio fabril, devido à sua acentuada degradação. A cidade, no entanto, preserva a memória da fábrica, pois a noroeste da estação ferroviária existe ainda hoje o bairro da Lufapo. 

 

Em Lisboa, o edifício da fábrica existia ainda em 1982, embora já então pertencesse à Caixa Geral de Depósitos. Acabou por ser demolido em 1988, para se construir, entre 1987 e 1993, a sede da CGD, que preservou in loco um dos fornos, e respectiva chaminé, do complexo fabril. Este conjunto foi integrado num jardim e pode hoje ser observado junto à fachada principal da CGD, na Avenida João XXI.

 

Também o arquitecto Tomás Taveira (n.1938) preservou a memória da fábrica Lusitânia, no edifício pós-modernista que projectou para o outro lado da Avenida João XXI.

 

 

© MAFLS


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