Memórias e Arquivos da Fábrica de Loiça de Sacavém

Janeiro 02 2013

 

Taça em faiança, com cerca de 6 cm. de altura e 21,2 cm. de diâmetro, da fábrica inglesa Pilkington Tile and Pottery Co., decorada em baixo relevo executado na pasta por Richard Joyce (1873-1931).

 

Fundada em 1892, a empresa tornou-se famosa pela sua cerâmica com lustre glaze, introduzida cerca de 1906. Acolhendo inúmeros ceramistas e designers aclamados, a fábrica produziu diversas outras peças notáveis, como esta que se apresenta, e muitos outros vidrados e motivos interessantes, como os da linha lapis ware, lançada em 1928 e preponderante na produção da empresa durante a década seguinte.

 

No motivo desta taça é evidente um certo ambiente evocativo dos mundos fantásticos característicos do ciclo arturiano, do Celtic folk lore e do Celtic fairy lore, e do mundo ficcional que, com base nesse imaginário, J. R. R. Tolkien (1892-1973) haveria de vir a (re)criar posteriormente nas suas obras – The Hobbit (1937; veja-se a capa de uma edição portuguesa de 1962 aqui: http://blogdaruaonze.blogs.sapo.pt/254298.html), na trilogia The Lord of the Rings (1954-1955) e no volume, publicado postumamente, The Silmarillion (1977).

 

Como seria de esperar numa peça desta qualidade, o próprio acabamento semi-mate do vidrado e a sua tonalidade musgosa contribuem para evocar um mundo de lagos e florestas mágicas.

 

 

© MAFLS


Agosto 25 2012

 

     

Máscara cerâmica de grandes dimensões, com cerca de 46,8 x 31,4 cm. na base de madeira, assinada com as iniciais "R. H. (L.?)" e datada "49".

 

Conforme já foi referido anteriormente (http://mfls.blogs.sapo.pt/tag/olaria+sanches), estas iniciais surgem associadas à produção da Olaria Sanches, eventualmente entre a década de 1940 e o início da década de 1970.

 

De acordo com as afirmações de João Teodoro Ferreira Pinto Basto (1870-1953) na obra A Cerâmica Portuguesa (1935), a Olaria Sanches já se encontrava activa em 1934 na zona da Luz (Benfica), em Lisboa, embora o autor inclua a empresa na "Ceramica de construção".

 

Este último pormenor não é, contudo, significativo, pois as diversas fábricas da empresa Lusitânia surgem também incluídas nessa classificação, quando se sabe que produziram loiças decorativas e de mesa.

 

 

A gramática desta máscara, e da sua base de apresentação em madeira, aproxima-se daquela que Jorge Barradas (1894-1971) escolheu para alguma da sua cerâmica das décadas de 1940 e 1950, como se pode apreciar pela imagem reproduzida acima.

 

Esta imagem foi publicada na revista Panorama, número 38, de 1949, para ilustrar um artigo sobre a exposição que Barradas havia efectuado pouco antes no estúdio do Palácio Foz, sede do SNI, em Lisboa. O artista já em 1945 tinha exibido as suas cerâmicas naquele espaço, podendo ver-se reproduzidas na revista Panorama, número 27, de 1946, três das peças então apresentadas.

 

Embora em algumas das máscaras de Barradas surjam rostos frontais com preponderância de um rígido eixo vertical, a sua imagem de marca surge associada a um requebro na transição do colo para a face, como se pode ver na peça reproduzida, a qual, na década de 1990, pertencia à colecção do arquitecto Januário Godinho (1910-1990).

 

Na obra de Jorge Barradas, este aspecto que, para além de traduzir uma certa dinâmica corporal, confere maior elegância e graciosidade às suas representações, é quase sempre complementado com o olhar das figuras ligeiramente dirigido para um plano inferior.

 

 

© MAFLS


Abril 21 2012

 

Grande prato de parede, medindo cerca de 29 cm. de diâmetro, com decoração pintada à mão e alguns contornos acentuados a sgraffito.

 

Conforme já foi referido anteriormente, nesta técnica, a pasta, depois de pintada, é riscada ou raspada para expôr a(s) camada(s) inferior(es) e conferir relevo ao trabalho final.

 

Esta peça encontra-se assinada e datada, na frente, a sgraffitoJ P 51, apresentando ainda assinatura e data manuscrita a tinta preta, no verso. 

 

Embora estilisticamente o traço também recorde a obra de Alice Jorge (1924-2008) e de Cipriano Dourado (1921-1981), é muito provável, tal como as iniciais sugerem, que este prato seja do início da fase cerâmica do consagrado pintor Júlio Pomar (n. 1926; http://www.cam.gulbenkian.pt/index.php?article=59984&visual=2&langId=1&ngs=1&back=P).

 

Durante os anos de 1955 a 1957 Pomar executou diversos trabalhos, em diferentes formatos e com diferentes técnicas, na fábrica Secla, das Caldas da Rainha, depois de eventualmente ter também produzido algumas peças na já aqui mencionada Cerâmica Bombarralense (1944-1954; cf. http://mfls.blogs.sapo.pt/149743.html).

 

É possível que este exemplar tenha sido executado nesta última fábrica, apesar de a sua pasta branca ser distinta da pasta (amarelada ou alaranjada) usada na maioria dos trabalhos da Cerâmica Bombarralense. Conhecem-se, contudo, muitos pratos desta fábrica executados em pasta branca.

 

As iniciais esgrafitadas nesta peça são estilisticamente muito semelhantes às iniciais esgrafitadas num prato da Secla, realizado por Pomar em 1956, o qual se encontra reproduzido no catálogo da exposição Estúdio Secla: Uma renovação na cerâmica portuguesa, realizada em 1999 no Museu Nacional do Azulejo.

 

Uma peça de Júlio Pomar que, estilistica e tecnicamente, se assemelha ainda mais a esta, o prato "A simples espinha sugere...", também datado de 1951 e assinado com iniciais muito semelhantes, integra o acervo do Museu do Neo-Realismo, em Vila Franca de Xira (http://www3.cm-vfxira.pt/PageGen.aspx?WMCM_PaginaId=30542#.UOmsBOSIGSo).

 

   

 

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Outubro 30 2011

 

Conjunto de pequenos azulejos, lambrilhas, decorados a stencil (chapa recortada) sob o vidrado.

 

Com cerca de 6,3 cm. de lado, estas lambrilhas não apresentam qualquer marca no tardoz. Sabe-se, contudo, que a fábrica Viúva Lamego executou dezenas de peças semelhantes a estas para o revestimento do pavilhão de Portugal na Exposição Internacional de Paris, realizada em 1937.

 

Os motivos das lambrilhas apresentadas nessa exposição de 1937, no âmbito da acção do S.P.N. e do seu mentor, António Ferro (1895-1956), deveram-se, entre outros, a Carlos Botelho (1899-1982), Paolo Ferreira (1911-1999), Fred Kradolfer (1903-1968), Bernardo Marques (1899-1962), Emérico Nunes (1888-1968) e Tom (1906-1990).

 

A propósito da obra do S.P.N./S.N.I. e da apresentação dessas peças na exposição de 1937, declarou António Ferro no opúsculo Apontamentos para uma Exposição (1948), que transcreve o seu discurso pronunciado a 29 de Janeiro desse ano:

 

"(...) É uma obra, pois, difícil de conceber no seu conjunto (este ou aquele viu isto mas não chegou a saber daquilo...) obra que os seus próprios criadores não conseguem, às vezes, abraçar e chega até a influenciar os que a negam ou combatem sem já saberem porque preferem agora a jarra de Estremoz ao triste solitário, o azulejinho de motivos populares – que apareceu, pela primeira vez, no Pavilhão de Paris –, ao azulejo banalmente floreado, a fingir antigo, a Pousada diferente ao hotel qualquer, a montra-moldura à montra-armazém, a edição certa, harmoniosa à edição horrenda de catálogo barato, etc., etc., etc., (os etc. etc., aqui, não são mascarados pontos finais: onde se diz etc., poderia sempre dizer-se alguma coisa...)."

  

Anúncio publicado na revista Panorama número 13, III série, de Março de 1959.

 

Provavelmente, a aplicação de lambrilhas semelhantes terá também ocorrido no pavilhão português da Exposição de Nova Iorque, em 1939, onde estiveram Botelho, Kradolfer e Marques (cf. http://blogdaruanove.blogs.sapo.pt/421144.html), nos diversos pavilhões da Exposição do Mundo Português, realizada em Lisboa no ano seguinte, e no Museu de Arte Popular (http://www.map.imc-ip.pt/pt/index.php), edifício remanescente deste último evento que veio a ser reinaugurado em 1948.

 

Estes foram motivos recorrentes na arquitectura de interiores durante as duas décadas seguintes, pelo que outros artistas, designers e decoradores de interiores se juntaram àquela lista inicial, havendo notícia que Lucien Donnat (nasceu c.1922), por exemplo, já na década de 1940 se poderia incluir nela.

 

A popularidade destes motivos é ainda atestada através da produção de lambrilhas semelhantes por outras fábricas, como a Aleluia, de Aveiro (cf. http://blogdaruaonze.blogs.sapo.pt/tag/lambrilha).

 

Nas páginas 62 e 63 do livro O Azulejo em Portugal no Século XX (2000) encontra-se reproduzido um painel depositado no Museu Nacional do Azulejo (http://mnazulejo.imc-ip.pt/) com 152 lambrilhas semelhantes a estas, uma das quais apresentando a data de 1942.

 

Quatro desses motivos existentes no MNA encontram-se também a ilustrar o anúncio de 1959 reproduzido acima. Contudo, nenhuma dessas 152 lambrilhas é igual às sete que aqui se apresentam.

 

 

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Maio 21 2011

 

Painel de dois azulejos reproduzindo um desenho original, intitulado Sereia, de Maria Keil (n. 1914).

 

Produzido pela Fábrica Cerâmica Viúva Lamego, numa edição de 5.000 exemplares, este díptico foi lançado no âmbito da série Os Azulejos e os Oceanos, uma colecção de diversos azulejos de autor promovida pelo Banco Nacional Ultramarino e a Caixa Geral de Depósitos, no ano da Expo' 98, exposição mundial que decorreu em Lisboa e foi consagrada à temática dos oceanos.

 

Para além de Maria Keil, esta série apresenta ainda azulejos reproduzindo desenhos de Luis Camacho (datas desconhecidas), Querubim Lapa (n. 1925), Sara Maia (n. 1974), João Abel Manta (n. 1928), Eduardo Nery (n. 1938), Júlio Pomar (n. 1926), Pedro Proença (n. 1962), Paula Rego (n. 1935), Júlio Resende (n. 1917), Bela Silva (n. 1966), Álvaro Siza Vieira (n. 1933), Ana Vilela (n. 1961) e João Vilhena (datas desconhecidas).

 

 

O folheto que acompanha cada azulejo refere: "Os azulejos são em chacota de lastra e na dimensão de 14 x 14 cm, características que mais os identificam com a azulejaria tradicional portuguesa."

 

De facto, este exemplar é o único díptico da colecção, que apresenta também uma placa azulejar de maiores dimensões do que as indicadas – a de Paula Rego. Estes dois exemplares foram comercializados a 12.000$00 e os restantes a 8.000$00. 

 

A fábrica Viúva Lamego, fundada em 1849 no Largo do Intendente, em Lisboa (cf. http://mfls.blogs.sapo.pt/100393.html), foi entretanto adquirida pela empresa Aleluia (http://www.aleluia.pt/).

 

Entre outros trabalhos notáveis na área da cerâmica, que também incluem colaboração com a Vista Alegre, Maria Keil foi a artista responsável pela decoração azulejar das primeiras estações do metropolitano de Lisboa, podendo algumas das suas criações ser vistas aqui: http://www.metrolisboa.pt/Default.aspx?tabid=72.

 

 

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