Memórias e Arquivos da Fábrica de Loiça de Sacavém

Abril 16 2017

 

Jarra em terracota, com cerca de 21,3 cm. de altura, produzida na Cerâmica Macedo, Barcelos.

 

A decoração floral de inspiração Art Déco foi aplicada a aerógrafo sobre stencil (neste caso, cartão ou chapa recortada) para o amarelo, azul, verde e vermelho, e aplicada livremente para o preto e o fundo beige.

 

Sendo louça com fins decorativos, mas também utilitários, a interessante e extensa produção da Cerâmica Macedo sobreviveu em ínfimas quantidades até aos dias de hoje e, como se verifica neste e na maioria desses reduzidos exemplares, em condições de grande deterioração da pintura.

 

Este problema técnico, que afectou também as grandes fábricas de faiança produtoras de decoração sobre o vidrado, como a FLS, acentuava-se na decoração sobre terracota.

 

Embora a Cerâmica Macedo submetesse as suas peças a um banho impermeabilizante antes de aplicar as tintas, o processo de escamagem acentuava-se na terracota com a passagem do tempo, mesmo sem que as jarras recebessem água no seu interior.

 

 

De acordo com Adélio Macedo Correia (n. 1943), a Fábrica de Cerâmica Joaquim Macedo Correia foi fundada em 1893, em Areias de S. Vicente, embora Joaquim Macedo Correia (1871-1948) provavelmente já viesse a produzir cerâmica desde o início dessa década.

 

Exportando, na década de 1920, para todo o país, incluindo Madeira, e Espanha, a fábrica veio a denominar-se Cerâmica Macedo entre 1930 e 1949, difícil período, que se seguiu ao crash bolsista de 1929 e foi afectado quer pela Guerra Civil de Espanha (1936-1939) quer pela II Guerra Mundial (1939-1945), em que a administração passou a ser exercida pelo filho do fundador, o modelador e escultor cerâmico João Macedo Correia (1908-1987).

 

Apesar daquelas adversidades, datam deste período as inovações técnicas na decoração, nomeadamente a utilização do aerógrafo e do stencil, a adopção da gramática Art Déco e ainda a abertura de uma loja na Póvoa de Varzim, em 1935. 

 

Como já foi referido, a Cerâmica Macedo encerrou as suas últimas instalações, no Campo de S. José, Barcelos, em 1950. A loja da Póvoa de Varzim acabou por fechar em 1951.

 

João Macedo Correia, que entretanto, entre 1945 e 1947, dera muito de si e da sua experiência para implementar o projecto e evitar o malogro da efémera Fábrica de Loiça de Viana, ainda continuou em Barcelos a sua produção, de forma artesanal, durante as duas décadas seguintes.

 

 

© MAFLS


Agosto 27 2016

 

Quadrinho em terracota pintada, com cerca de 12,4 x 12,4 cm. e 1,4 cm. de altura de rebordo, produzido na fábrica Cerâmica Macedo, de Barcelos.

 

Ilustrando um movimento da dança popular denominada Rosa Branca, este motivo insere-se numa representação folclórica que, retomando e adaptando as representações de motivos e costumes nacionais e regionais exaltados pelos românticos desde início do século XIX, se iniciou em Portugal na década de 1920 e teve o seu apogeu entre as décadas de 1930 e 1960.

 

Esta representação tem vindo a ser pontualmente referida neste espaço (http://mfls.blogs.sapo.pt/tag/folclore) e também MUONT (http://modernaumaoutranemtanto.blogspot.pt/2016/07/jarra-e-azulejo-o-vira-marinha-grande-e.html) a abordou recentemente.

 

É, aliás, a propósito daquela recente publicação que aqui se volta ao assunto, para divulgar o nome de mais uma designer que seguiu esta tendência na Cerâmica Macedo, fábrica barcelense que operou entre 1930 e 1949, nas instalações de Areias, e ainda em Campo de S. José, tendo estas últimas encerrado em 1950.  

 

Segundo Adélio Macedo Correia, filho do ceramista João Macedo Correia (1908-1987) e autor do estudo Cerâmica Macedo, Barcelos, depois de encerrar aqueles espaços seu pai manteve ainda um pequeno estúdio, anexo a sua casa, até meados da década de 1970.

 

Ainda de acordo com Adélio Macedo Correia, foi aí, já na década de 1950, que seu pai começou a produzir, entre outras peças, estes quadrinhos, cujos cerca de trinta diferentes motivos se devem a uma estudante de pintura da Escola Superior de Belas Artes do Porto, conhecida apenas pelo nome de Maria Inês.

 

Voltaremos a abordar a injustamente esquecida produção da Cerâmica Macedo, a qual chegou a estar representada na Exposição do Mundo Português, em 1940, e teve a sua memória recuperada por ocasião da exposição A Cerâmica Portuguesa no Período Art Déco, realizada em 2005, nos EUA, onde se exibiu uma pequena jarra que será aqui posteriormente reproduzida.

 

 

© MAFLS


Agosto 31 2014

 

Pequena placa, com cerca de 6,4 x 2,7 cm., em argila vermelha brunida, de homenagem a Rafael Bordalo Pinheiro (1846-1905).

 

Modelada pelo seu discípulo Francisco Elias (1869-1937), como se verifica pela assinatura inscrita sob o busto, apesar de a data do sarau ser de 22 de Abril de 1906, esta parece ter sido uma peça evocativa dos 60 anos de nascimento de Rafael Bordalo Pinheiro, efeméride que decorrera a 21 de Março de 1906.

 

Para outras breves referências a Francisco Elias veja-se: http://mfls.blogs.sapo.pt/tag/francisco+elias.

 

 

© MAFLS


Setembro 15 2013

     

 

Figura moldada em terracota patinada, com cerca de 25,7 cm. de altura, apresentando uma réplica da célebre escultura clássica denominada Vénus de Milo, produzida pela fábrica Moderna Industrial Decorativa, de Coimbra.

 

Esculpida originalmente em mármore, cerca de 130-100 A.C., esta figura hoje incompleta, com cerca de 203 cm. de altura, é atribuída a Alexandros de Antioquia (datas desconhecidas) e integra o acervo do Museu do Louvre, em Paris (http://www.louvre.fr/accueil).

 

Imagem extremamente popular ao longo dos últimos dois séculos, paradigma da arte clássica greco-latina e termo de comparação para os novos paradigmas modernistas do século XX – "O binómio de Newton é tão belo como a Vénus de Milo", afirmou Fernando Pessoa (1888-1935; http://arquivopessoa.net/textos/224), esta escultura tem sido reproduzida em diversos formatos e diferentes materiais.

 

Como exemplo dessa produção diversificada, apresenta-se abaixo um pequeno sinete, com cerca de 7 cm. de altura, em vidro moldado, possivelmente também de manufactura portuguesa, embora se conheça uma outra peça similar que ostenta uma etiqueta, em papel metalizado, da antiga Checoslováquia.

 

          


No final deste artigo pode ver-se a etiqueta que acompanha a figura em terracota, MID 2, que nos permite já começar a ensaiar uma sistematização da cronologia e das marcas desta fábrica.

 

Ao contrário do que acontece com as peças da primeira fase (http://mfls.blogs.sapo.pt/154589.html), talvez porque a patine também se estende à base, contribuindo assim para uma eventual obliteração ou ilegibilidade das marcas na pasta, parece que a produção posterior desta fábrica tende a apresentar exclusivamente uma etiqueta identificativa da sua origem, sem qualquer marca impressa ou incisa na pasta.

 

Esta opção, como é óbvio, prejudica uma posterior e precisa identificação das peças oriundas da Moderna Industrial Decorativa, pois, ao contrário das marcas impressas ou incisas, a maioria das etiquetas dificilmente sobrevive à passagem do tempo.

 

A propósito de mais esta peça da MID, aproveita-se a oportunidade para reproduzir abaixo uma fotografia datável da década de 1940 (também já publicada por Maria Andrade no seu espaço: http://artelivrosevelharias.blogspot.pt/2012/05/moderna-industrial-decorativa-de.html) onde surgem retratados os trabalhadores desta unidade cerâmica coimbrã.

 

© Ana Maria Caetano

 

Cedida por Ana Maria Caetano (veja-se um blog de sua autoria aqui: http://rdqntnadaquefazer.blogspot.pt/), a quem se agradece a amabilidade, esta fotografia apresenta ao centro, na última fila, envergando uma bata branca, seu avô Francisco Caetano Ferreira (1908-1987), um dos fundadores da empresa e seu responsável artístico, cargo que provavelmente desenvolveria em conjunto com o desenhador Carlos dos Reis (datas desconhecidas).

 

Francisco Caetano Ferreira modelou diversas peças cerâmicas, dentro e fora da MID, colaborando posteriormente, segundo declarações desta sua neta, com a Companhia da Fábricas Cerâmica Lusitânia, quer na unidade de Coimbra quer na unidade do Porto.

 

É possível, pois, que algumas das peças escultóricas da Lusitânia de Coimbra sejam de sua autoria, havendo também notícia de que modelou um presépio produzido pela MID e exibido, no início da década de 1950, no posto de turismo do Largo da Portagem, em Coimbra.

 

Finalmente, sublinhe-se como é curioso o facto de esta peça ser da MID, quando o logótipo da fábrica A Nova Decorativa, também de Coimbra, é que ostenta o busto da Vénus de Milo (http://mfls.blogs.sapo.pt/tag/f%C3%A1brica+a+nova+decorativa).

 

Não se conhecendo dados sobre a fundação ou encerramento de A Nova Decorativa, nem dados sobre a data de encerramento da Moderna Industrial Decorativa, esta coincidência faz-nos reflectir sobre a hipótese de estas duas fábricas estarem de algum modo relacionadas, eventualmente através de alguns sócios da MID que tenham vindo a fundar a AND, ou mesmo sobre o facto de a AND ter sucedido à MID.

 

     

MID 1                                               MID 2

 

© MAFLS


Agosto 10 2013

 

Medalha em terracota relevada, com cerca de 5,7 x 3,8 x 0,8 cm., ostentando o antigo brasão de Reguengos de Monsaraz no anverso e a legenda REGUENGOS / 15 / DE AGOSTO DE / 1922 no reverso. 

 

Recuperada com outro formato durante as duas últimas décadas, a concorrida feira de Agosto, em Reguengos de Monsaraz (http://www.cm-reguengos-monsaraz.pt/pt), ecoa uma tradição com muitas mais décadas no concelho e na região do Alto Alentejo.

 

É possível que esta medalha, cuja gramática formal, muito característica das últimas décadas do século XIX e das primeiras do século XX, também se encontra noutras regiões portuguesas, como as Caldas da Rainha (http://mfls.blogs.sapo.pt/125187.html) e Estremoz, tenha sido produzida numa olaria da região de Reguengos de Monsaraz.

 

Contudo, da Olaria Alfacinha, em Estremoz, cujas origens remontam ao século XIX, conhecem-se algumas medalhas semelhantes – uma datada de 1933 e alusiva às Festas de Estremoz, outra datada de 26 de Setembro de 1970 e alusiva à inauguração da Pousada de Santa Isabel.

 

De acordo com o já citado opúsculo Cerâmica Portuguesa (1931), a Olaria Alfacinha terá sido fundada em 1881. Permaneceu na posse da família até 1987, acabando por encerrar em 1995 (cf. http://museuestremoz.wikia.com/wiki/Fam%C3%ADlia_Alfacinha).

 

Assim, esta medalha alusiva a Reguengos de Monsaraz poderia também ter sido produzida nessa olaria embora, ao contrário desta, as duas medalhas anteriormente referidas apresentem no anverso a alusão ao evento e no reverso apenas a marca Olaria Alfacinha.

 

 

© MAFLS


Maio 18 2013

 

Figura de lavradeira minhota, em terracota pintada, apresentando a inscrição "Lembrança de Viana do Castelo" na base. Com cerca de 12,8 cm. de altura esta peça não ostenta qualquer marca.

 

Ao contrário do que acontece com peças das áreas de Alcobaça e Coimbra, esta apresenta-se modelada em barro vermelho, sendo possivelmente originária da região de Barcelos.

 

Estas figuras com trajos regionais eram extremamente populares durante o terceiro quartel do século XX e surgiam com frequência não só em lojas de recordações como em algumas feiras.

 

© MAFLS


Maio 04 2013

 

Caixa em terracota, com cerca de 5,1 cm. de altura e 12,6 cm. de diâmetro, decorada em relevo com putti ostentando instrumentos musicais.

 

Esta peça não apresenta qualquer marca, mas a faixa e a filetagem pintadas sobre a argila vermelha remetem claramente para as peças de terracota comercializadas em feiras e lojas portuguesas durante o terceiro quartel do século XX.

 

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publicado por blogdaruanove às 21:01

Fevereiro 23 2013

 

Jarra cilíndrica em terracota patinada a verde.

 

Ostenta uma representação de Jesus Cristo e outra, aqui ilustrada, de S. Pedro. Esta peça encontra-se assinada na base, de forma pouco legível, "A... (?) Cândido  (?)".

 

 

© MAFLS


Setembro 22 2012

 

Pequena estatueta em terracota, com cerca de 22,8 cm. de altura, representando uma figura em trajos regionais.

 

Pintada a verde, com retoques de purpurina, esta peça não apresenta qualquer marca a não ser vestígios de uma etiqueta de papel. Note-se como a pintura original está a escamar, visto ter sido aplicada sobre uma superfície não vidrada sem qualquer cozedura posterior.

 

Note-se ainda o tratamento estilizado do vestuário, muito ao gosto Art Déco, acentuado pela sobredimensão do laço que aperta o avental.

 

© MAFLS


Junho 24 2012

          

 

Estatueta em terracota pintada representando Santo Onofre (século IV). Não ostenta qualquer marca visível, sendo datável da primeira metade do século XX.

 

Note-se como esta representação iconográfica apresenta muitas semelhanças com a representação de S. João Baptista, santo a que o dia de hoje é consagrado. Em Portugal há mais de trinta concelhos que declararam este dia como feriado municipal, sendo particularmente afamadas as tradicionais celebrações joaninas realizadas nas cidades de Braga e do Porto, celebrações que têm também forte tradição durante as festas Juninas realizadas no Brasil.

 

A celebração litúrgica de Santo Onofre decorre a 12 de Junho, data que sublinha ainda mais a sua ligação simbólica e sincrética a S. João Baptista e às festividades do solstício de Verão.

 

Duas taças em vidro decorado a esmalte policromado, alusivas ao S. João de Braga, datáveis da década de 1940 ou 1950.

Provável fabrico da Nova Fábrica de Vidros, Marinha Grande.

 

Entre outras, as representações iconográficas de S. Jerónimo, S. João Baptista e Santo Onofre enquanto anacoretas remetem para o conceito medieval do homem selvagem, que surgia também no teatro vicentino como S. João Verde e ainda hoje está associado a uma imagem de produtos alimentares (http://www.greengiantfresh.com/index.asp).

 

Por outro lado, embora S. Brás seja o tradicional patrono invocado contra os males associados à garganta, existe uma marca que, curiosamente, adoptou o nome de Santo Onofre para os seus rebuçados peitorais (http://santoonofre.com/v2/principal.html).

 

Embora Santo Onofre surja tradicionalmente como patrono dos tecelões e daqueles que sofrem de embriaguez crónica, em Portugal é habitualmente considerado um patrono da prosperidade financeira.

 

Abaixo pode ver-se uma outra representação de Santo Onofre, esculpida em madeira e com olhos de vidro incrustados, também datável da primeira metade do século XX.

 

          

 

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