Memórias e Arquivos da Fábrica de Loiça de Sacavém

Janeiro 05 2017

 

Pequena jarra, com cerca de 13,8 cm. de altura, em pasta feldspática.

 

Embora não apresente qualquer marca ou assinatura, quer o motivo quer a técnica decorativa desta peça remetem para o trabalho do consagrado Amalric Walter (1870-1959), que se celebrizou como ceramista, mas também, e principalmente, como escultor e mestre vidreiro na arte da pâte-de-verre (http://www.amalric-walter.net/).

 

O carácter distintivo desta jarra reside na sua pasta. Como se pode verificar na imagem, esta apresentava várias impurezas que, após cozedura, surgiram à superfície. Como é também evidente, a superficie não apresenta o craquelé característico do envelhecimento de vidrado da pasta de faiança, pasta habitualmente associada à produção de Walter na década de 1920.

 

Assim, caso esta peça tenha sido criada por Walter, como é muito provável, poder-se-á especular que estaremos perante uma obra de final da década de 1890 ou princípios da década seguinte, quando o artista, após ter colaborado com a Manufacture de Sèvres, que abandonou para cumprir o serviço militar, manteve um atelier cerâmico independente nesta localidade.

 

Depois de estabelecer um outro atelier de cerâmica e vidro em Paris, Walter passou a colaborar com a célebre fábrica de vidro dos irmãos Daum entre 1903 e 1914.

 

Aliás, como já tivemos oportunidade de verificar aqui (http://mfls.blogs.sapo.pt/51916.html), os motivos em que as árvores e a vegetação se enquadram numa paisagem lacustre, ou fluvial, de inspiração simbolista, surgiram também com frequência na produção da fábrica Daum daquelas décadas.

 

 

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Janeiro 04 2017

 

Pequena jarra em faiança, com cerca de 12,6 cm. de altura e 13,4 de diâmetro máximo, apresentando decoração floral Art Déco pintada manualmente sob o vidrado e craquelé induzido.

 

Este exemplar apresenta as iniciais correspondentes a Jules Tiélès (datas desconhecidas) sobre quem quase nada se sabe, ignorando-se mesmo se se trata um mero retalhista ou de um industrial ou artista cerâmico.

 

Existem peças assinadas com as iniciais JT, e o P dentro do triângulo, produzidas também em porcelana, ostentando algumas delas a marca complementar de Sèvres, embora não se saiba se esta última foi aplicada abusivamente ou se Tiélès adquiria peças de Sèvres que depois decorava ou comercializava.

 

O período de produção para as peças conhecidas parece corresponder ao final do século XIX e às primeiras três ou quatro décadas do século XX.

 

Esta técnica de decoração e pintura sob o vidrado foi também adoptada durante um curto período pela fábrica belga Boch Frères / Keramis, embora tenha sido abandonada devido à falta de homogeneidade cromática, nalgumas cores, que resultava num degradé muito irregular e esteticamente pouco apelativo.

 

No entanto, ao contrário desta, a decoração da Boch Frères / Keramis apresentava geralmente uma prévia estampagem dos motivos para estabelecer os contornos que depois seriam preenchidos com pintura manual: http://blogdaruaonze.blogs.sapo.pt/258654.html.

 

 

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Janeiro 03 2017

 

Duas jarras produzidas, muito provavelmente, na Faïencerie de Thulin (1863-1971), fábrica situada na Bélgica, medindo a peça de cima cerca de 23, 8 cm. de altura e a de baixo cerca de 17 cm.

 

Nas suas combinações cromáticas, diversas peças de Thulin apresentam vidrado escorrido semelhante àquele que surge em alguns dos vidrados comercializados também pela fábrica francesa De Bruyn, Fives, Lille.

 

 

O escorrido patente na primeira jarra é exemplo dessa semelhança de vidrado, apresentando uma rica multiplicidade cromática que resulta de diferentes camadas aplicadas sobre o fundo sang-de-boeuf.

 

Esta é uma tonalidade muito característica da influência oriental sobre a cerâmica do final do período victoriano, em Inglaterra, particularmente na produção Arts & Crafts, e do período Art Nouveau.

 

A primeira marca reproduzida abaixo, à esquerda, corresponde a esse exemplar.

 

 

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Janeiro 02 2017

 

Duas jarras em faiança de Sarreguemines, com cerca de 25,6 cm. de altura, apresentando o mesmo formato mas ostentando diferentes motivos florais, de inspiração Art Déco, e diferentes técnicas decorativas.

 

A primeira surge ilustrada na estampa número 45 de um catálogo, datável da década de 1920, das Fayenceries de Sarreguemines, Digoin et Vitry-le-François.

 

Aqui se indica que este formato corresponde ao número 5203 da produção da empresa e a decoração, como também se pode verificar na marca reproduzida abaixo, ao motivo número 2329.

 

Curiosamente, combinam-se neste exemplar duas técnicas decorativas – no corpo, secções com um fundo craquelé artificial, estampado, alternando com secções apresentando motivos florais estilizados, aplicados sobre o vidrado. No bocal, pintura a esmalte num tom esverdeado que replica a tonalidade patente nos motivos vegetais.

 

 

 

A segunda jarra, apresentando também a mesma organização em secções verticais mas decorada exclusivamente em tons de azul, ostenta já motivos florais estilizados executados através de pintura manual.

 

O vidrado que serve de fundo à decoração, estilizada mas mais tradicional e classicizante que a anterior, é de um azul semi-mate homogéneo.

 

Este exemplar poderá não ser de produção anterior à do modelo 2329 mas, devido à sua técnica decorativa menos industrializada, surgirá certamente com menor frequência nos museus e lojas de antiguidades.

 

Segundo algumas publicações da especialidade, esta última marca, que integra ainda as iniciais de Utzschneider & Cie., remetendo para o patriarca da família e para a memória da empresa no princípio do século XIX, foi aplicada entre 1920 e 1950.

     

 

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Janeiro 01 2017

 

 

Três peças em diferentes pastas, e com diferentes técnicas decorativas, da bicentenária fábrica dinamarquesa Den Kongelige Porcelaensfabrik, posteriormente conhecida a nível internacional como Royal Copenhagen.

 

Em cima, um pote com tampa produzido já no período do pós-guerra, em 1949 (a letra acentuada é o N, em cima, embora o/a decorador/a tenha colocado também um pequeno ponto sob a mesma para desfazer qualquer dúvida sobre a sua eventual ilegibilidade), mas apresentando ainda certas características ao gosto Art Déco.

 

Medindo cerca de 24,2 cm. de altura, ostenta decoração estampada e pintada à mão sobre o vidrado, com um esquilo, ramos, folhas e frutos de avelaneira, complementada com retoques e filetagem a ouro.

 

Sendo uma peça em porcelana, apresenta um craquelé artificialmente induzido, processo muito comum em algumas decorações do período Art Déco, nomeadamente nas cerâmicas da fábrica belga Boch Frères / Keramis (http://mfls.blogs.sapo.pt/tag/boch+fr%C3%A8res) e da francesa Longwy (http://mfls.blogs.sapo.pt/tag/longwy), embora tal seja uma característica específica do envelhecimento natural das peças em faiança.

 

 

Pequeno prato de porcelana em monocromia azul, com cerca de 18,2 cm. de diâmetro, comemorativo dos duzentos anos de fundação da empresa.

 

Recorreu-se aqui à técnica da moldagem do motivo em baixo relevo, o que concede maior profundidade e sentido escultórico à decoração, através das tonalidades mais escuras que predominam nas depressões desse relevo.

 

Curiosamente, comemorando embora uma efeméride de 1975, este exemplar apresenta uma marca correspondente ao período de 1969 a 1973 (https://www.royalcopenhagen.com/ourpassion/marks).

 

 

Placa em biscuit, ou parian ware, com cerca de 12 x 34 x 1,2 cm, reproduzindo uma obra do consagrado escultor dinamarquês Bertel Thorvaldsen (1770-1844), intitulada As Idades do Amor.

 

O original, com cerca de 40 x 123,5 cm., havia sido esculpido em Roma no ano de 1824. Foi posteriormente adaptado por Chr. Christensen (datas desconhecidas) em 1841, ainda durante a vida de Thorvaldsen e já depois do seu regresso definitivo à Dinamarca, para a reprodução em porcelana.

 

O exemplar que aqui se reproduz terá sido fabricado no terceiro quartel do século XIX.

         

  

 

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Dezembro 31 2016

Mostruário ilustrando a palete de cores serigrafadas a alto-fogo disponível para os serviços de mesa e hotelaria da Rosenthal nas décadas de 1980 e 1990.

 

A Rosenthal, que já tinha dedicado desde finais do século XIX particular atenção aos motivos e às formas contemporâneas, quer através de peças decorativas quer através de peças funcionais, estas últimas exemplificadas no formato Donatello (http://mfls.blogs.sapo.pt/outras-fabricas-outras-loicas-cclxii-349762), veio a afirmar-se ao longo do século XX como uma das principais fábricas de porcelana focadas na contemporaneidade e na proposta de formas e decorações inovadoras e de vanguarda.

 

Assim, iniciou o século, e o seu primeiro quartel, com uma produção, em particular a proveniente da sua secção de arte (kunstabteilung), que traduzia perfeitamente o zeitgeist, e encerrou-o, no seu último quartel, com as múltiplas propostas de diferentes formas e decorações congradas nas suas peças studio-linie.

 

Este artigo pretende ilustrar, pois, algumas das peças que traduzem a notável produção da Rosenthal quer no início do século XX quer no seu final.

 

 

Acima reproduz-se uma pequena caixa em porcelana, com cerca de 4,6 x 13 x 10 cm., apresentando sumptuosa decoração da série Indra, correspondente ao motivo 35, aqui aplicada sobre o formato número K597.

 

As séries Asra e Indra, ostentando uma peculiar estética Art Déco inquestionavelmente relacionada com os feéricos décors criados por Léon Bakst (1866-1924), e outros artistas, para os famosos Ballets Russes, foram concebidas pelo consagrado Kurt Wendler (1893-1980) e lançadas em 1919, na Feira da Primavera de Leipzig.

 

O desenho original para o motivo 35, neste mesmo formato, pode ver-se abaixo.

 

 

De seguida, apresenta-se uma jarra, com cerca de 16,8 cm. de altura, ostentando decoração floral, algo estilizada, ao gosto Art Déco.

 

A impressão de tridimensionalidade que emana desta decoração deve-se mais à técnica pictórica aplicada sob o vidrado, que parece sublinhar a pintura manual com alguns leves traços de aerógrafo, do que ao subtil relevo patente na pasta de porcelana.

 

Apesar de não ostentar a marca complementar correspondente aos anos de guerra,1914-1918, esta jarra apresenta a grafia "Kunst Abteilung" aplicada nas peças de 1918, o que, contrastando com a erupção cromática surgida em 1919 nas séries Asra e Indra, poderá explicar as tonalidades sóbrias e sombrias da sua decoração.

 

 

A mesma tendência para concentrar a decoração na base da jarra pode ser encontrada ainda num motivo datável de 1925, também de inspiração floral, embora mais estilizado e policromático – o D946, da fábrica belga Boch Frères / Keramis (http://mfls.blogs.sapo.pt/tag/boch+fr%C3%A8res) e numa peça muito posterior da própria Rosenthal, já de final da década de 1960, com um motivo concebido pelo artista plástico francês Alain Le Foll (1935-1981).

 

Conforme referido, o último quartel do século XX foi marcado pela produção das peças studio-linie, que veio ocupar parte do espaço anteriormente abrangido pela secção de arte (kunstabteilung). Estas peças foram criadas e decoradas por inúmeros designers consagrados, oriundos não apenas das predominantes escolas escandinava e italiana, mas também das escolas alemã, americana, francesa e neerlandesa, entre outras.

 

 

Embora a Rosenthal tenha comercializado várias peças no âmbito da influência escandinava e de algumas das suas figuras de proa, como Bjørn Wiinblad (1918-2006), Tapio Wirkkala (1915-1985) ou Timo Sarpaneva (1926-2006), a verdade é que na sua produção do último quartel do século XX se registou certa predominância de alguns nomes da escola italiana.

 

Nesse contexto, pode ver-se acima um castiçal intitulado Il Faro Torre "Pilsum", em edição numerada e limitada a 2.000 exemplares, concebido em 1994 por Aldo Rossi (1931-1997).

 

Esta peça foi concebida em cerâmica e cristal, servindo o corpo cerâmico como base para o copo de cristal do castiçal que, para receber a vela, deve ser invertido e novamente encaixado no corpo cerâmico.

 

 

Nas últimas décadas do século, contudo, um dos ícones da Rosenthal foi o conjunto de pires e chávena de café intitulado Espresso-Sammeltasse (comercializado no mundo anglófono como "Cupola Espresso Collector's Cups") modelado nos finais da década de 1980 pelo arquitecto e designer italiano Mario Bellini (n. 1935), formato que, no decurso dos anos seguintes, veio a ser decorado por dezenas de diferentes artistas.

 

Acima pode ver-se um desses exemplares, com uma decoração minimalista, de grande efeito, da autoria do também aclamado arquitecto e designer italiano Marcello Morandini (n. 1940; cf. http://www.morandinimarcello.com/it/home/).

 

Correspondendo ao número 12 da série Espresso-Sammeltasse, este exemplar apresenta ainda, no pires, o logótipo da Mostra Internacional de Design, MID 1991, promovida em Portugal pelo grupo empresarial Dimensão.

 

 

Mas na área da aproximação artística à criação de chávenas e pires, a Rosenthal atingiu a sua maior versatilidade e consagração na série Künstlertasse (denominada em Inglês como "Artists' Collector's Cups"), que apresentou dezenas de diferentes formatos concebidos e decorados por distintos artistas.

 

Apresenta-se acima um desses notáveis formatos, concebido pelo renomado designer, também italiano, Lino Sabattini (1925-2016), que, entre outros epítetos, aceitava ser conhecido como um "artesão sonhador" (http://linosabattini.com/).

 

Corresponde este conjunto à peça número 17 da série Künstlertasse.

 

 

 

De seguida, apresenta-se um açucareiro da linha Flash, concebida em 1982 por Dorothy Hafner (n. 1952; http://www.dorothyhafner.com) e comercializada a partir de 1984.

 

Característica do período pós-modernista no seu auge, esta linha traduz plenamente essa gramática, quer no formato quer na decoração, e representa talvez a mais famosa das criações desta designer americana.

 

Dorothy Hafner concebeu também a peça número 5, decorada apenas a preto e branco, da série Künstlertasse.

 

 

Finalmente, reproduzem-se um jarra, com cerca de 25,7 cm. de altura, e uma peculiar taça, com cerca de 11 x 20,4 e 12,2 de diâmetro máximo, apresentando formatos e motivos criados pelo consagrado artista e ceramista francês Gilbert Portanier (n. 1926; cf. http://www.gilbertportanier.com/.).

 

A decoração da jarra denomina-se Liguria, correspondendo a taça à peça número 15 da série Künstlertasse.

 

 

A encerrar, apresenta-se abaixo um registo diacrónico de marcas Rosenthal patentes em algumas das peças que se reproduzem neste artigo.

 

 

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Dezembro 30 2016

 

Jarra em grés, com cerca de 24,8 cm. de altura, produzida pela fábrica francesa Rambervillers.

 

Este modelo surgiu pela primeira vez no catálogo de 1920 e, com excepção do azul metalizado característico da empresa, apresenta tonalidades esverdeadas similares a algumas das que surgem, na mesma época, nos vidrados escorridos da fábrica americana Fulper (http://mfls.blogs.sapo.pt/the-twelve-days-of-christmas-ii-339668).

 

Também os elementos verticais, que ora evocam uma estranha estilização vegetal truncada ora adornos metálicos repuxados ao gosto Arts & Crafts, surgem de forma similar, mas desenvolvendo-se a partir da base, em alguns formatos daquela empresa americana.

 

 

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Dezembro 29 2016

 

Pequena jarra em grés, com cerca de 11 cm. de altura, da fábrica francesa La Faïencerie Héraldique, localizada em Pierrefonds.

 

A combinação de um corpo de linhas curvas, naturalmente sugestivas da modelação artesanal (embora este exemplar tenha sido moldado), com remates angulosos remete para a execução de peças em metal e para um certa ideia característica da prática Arts & Crafts.

 

Tal prática surge também, pontualmente, na produção de outras empresas, como a francesa Denbac (http://blogdaruaonze.blogs.sapo.pt/118998.html).

 

 

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Dezembro 28 2016

 

Em cima, uma pantera em faiança, com cerca de 12,8 x 32,5 x 8 cm., ostentando na base os números 10, impresso, 5 e 21, incisos manualmente, e a marca francesa ODYV.

 

Depois, um esquilo também em faiança, com cerca de 14,2 x 22,6 x 9 cm., que, embora apenas ostente na base os números 15, impresso, e 17, inciso manualmente, sem qualquer outra marca visível, foi obviamente produzido na mesma empresa.

 

Em seguida, um bode em faiança, com cerca de 15,6 x 27,7 x 8,9 cm., que também apenas ostenta na base os números 14, impresso, e 45, inciso manualmente, sem qualquer outra marca visível, mas é indubitavelmente da mesma proveniência.

 

Por último, um cervídeo em faiança, com cerca de 22,5 x 39 x 12,7 cm., ostentando na base os números 1, impresso, e 16 e 5, incisos manualmente, e também a marca ODYV.

 

Conhecem-se diversas outras esculturas de animais produzidas pela ODYV, constituindo estas um bestiário bastante diversificado que inclui galgos, gazelas, leoas, leopardos, tigres, que ora surgem em representações singulares ora em representações colectivas, ora, ainda, em conjuntos para relógios de lareira.

 

 

Para além das que apresentam vidrado brilhante preto, como o que surge em três destas peças, e que tem tendência a estalar com a passagem do tempo, formando um craquelé algo frágil que contrasta com o sólido vidrado das figuras, e vidrado baunilha semi-mate, como o que surge na última, conhecem-se ainda bases com vidrado matizado, a imitar padrões e tonalidades de pedras ornamentais, e bases beiges que servem de apoio a esculturas com vidrado monocromático também castanho, ou de outras tonalidades escuras.

 

O corpo principal das peças, a escultura animal em si, apresenta quer vidrado acetinado semi-mate, como o de este esquilo e do cervídeo, quer vidrado mate com acabamento ligeiramente microcristalino e rugoso, como o da pantera e do bode, surgindo em diversas cores e tonalidades. Nos conjuntos para relógio, para além de poderem surgir decorados a platina ou ouro, os animais são por vezes acompanhados de figuras femininas.

 

Nos conjuntos escultóricos monobloco, que não têm a base aparafusada ao corpo principal, como acontece com os quatro exemplares aqui ilustrados, conhece-se ainda um acabamento vidrado com gotículas em relevo, característico de algumas jarras ODYV produzidas na década de 1930, e também da fábrica checoslovaca Amphora (http://blogdaruaonze.blogs.sapo.pt/161780.html), cujo apelo técnico e estético nas figuras animais é muito questionável.

 

Durante várias décadas adensaram-se as dúvidas quanto às origens e à existência de documentação relativa a esta hipotética empresa, e ainda no final do século XX obras de referência como La Céramique Art Déco (1988), Craquelés – Les Animaux en Céramique, 1920-1940 (1993), ou Art Deco and Modernist Ceramics (1995) a ignoravam ou exprimiam dúvidas sobre a sua identificação.

 

 

Já no princípio do século XXI, com a maior circulação de dados na internet e o inerente aumento de fontes webliográficas e iconográficas, foi possível começar a encontrarem-se imagens de peças marcadas ODYV com etiquetas na base apresentando a indicação manuscrita Berlot-Mussier associada ao preço.

 

Finalmente, em 2007, uma obra intitulada Le Temps d'ODYV: 1927-1940, dedicada em particular aos relógios em faiança comercializados sob essa marca, os quais integravam habitualmente conjuntos de três peças denominados garniture de cheminée (vejam-se alguns desses exemplares aqui: http://www.clockarium.com/musee/index.htm.), veio divulgar informações relevantes sobre a empresa.

 

Assim, ficou a saber-se que a Manufacture Berlot-Mussier, fundada em 1927 e activa até cerca de 1975, sedeada em Vierzon e inicialmente denominada Faïencerie du Tunnel – uma das suas marcas representa precisamente uma locomotiva a sair do túnel urbano de Vierzon, produziu, pelo menos entre 1927 e 1940, uma série de peças que ostentavam a designação comercial ODYV.

 

Curiosamente, também esta designação, a exemplo do que acontecia com outra notável empresa da mesma localidade, a Denbac (http://mfls.blogs.sapo.pt/tag/denbac), deve a sua existência à contracção de dois nomes, desta vez próprios – Odette, filha de Mussier, e Yvonne, irmã de Berlot. 

 

 

Cruzando os exíguos dados conhecidos sobre a Berlot-Mussier, patentes nas obras citadas e noutras fontes, foi possível apurar que um dos escultores que colaborou com a empresa foi Gustave Gillot (1888-1965), nomeadamente através da modelação de uma raposa monobloco que evoca a fábula de Esopo (c. 620 a.C.- 564 a.C.) posteriormente recuperada e celebrizada pela versão de La Fontaine (1621-1695).

 

Também o conceituado escultor e modelador cerâmico Charles Lemanceau (1905-1980), que executou peças para as marcas La Maîtrise, Nouvelles Galeries, Primavera, Robj, e para as fábricas Foecy, Sainte-Radegonde, Saint-Clément, concebeu algumas criações para a Berlot-Mussier, pelo que provavelmente algumas das esculturas de animais marcadas ODYV serão de sua autoria.

 

Mais, foi ainda possível apurar que a esposa de Lemanceau se chamava Odette, embora não se tenha conseguido saber se nos encontramos apenas perante uma coincidência de nome próprio ou perante Odette Mussier.

 

De qualquer modo, estes quatro exemplares demonstram inequivocamente a elevada qualidade composicional, estética e escultórica de algumas das figuras animais comercializadas pela ODYV dentro da gramática Art Déco.

 

 

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Dezembro 27 2016

 

Grande jarra, com cerca de 34,8 cm. de altura, da fábrica francesa Longchamp.

 

Apresentando uma pasta vermelha não vitrificada que se denomina Terre de Fer, este exemplar cerâmico ostenta decoração Art Nouveau com esmalte brilhante, em relevo, que se destaca do corpo.

 

Embora esta opção pela pasta vermelha recorde algumas peças da produção de Sarreguemines (http://mfls.blogs.sapo.pt/tag/sarreguemines), a técnica decorativa aproxima-se mais da corda seca que viria a ser adoptada quer pela fábrica francesa de Longwy (http://mfls.blogs.sapo.pt/tag/longwy), quer pela fábrica belga Boch Frères / Keramis (http://mfls.blogs.sapo.pt/tag/boch+fr%C3%A8res+keramis).

 

Conhece-se uma variante desta decoração, aplicada sobre o formato 1441 (mais tardio que este, portanto), em que as pinhas são substituídas por abelhas, a folhagem tem uma representação menos sinuosa e as flores se assemelham mais a orquídeas do que a narcisos.

 

Segundo Jean Rosen (datas desconhecidas), as origens das Faïenceries de Longchamp remontam a 1830, quando Claude Phal-Matiron (datas desconhecidas) fundou uma fábrica de telhas que, cerca de três anos depois, veio a laborar em faiança. Neste período inicial a produção era muito desequilibrada pois, de acordo com alguns registos da época, em 1841 a empresa utilizava 250 metros cúbicos de argila para a produção de telhas e apenas 10 metros cúbicos para a produção de faiança.

 

Os registos cadastrais mostram que, em 1844, a parcela 415 da rue du Faubourg pertencia já a Jean-Baptiste Phal-Maillard, surgindo registada nas estatísticas de 1847 uma manufactura denominada Phal, que empregava 41 operários.

 

Em 1868, a exploração separada da faiança passou a ser detida pelos engenheiros Marcel (1839-1921) e Robert Charbonnier (1846-1905), que registaram as Faïenceries et Tuileries de Longchamp e passaram a produzir faiança fina. No início da década de 1880 a empresa tinha já cerca de 360 funcionários e aperfeiçoara a qualidade da sua faiança, que veio a ser distinguida em 1882 com uma medalha de prata no Salon des Arts Décoratifs.

 

Em 1912, Gaëtan Moisand (1878-1945), genro de Robert Charbonnier, retomou a empresa e projectou-a para novos patamares, passando pelo estilo Art Déco e pela colaboração com o famoso atelier Primavera dos Magasins du Printemps.

 

Após a morte deste, a sua viúva, Hélène Juliette Eugénie Charbonnier (1886-1964), e seus filhos asseguraram a gestão da empresa, criando em 1947 uma escola profissional de decoração e assegurando, também, a decoração manual das peças até 1990, ano em que a empresa empregava ainda 130 decoradores.

 

Precisamente em 1990 a empresa foi adquirida pela consagrada Villeroy & Boch. 

 

 

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