Memórias e Arquivos da Fábrica de Loiça de Sacavém

Abril 09 2015

 

Com a publicação deste terceiro volume, parece confirmar-se que a predominância de ilustrações alusivas às artes gráficas, aqui representando cerca de dois terços das imagens totais, configura uma opção da coordenação editorial e não dos diversos autores do texto principal de cada volume.

 

Continua a ser surpreendente o contraste entre a diversidade dos temas abordados nos textos principais, regra que a autora também segue neste volume, e as obsessivas opções pela arte gráfica que os acompanham. Infelizmente, continua a ser evidente, também, a ausência de uma revisão atenta e unificadora das afirmações patentes nos artigos de diferentes autores.

 

Só assim se compreende como é possível que, no mesmo volume, José Bártolo e Maria João Baltazar afirmem que a Secla foi fundada em 1947, enquanto Rita Gomes Ferrão nos assegura que a empresa surgiu em 1944. Quem acompanha este blog sabe bem qual destes três autores é o grande especialista na Secla e em qual destas duas datas deve confiar.

 

Mas, à puridade, à puridade, sublinhe-se que embora esta tenha as suas origens em 1944, a escritura pública da constituição legal de uma empresa sob a designação Secla apenas foi estabelecida em 18 de Dezembro de 1946 (http://mfls.blogs.sapo.pt/60571.html).

 

 

No artigo anterior referiram-se os sinetes como pequenos objectos do quotidiano que, na sua singeleza, poderiam traduzir também l'air du temps. E assim é, embora a sua origem remonte a uma tradição secular, bem anterior ao século XX. Mas é indubitavelmente através de alguns deles que podemos testemunhar uma mudança patente nas décadas de 1930 e 1940.

 

Com efeito, é nestas duas décadas que os tradicionais materiais nobres empregados na sua constituição, como a madrepérola, a prata, e o marfim, começam a ceder lugar ao bronze e a metais cromados, e a novos e sedutores materiais sintéticos, como a baquelite e o plástico.

 

Acima podem ver-se alguns exemplares com acabamento em prata de punção portuguesa, e punhos em madrepérola ou marfim, mas também dois exemplares com punho em baquelite e um outro com punho em plástico verde e preto.

 

A iconografia religiosa não ficou imune a estes materiais inovadores, como se  pode constatar abaixo, surgindo nestas décadas diversas imagens em plástico ou baquelite, muitas vezes combinadas com o alumínio que, numa versão popular, veio substituir a prata nos produtos de menor custo.

 

 

Datam também deste período as famosas figuras religiosas em plástico fosforescente, de que as esculturas evocativas de Nossa Senhora do Rosário de Fátima se tornaram paradigma incontornável, em Portugal.

 

Foi ainda no pós-guerra que a indústria de moldes para plástico, intimamente associada à tradição de moldes para vidro, teve particular expansão na área de Leiria e da Marinha Grande, permitindo aproximações inovadoras à prática do design nacional (http://mfls.blogs.sapo.pt/34301.html).

 

Um outro material que se popularizou neste período, particularmente nos brinquedos, embora já viesse a ser largamente utilizado desde o século XIX noutras áreas, como a dos enlatados, foi a folha de flandres.

 

Esta chapa metálica estanhada, frequentemente revestida a tinta de esmalte, pode-se combinar em diferentes secções para constituir modelos mais complexos, com movimento de corda, como o exemplar que se apresenta abaixo, o qual pretende ser uma réplica relativamente fidedigna de uma automotora da CP (http://www.transportes-xxi.net/tferroviario/automotoras).

 

 Exemplar em folha de flandres litografada, com logótipo da casa Coelho de Sousa. Porto, década de 1950.

 

 

No entanto, a ausência iconográfica mais notória nestes três volumes prende-se com o design da indústria vidreira.

 

Perante a magnífica fotografia, reproduzida no volume II, do stand que a Companhia Industrial Portuguesa apresentou na V Exposição Industrial e Agrícola das Caldas da Rainha, realizada em 1927, parece inacreditável que nestes volumes não se tenha dedicado maior espaço à arte do vidro e da cristalaria, que no nosso país conta já com cerca de 300 anos de constante produção industrial.

 

Não interessará aqui resumir a história das dezenas de empresas que, desde 1719, ano em que se fundou a Real Fábrica de Vidros de Coina, até ao presente, contribuíram e têm contribuído para criar um notável património português na história da indústria vidreira e no nosso quotidiano.

 

Muitos dos diversos aspectos do design e da indústria vidreira nacional do século XX foram já anteriormente referidos e documentados, embora traduzindo as limitações da fotografia não profissional e as dificuldades inerentes à especificidade do registo de imagem do vidro, quer num outro espaço (http://blogdaruanove.blogs.sapo.pt/?skip=10&tag=vidro) quer aqui mesmo (http://mfls.blogs.sapo.pt/tag/vidro), pelo que agora apenas se reproduzirão três significativas peças da produção nacional com diferentes técnicas decorativas. 

 

 

Acima apresentam-se dois pequenos copos evocativos da secular tradição de decoração a esmalte, que em Portugal remonta ao século XVIII e aos famosos copos de saudação ao rei D. João V (1689-1750; rei, 1707-1750), promotor e protector da indústria vidreira.

 

Estas duas peças, contudo, são datáveis de 1929, foram fabricadas pela Companhia Industrial Portuguesa e ostentam a decoração que o consagrado arquitecto e designer Raul Lino (1879-1974) concebeu para que exemplares semelhantes, bem como garrafas licoreiras ostentando os mesmos motivos, fossem exibidos durante aquele ano no pavilhão português da Exposição Internacional de Sevilha (http://blogdaruanove.blogs.sapo.pt/tag/sevilha+1929).

 

Abaixo ilustra-se uma grande jarra, com cerca de 42 cm. de altura, elaborada em vidro doublé, com camada exterior de tonalidade ametista, lapidado e gravado a ácido e à roda.

 

Paradigma maior da arte vidreira portuguesa do segundo quartel do século XX, ostenta na sua secção central a representação de um campino conduzindo toiros numa lezíria, através de uma composição atribuível a Jorge Barradas (1894-1971).

 

 

© MAFLS


Maio 03 2014

 

Pequena jarra em porcelana da fábrica Electro-Cerâmica do Candal, em Vila Nova de Gaia, decorada em tom monocromático rosa e apresentando complementos de filetagem a ouro.

 

Com cerca de 17,3 cm. de altura, esta peça corresponde ao formato J.22, como se pode verificar na inscrição, incisa na pasta, reproduzida abaixo.

 

 

Durante o segundo quartel do século XX e a década de 1950, formatos semelhantes a este surgiram também em significativa quantidade na produção vidreira portuguesa.

 

Acima apresenta-se uma jarra em vidro moldado, muito provavelmente produzida numa unidade da Marinha Grande em meados daquele século. Esta simples decoração com uma camada de reflexos alaranjados e irisados é popularmente conhecida como "casca de cebola".

 

 

© MAFLS


Setembro 15 2013

     

 

Figura moldada em terracota patinada, com cerca de 25,7 cm. de altura, apresentando uma réplica da célebre escultura clássica denominada Vénus de Milo, produzida pela fábrica Moderna Industrial Decorativa, de Coimbra.

 

Esculpida originalmente em mármore, cerca de 130-100 A.C., esta figura hoje incompleta, com cerca de 203 cm. de altura, é atribuída a Alexandros de Antioquia (datas desconhecidas) e integra o acervo do Museu do Louvre, em Paris (http://www.louvre.fr/accueil).

 

Imagem extremamente popular ao longo dos últimos dois séculos, paradigma da arte clássica greco-latina e termo de comparação para os novos paradigmas modernistas do século XX – "O binómio de Newton é tão belo como a Vénus de Milo", afirmou Fernando Pessoa (1888-1935; http://arquivopessoa.net/textos/224), esta escultura tem sido reproduzida em diversos formatos e diferentes materiais.

 

Como exemplo dessa produção diversificada, apresenta-se abaixo um pequeno sinete, com cerca de 7 cm. de altura, em vidro moldado, possivelmente também de manufactura portuguesa, embora se conheça uma outra peça similar que ostenta uma etiqueta, em papel metalizado, da antiga Checoslováquia.

 

          


No final deste artigo pode ver-se a etiqueta que acompanha a figura em terracota, MID 2, que nos permite já começar a ensaiar uma sistematização da cronologia e das marcas desta fábrica.

 

Ao contrário do que acontece com as peças da primeira fase (http://mfls.blogs.sapo.pt/154589.html), talvez porque a patine também se estende à base, contribuindo assim para uma eventual obliteração ou ilegibilidade das marcas na pasta, parece que a produção posterior desta fábrica tende a apresentar exclusivamente uma etiqueta identificativa da sua origem, sem qualquer marca impressa ou incisa na pasta.

 

Esta opção, como é óbvio, prejudica uma posterior e precisa identificação das peças oriundas da Moderna Industrial Decorativa, pois, ao contrário das marcas impressas ou incisas, a maioria das etiquetas dificilmente sobrevive à passagem do tempo.

 

A propósito de mais esta peça da MID, aproveita-se a oportunidade para reproduzir abaixo uma fotografia datável da década de 1940 (também já publicada por Maria Andrade no seu espaço: http://artelivrosevelharias.blogspot.pt/2012/05/moderna-industrial-decorativa-de.html) onde surgem retratados os trabalhadores desta unidade cerâmica coimbrã.

 

© Ana Maria Caetano

 

Cedida por Ana Maria Caetano (veja-se um blog de sua autoria aqui: http://rdqntnadaquefazer.blogspot.pt/), a quem se agradece a amabilidade, esta fotografia apresenta ao centro, na última fila, envergando uma bata branca, seu avô Francisco Caetano Ferreira (1908-1987), um dos fundadores da empresa e seu responsável artístico, cargo que provavelmente desenvolveria em conjunto com o desenhador Carlos dos Reis (datas desconhecidas).

 

Francisco Caetano Ferreira modelou diversas peças cerâmicas, dentro e fora da MID, colaborando posteriormente, segundo declarações desta sua neta, com a Companhia da Fábricas Cerâmica Lusitânia, quer na unidade de Coimbra quer na unidade do Porto.

 

É possível, pois, que algumas das peças escultóricas da Lusitânia de Coimbra sejam de sua autoria, havendo também notícia de que modelou um presépio produzido pela MID e exibido, no início da década de 1950, no posto de turismo do Largo da Portagem, em Coimbra.

 

Finalmente, sublinhe-se como é curioso o facto de esta peça ser da MID, quando o logótipo da fábrica A Nova Decorativa, também de Coimbra, é que ostenta o busto da Vénus de Milo (http://mfls.blogs.sapo.pt/tag/f%C3%A1brica+a+nova+decorativa).

 

Não se conhecendo dados sobre a fundação ou encerramento de A Nova Decorativa, nem dados sobre a data de encerramento da Moderna Industrial Decorativa, esta coincidência faz-nos reflectir sobre a hipótese de estas duas fábricas estarem de algum modo relacionadas, eventualmente através de alguns sócios da MID que tenham vindo a fundar a AND, ou mesmo sobre o facto de a AND ter sucedido à MID.

 

     

MID 1                                               MID 2

 

© MAFLS


Março 31 2013

     

 

Prato fundo de cozinha, com cerca de 28,2 cm. de diâmetro, decorado a aerógrafo sobre stencil (chapa recortada), no centro, e aerógrafo à mão livre, na cercadura.

 

Este exemplar de faiança figurando uma ave exótica, produzido na unidade de Coimbra da Companhia das Fábricas Cerâmica Lusitânia, apresenta um motivo particular do período Art Déco que surge como decoração central em diversas outras peças de fábricas portuguesas.

 

São conhecidas representações de aves exóticas, mais, ou menos, simplificadas, em inúmeros exemplares portugueses de loiça doméstica e decorativa, nomeadamente em peças de porcelana da Electro-Cerâmica, do Candal, da Sociedade de Porcelanas, de Coimbra, e da Vista Alegre, de Ílhavo.

 

A decoração deste prato da CFCL, em particular, evoca claramente o design genérico que Marcel Goupy (1886-1954) criou para os motivos com aves do Service Marquises, produzido em porcelana pela fábrica francesa Théodore Haviland, e do qual se pode ver mais abaixo uma das composições comercializadas.

 

               

 

Marcel Goupy estudou na École Nationale des Arts Décoratifs de Paris, colaborando depois com o famoso empresário comercial Georges Rouard.

 

Já na viragem do século XIX para o século XX as galerias parisienses A La Paix, de Rouard, comercializavam objectos Art Nouveau de grande qualidade – vidros de Gallé (1846-1904), peças únicas de cerâmica, e mobiliário, como se pode verificar no anúncio, datável de cerca de 1901, reproduzido acima.

 

Rivalizando em fama com a célebre Maison de l'Art Nouveau, de Siegfried Bing (1838-1905), a casa Rouard veio a acompanhar l'air du temps, adaptando-se posteriormente, com grande versatilidade e êxito empresarial, à comercialização e promoção de objectos estilo Art Déco.

 

Assumindo as funções de director artístico desta casa, cargo que exerceu até ao seu falecimento, Goupy consagrou-se como designer de motivos Art Déco executados em vidro, desenvolvendo no entanto, também com reconhecido sucesso, designs para outros suportes. 

 

       

 

A porcelana da empresa Haviland foi uma das preferidas pela Casa Real portuguesa durante os finais do século XIX e princípios do século XX, como se pode constatar nas colecções dos Palácios Nacionais e no catálogo da exposição Porcelana Europeia: Reservas do Palácio Nacional da Ajuda (1987).

 

Um dos serviços de jantar mais famosos desta fábrica, que, pela descrição, parece corresponder à entrada 118 do referido catálogo, foi aliás encomendado pela rainha D. Maria Pia (1847-1911; rainha consorte, 1862-1889).

 

Criado pelo consagrado Édouard Dammouse (1850-1903), irmão do ainda mais célebre Albert-Louis Dammouse (1848-1926), este conjunto foi exibido na Exposição Universal de Paris, de 1900, onde obteve um Grand Prix, na Exposição de St. Louis, em 1904, e na exposição de Londres, em 1908.

 

Dois pratos desse serviço podem ser vistos na página 62 do livro Haviland (1988), da autoria de Jean d'Albis (1911-2004), um dos netos de Théodore Haviland (1842-1919).

 

                   

 

A gramática Art Déco, no entanto, apresentou diversas outras aves estilizadas sem recorrer à figuração de aves exóticas, como se pode constatar na jarra ilustrada acima.

 

Executada em faiança pela fábrica francesa Keller et Guérin, esta peça ostenta uma composição estilizada, também aplicada a aerógrafo sobre stencil (chapa recortada), provavelmente concebida por Georges "Géo" Condé  (1891-1980).

 

Diversos outros designs deste autor têm sido divulgados por MUONT, pelo que para saber mais sobre Géo Condé e as fábricas a que esteve ligado pode visitar: http://modernaumaoutranemtanto.blogspot.pt/search/label/G%C3%A9o%20Cond%C3%A9.

 

As aves exóticas, e as composições feéricas que estas proporcionavam, marcaram contudo o imaginário das artes decorativas do período, pelo que abaixo se apresenta ainda uma jarra em vidro cuja figuração e composição têm afinidades com o trabalho de Goupy.

 

 

Esta peça, com cerca de 19,9 cm. de altura e 24,8 cm. de diâmetro, foi executada em vidro fornecido pela fábrica francesa Daum Frères & Cie. e decorada a esmalte na empresa Leune.

 

Os Établissements Leune, cujos elementos de administração tinham laços de parentesco com a família Daum, laboraram entre os princípios do século XX e a década de 1930, contando com Auguste Heiligenstein (1891-1976) como seu conselheiro artístico em meados da década de 1920.

 

Heiligenstein colaborou entre 1919 e 1923 com Marcel Goupy, tendo eventualmente executado alguns dos designs que este haveria de assinar. A impossibilidade de Heiligenstein assinar os seus próprios trabalhos é uma das razões apontadas para que tivesse cessado a colaboração com Goupy.

 

Como esta jarra bem ilustra, os seus trabalhos para os Établissements Leune quase nunca ostentavam a sua assinatura, antes a da empresa, pelo que tal razão não terá sido necessariamente decisiva para que Heiligenstein cessasse colaboração com Goupy.

 

 

© MAFLS


Junho 24 2012

          

 

Estatueta em terracota pintada representando Santo Onofre (século IV). Não ostenta qualquer marca visível, sendo datável da primeira metade do século XX.

 

Note-se como esta representação iconográfica apresenta muitas semelhanças com a representação de S. João Baptista, santo a que o dia de hoje é consagrado. Em Portugal há mais de trinta concelhos que declararam este dia como feriado municipal, sendo particularmente afamadas as tradicionais celebrações joaninas realizadas nas cidades de Braga e do Porto, celebrações que têm também forte tradição durante as festas Juninas realizadas no Brasil.

 

A celebração litúrgica de Santo Onofre decorre a 12 de Junho, data que sublinha ainda mais a sua ligação simbólica e sincrética a S. João Baptista e às festividades do solstício de Verão.

 

Duas taças em vidro decorado a esmalte policromado, alusivas ao S. João de Braga, datáveis da década de 1940 ou 1950.

Provável fabrico da Nova Fábrica de Vidros, Marinha Grande.

 

Entre outras, as representações iconográficas de S. Jerónimo, S. João Baptista e Santo Onofre enquanto anacoretas remetem para o conceito medieval do homem selvagem, que surgia também no teatro vicentino como S. João Verde e ainda hoje está associado a uma imagem de produtos alimentares (http://www.greengiantfresh.com/index.asp).

 

Por outro lado, embora S. Brás seja o tradicional patrono invocado contra os males associados à garganta, existe uma marca que, curiosamente, adoptou o nome de Santo Onofre para os seus rebuçados peitorais (http://santoonofre.com/v2/principal.html).

 

Embora Santo Onofre surja tradicionalmente como patrono dos tecelões e daqueles que sofrem de embriaguez crónica, em Portugal é habitualmente considerado um patrono da prosperidade financeira.

 

Abaixo pode ver-se uma outra representação de Santo Onofre, esculpida em madeira e com olhos de vidro incrustados, também datável da primeira metade do século XX.

 

          

 

© MAFLS


Janeiro 30 2012

 

 

 

Eva Zeisel (nascida Eva Amalia Striker, ou Stricker), a consagrada designer e ceramista de origem húngara, faleceu há precisamente um mês, a 30 de Dezembro de 2011, com 105 anos.

 

Homenageando a sua memória e a sua obra, reproduz-se hoje uma peça em porcelana da Vista Alegre que poderá estar ligada ao seu nome. Com efeito, o design desta terrina é-lhe atribuído com algumas reservas, mas a atribuição faz-se com base na informação que consta dos arquivos da VA.

 

De facto, no verbete 6485 desses arquivos surge uma cafeteira modelo "Primavera" cuja autoria é atribuída a "Mme. Stricker" [sic]. O seu formato, aprovado em Janeiro de 1961, apresenta uma variante mais rectilínea do motivo aqui aplicado em relevo, com a mesma pega na tampa.

 

Estes pormenores rectangulares, que na cafeteira surgem também na asa, não são consentâneos com o design da fase americana de Zeisel, mas surgem com frequência na sua fase alemã da fábrica Schramberg (SMF), onde produziu inúmeras peças influenciadas pelos princípios da Bauhaus. Considerando os dois modelos, este da terrina apresenta o formato que mais se aproxima da característica gramática curvilínea de Zeisel. 

 

Como já foi aqui referido, existe uma outra peça VA que nem sequer lhe é atribuída, mas que é indubitavelmente da sua autoria. Trata-se do canjirão "Machado", produzido pela VA a partir de 1938. Embora não se encontre assim creditado nos arquivos da VA (no verbete 2594 da fábrica, a única anotação manuscrita sobre os dados históricos da peça P.A. 617 refere ter sido este modelo dado [sic] por Machado dos A.), o formato corresponde à adaptação de uma peça criada por Zeisel para a SMF, em 1929 ou 1930.

 

Um exemplar desse canjirão da VA, com a inscrição "Recordação de Braga" e uma imagem do Santuário do Sameiro, foi exibido na exposição Portuguese Ceramics in the Art Deco Period, realizada em 2005 nos E.U.A.

 

Lucie Young, Eva Zeisel (2003).

 

Dando provas de enorme vitalidade e dinâmica criativa, Eva Zeisel colaborou ainda em 2004 e 2005 num projecto da Vitrocristal, agrupamento empresarial criado para promover o vidro da Marinha Grande sob a designação MGlass, naquela que terá sido porventura a sua última ligação ao design da indústria portuguesa.

 

Tal projecto culminou numa pequena exposição realizada em Nova Iorque, no edifício das Nações Unidas, onde se exibiram peças em vidro criadas por mulheres de três diferentes nacionalidades e de diferentes gerações (cf. http://www.un.int/portugal/mglassfotos.htm).

 

Ironicamente, este parece ter sido o canto do cisne do projecto MGlass, que se tinha iniciado em 1999 e era um aparente caso de sucesso na recuperação e promoção da indústria vidreira (cf. http://www.cmjornal.xl.pt/detalhe/noticias/nacional/actualidade/o-ultimo-sopro-na-marinha-grande).

 

Terminando com uma nota de humor, refira-se que o célebre conjunto para sal e pimenta Town and Country, criado em 1946 por Zeisel e produzido a partir do ano seguinte pela fábrica americana Red Wing (http://www.washingtonpost.com/eva-zeisel-salt-and/2012/01/02/gIQADz72WP_photo.html), parece ter inspirado o desenho e a forma dos famosos Shmoos (http://en.wikipedia.org/wiki/Shmoo), personagens de BD criadas em 1948 por Al Capp (1909-1979), embora as pessoas se preocupem mais em estabelecer outras semelhanças formais e ninguém pareça querer admitir tal facto...

 

Sobre Eva Zeisel, consultem-se mais alguns dados publicados neste espaço, em: http://mfls.blogs.sapo.pt/43735.html, e veja-se o vídeo The playful search for beauty, com cerca de 18 minutos, aqui: http://www.youtube.com/watch?v=x72uoP2a55I.

 

Eva Zeisel em 1935.

 

© MAFLS


Janeiro 29 2012

© CDMJA/MCS

 

Detalhe da área do pavilhão da FLS na Exposição Colonial Portuguesa, realizada em 1934 no edifício e nos jardins do Palácio de Cristal, Porto, podendo ver-se quatro painéis de azulejos executados propositadamente para o evento.

 

O painel mais à direita do observador representa a partida de Vasco da Gama (c.1469-1524) para a Índia.

 

Algumas imagens relacionadas com a exposição podem ser consultadas aqui: http://blogdaruaonze.blogs.sapo.pt/tag/exposi%C3%A7%C3%A3o+colonial+do+porto, e aqui: http://blogdaruanove.blogs.sapo.pt/tag/exposi%C3%A7%C3%A3o+colonial+do+porto.

 

Para um exemplar em porcelana da VA reproduzindo a mascote da exposição, um elefante, veja-se o artigo de MUONT (http://modernaumaoutranemtanto.blogspot.com/search/label/Exposi%C3%A7%C3%A3o%20Colonial%20Portuguesa%20%28Primeira%29).

 

Veja-se ainda a ligação aí indicada para um artigo mais desenvolvido sobre a exposição reproduzindo, entre muitas outras, as imagens referidas acima (http://doportoenaoso.blogspot.com/2010/10/os-planos-para-o-porto-dos-almadas-aos.html).

 

A VA produziu também pratos decorativos alusivos a esta exposição, conhecendo-se exemplares representando quer a fachada do edifício principal (um modelo encomendado pela casa Pérola da China, com a referência P.1536), quer uma mulher de raça negra (modelo com a referência P.1534).

 

Da mesma fábrica conhece-se ainda uma pequena taça com rebordo polilobado, representando dois elefantes com a tromba alçada, que apresenta no verso a inscrição Recordação / da / Exposição Colonial / Porto - 1934 / Portugal.

 

 

Pisa-papéis em vidro fosco moldado, com cerca de 13,8 x 9,2 x 4,6 cm., produzido provavelmente na Marinha Grande, ilustrando uma das muitas versões em estilo Art Déco que apresentam elefantes em pose semelhante à da mascote da exposição.

 

No entanto, como se pode verificar numa das imagens referidas acima (http://blogdaruaonze.blogs.sapo.pt/187192.html) e na peça da VA, o elefante da versão oficial, entre outras diferenças que apresenta, não olha em frente nem tem as orelhas nesta posição.

 

A reprodução da fotografia do pavilhão é uma cortesia do CDMJA/MCS.

 

© MAFLS


Novembro 19 2010

 

Jarra, formato Portugalia 1, posteriormente reclassificado como número 4, pintada à mão sob o vidrado.

 

O formato Portugalia 1 surge já referido na tabela de Outubro de 1929, sob o número 5, com a indicação de 30 cm. de altura (este exemplar mede 34 cm.) e o preço de 40$00.

 

Nessa tabela são ainda referenciadas as diversas variantes desta jarra – Portugalia 2, sob o número 7, com 30 cm. de altura; Portugalia 4, sob o número 15, com 20 cm. de altura; Portugalia 3 do 1.º, sob o número 16, com 29 cm. de altura; Portugalia 3 do 2.º, sob o número 16A, com 23 cm. de altura; Portugalia 3 do 3.º, sob o número 16B, com 15 cm. de altura; Portugalia 7, sob o número 24, com 25 cm. de altura; Portugalia 8, sob o número 31, com 15 cm. de altura; e Portugalia 9, sob o número 32, com 11 cm. de altura.

 

 

A gramática regionalista destas ilustrações aproxima-se do traço mais caricatural de Jorge Barradas (1894-1971), embora não se conheça qualquer registo de colaboração deste artista com a FLS.

 

Aproxima-se também do traço regionalista menos estilizado de Piló (Manuel Pilo da Silva, 1905-1988; vejam-se alguns dos seus desenhos mais estilizados em http://blogdaruanove.blogs.sapo.pt/tag/pil%C3%B3), conforme o copo da CIP, assinado e pintado a esmalte, reproduzido abaixo bem ilustra.

 

Mais uma vez, contudo, não se conhece registo da colaboração de Piló com a FLS.

 

 

Existem outros vidros da Marinha Grande de meados do século XX que apresentam pinturas a esmalte tratando cenas regionalistas com traços algo semelhantes aos de esta jarra, particularmente uma jarra patente no Museu do Vidro (cf. http://ww2.cm-mgrande.pt/), embora a sua autoria não possa ser atribuída com segurança.

 

Note-se que este é, claramente, um traço distinto daquele que Álvaro Mendes Alves (1905-1996) desenvolveu no tratamento de temas regionalistas e folclóricos (cf. http://mfls.blogs.sapo.pt/50463.html).

 

 

© MAFLS


Junho 18 2010

 

Canecas em vidro branco transparente com decoração, intitulada Bailados-de-Portugal, a esmalte policromado. Produção de uma das fábricas da Marinha Grande, eventualmente CIP, NFV ou Stephens, realizada nas décadas de 1950 ou 1960.

 

As decorações reproduzidas são atribuíveis a Álvaro Mendes Alves (1905-1996), decorador e pintor da FLS, encontrando-se a imagem da caneca da direita ilustrada no catálogo da exposição Dar Sentido à Argila: Os Ateliês de Decoração na Fábrica da Loiça de Sacavém, realizada no MCS em 2007.

 

A recuperação e reformatação dos valores do folclore bem como a sua dinamização nas décadas de 1940 a 1960 está geralmente associada ao Estado Novo e aos vários organismos corporativos desenvolvidos pelo regime – SPN/SNI, FNAT, Casas do Povo.

 

Todo o revivalismo dos supostos valores tradicionais veiculados pelo folclore foi exacerbado na cerâmica (entre outros exemplos, na produção da Aleluia, de Aveiro, da Cerâmica Macedo, de Barcelos, e da Vista Alegre), nas edições postais dos CTT, com a série Conheça as suas Danças (dezoito exemplares diferentes editados entre 1957 e 1963), na decoração do vidro, na própria promoção turística dos ranchos folclóricos e na sua projecção através de cartazes de instituições oficiais.

 

Um aspecto, contudo, é muitas vezes subvalorizado ou escamoteado na análise desse revivalismo. É que ele havia sido promovido já na década de 1920 por artistas como Bernardo Marques (1898-1962) ou Roberto Nobre, (1903-1969),  certamente na senda da recuperação de um imaginário popular europeu relançado anteriormente pelos Ballets Russes, de Diaghilev (Sergei Pavlovich Diaghilev, 1872-1929), e rapidamente aplaudido, acarinhado e  adoptado pelos modernistas.

 

    

Capas de Roberto Nobre (1903-1969), à esquerda, e Bernardo Marques (1898-1962), respectivamente para o magazine Civilização, número 12, de Junho de 1929, e número 14, de Agosto do mesmo ano.

 

© MAFLS


Maio 23 2010

 

Jarra produzida na Marinha Grande em vidro doublé (termo francês utilizado nessa região para referir o vidro com duas camadas, habitualmente com decoração no interior, designado também cased glass, em inglês), com decoração escorrida a branco, no interior, e  decoração a azul e ouro no exterior.

 

Uma variante desta técnica tornou-se particularmente célebre durante os séculos XVIII e XIX, na Boémia e na Alemanha, com a designação zwischengoldglass, visto encerrar normalmente uma decoração a ouro entre (zwischen) as duas camadas de vidro.

 

A decoração exterior desta jarra é muito semelhante a uma outra, efectuada em cerâmica e atribuída a Álvaro Mendes Alves (1905-1996), reproduzida no catálogo da exposição Dar Sentido à Argila: Os Ateliês de Decoração na Fábrica da Loiça de Sacavém, realizada no MCS em 2007. 

 

Ambas as peças, apesar do diferente formato, apresentam, inclusivé, dimensões aproximadas − cerca de 12 centímetros de altura. A criação da decoração desta jarra em vidro poderá, portanto, ser atribuível a esse pintor e decorador da FLS.

 

Como se documentará posteriormente, Álvaro Mendes Alves terá também contribuído com outras decorações para a indústria vidreira da Marinha Grande.

 

 

Exemplo de um copo da Europa Central, provavelmente do século XIX, com dupla camada de vidro e decoração a esmalte e dourado no exterior.

 

O espaço entre as duas camadas de vidro não foi no entanto preenchido, sendo apenas utilizado para criar sombras e conceder profundidade à decoração principal, em conjunto com o tratamento de foscagem que se aplicou num rectângulo da camada interior, precisamente atrás da paisagem pintada na superfície exterior.

 

© MAFLS

publicado por blogdaruanove às 21:01

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