Memórias e Arquivos da Fábrica de Loiça de Sacavém

Dezembro 28 2016

 

Em cima, uma pantera em faiança, com cerca de 12,8 x 32,5 x 8 cm., ostentando na base os números 10, impresso, 5 e 21, incisos manualmente, e a marca francesa ODYV.

 

Depois, um esquilo também em faiança, com cerca de 14,2 x 22,6 x 9 cm., que, embora apenas ostente na base os números 15, impresso, e 17, inciso manualmente, sem qualquer outra marca visível, foi obviamente produzido na mesma empresa.

 

Em seguida, um bode em faiança, com cerca de 15,6 x 27,7 x 8,9 cm., que também apenas ostenta na base os números 14, impresso, e 45, inciso manualmente, sem qualquer outra marca visível, mas é indubitavelmente da mesma proveniência.

 

Por último, um cervídeo em faiança, com cerca de 22,5 x 39 x 12,7 cm., ostentando na base os números 1, impresso, e 16 e 5, incisos manualmente, e também a marca ODYV.

 

Conhecem-se diversas outras esculturas de animais produzidas pela ODYV, constituindo estas um bestiário bastante diversificado que inclui galgos, gazelas, leoas, leopardos, tigres, que ora surgem em representações singulares ora em representações colectivas, ora, ainda, em conjuntos para relógios de lareira.

 

 

Para além das que apresentam vidrado brilhante preto, como o que surge em três destas peças, e que tem tendência a estalar com a passagem do tempo, formando um craquelé algo frágil que contrasta com o sólido vidrado das figuras, e vidrado baunilha semi-mate, como o que surge na última, conhecem-se ainda bases com vidrado matizado, a imitar padrões e tonalidades de pedras ornamentais, e bases beiges que servem de apoio a esculturas com vidrado monocromático também castanho, ou de outras tonalidades escuras.

 

O corpo principal das peças, a escultura animal em si, apresenta quer vidrado acetinado semi-mate, como o de este esquilo e do cervídeo, quer vidrado mate com acabamento ligeiramente microcristalino e rugoso, como o da pantera e do bode, surgindo em diversas cores e tonalidades. Nos conjuntos para relógio, para além de poderem surgir decorados a platina ou ouro, os animais são por vezes acompanhados de figuras femininas.

 

Nos conjuntos escultóricos monobloco, que não têm a base aparafusada ao corpo principal, como acontece com os quatro exemplares aqui ilustrados, conhece-se ainda um acabamento vidrado com gotículas em relevo, característico de algumas jarras ODYV produzidas na década de 1930, e também da fábrica checoslovaca Amphora (http://blogdaruaonze.blogs.sapo.pt/161780.html), cujo apelo técnico e estético nas figuras animais é muito questionável.

 

Durante várias décadas adensaram-se as dúvidas quanto às origens e à existência de documentação relativa a esta hipotética empresa, e ainda no final do século XX obras de referência como La Céramique Art Déco (1988), Craquelés – Les Animaux en Céramique, 1920-1940 (1993), ou Art Deco and Modernist Ceramics (1995) a ignoravam ou exprimiam dúvidas sobre a sua identificação.

 

 

Já no princípio do século XXI, com a maior circulação de dados na internet e o inerente aumento de fontes webliográficas e iconográficas, foi possível começar a encontrarem-se imagens de peças marcadas ODYV com etiquetas na base apresentando a indicação manuscrita Berlot-Mussier associada ao preço.

 

Finalmente, em 2007, uma obra intitulada Le Temps d'ODYV: 1927-1940, dedicada em particular aos relógios em faiança comercializados sob essa marca, os quais integravam habitualmente conjuntos de três peças denominados garniture de cheminée (vejam-se alguns desses exemplares aqui: http://www.clockarium.com/musee/index.htm.), veio divulgar informações relevantes sobre a empresa.

 

Assim, ficou a saber-se que a Manufacture Berlot-Mussier, fundada em 1927 e activa até cerca de 1975, sedeada em Vierzon e inicialmente denominada Faïencerie du Tunnel – uma das suas marcas representa precisamente uma locomotiva a sair do túnel urbano de Vierzon, produziu, pelo menos entre 1927 e 1940, uma série de peças que ostentavam a designação comercial ODYV.

 

Curiosamente, também esta designação, a exemplo do que acontecia com outra notável empresa da mesma localidade, a Denbac (http://mfls.blogs.sapo.pt/tag/denbac), deve a sua existência à contracção de dois nomes, desta vez próprios – Odette, filha de Mussier, e Yvonne, irmã de Berlot. 

 

 

Cruzando os exíguos dados conhecidos sobre a Berlot-Mussier, patentes nas obras citadas e noutras fontes, foi possível apurar que um dos escultores que colaborou com a empresa foi Gustave Gillot (1888-1965), nomeadamente através da modelação de uma raposa monobloco que evoca a fábula de Esopo (c. 620 a.C.- 564 a.C.) posteriormente recuperada e celebrizada pela versão de La Fontaine (1621-1695).

 

Também o conceituado escultor e modelador cerâmico Charles Lemanceau (1905-1980), que executou peças para as marcas La Maîtrise, Nouvelles Galeries, Primavera, Robj, e para as fábricas Foecy, Sainte-Radegonde, Saint-Clément, concebeu algumas criações para a Berlot-Mussier, pelo que provavelmente algumas das esculturas de animais marcadas ODYV serão de sua autoria.

 

Mais, foi ainda possível apurar que a esposa de Lemanceau se chamava Odette, embora não se tenha conseguido saber se nos encontramos apenas perante uma coincidência de nome próprio ou perante Odette Mussier.

 

De qualquer modo, estes quatro exemplares demonstram inequivocamente a elevada qualidade composicional, estética e escultórica de algumas das figuras animais comercializadas pela ODYV dentro da gramática Art Déco.

 

 

© MAFLS


Dezembro 25 2016

 

Duas jarras em grés produzidas na fábrica francesa Denbac.

 

Em cima, pequeno exemplar com cerca de 12,2 cm. de altura, ostentando o número 32, que corresponde ao formato e à sua catalogação. 

 

Apresenta o característico vidrado microcristalino da empresa escorrendo em três tonalidades sobre uma forma com sinuosas linhas, de inspiração vegetal, ao gosto Art Nouveau.

 

 

Jarra, que poderia também ser usada como base de candeeiro embora não apresente qualquer perfuração para esse fim, com cerca de 28,8 cm. de altura.

 

Ostenta o número 50 e o vidrado microcristalino, predominantemente em tons de verde e azul, que habitualmente se associa aos clássicos escorridos da Denbac.

 

Consulte-se informação sobre a empresa, e vejam-se mais alguns exemplares da produção Denbac, aqui: http://mfls.blogs.sapo.pt/tag/denbac.

 

 

© MAFLS


Dezembro 26 2013

 

Um apurado sentido da estética contemporânea e uma grande perícia como ceramista  foram características fundamentais para estabelecer e desenvolver a qualidade e a celebridade, restrita ainda hoje a um círculo específico de especialistas e coleccionadores, das peças produzidas em grés por René Denert (1872-1937).

 

Fundada por Denert e René Louis Balichon (1885-1949), em Vierzon, França, no ano de 1910, já no período de declínio criativo do estilo Art Nouveau, a fábrica Denbac (denominação instituída c. 1914) consagrou grande parte do seu tempo à produção de exemplos notáveis e singulares de peças cerâmicas decorativas que epitomizam perfeitamente este movimento.

 

As quatro peças aqui reproduzidas ilustram, embora de forma incompleta, o aspecto ecléctico das formas e dos vidrados desenvolvidos por Denert quer no estilo Art Nouveau quer no estilo Art Déco, bem como o grande sentido escultórico que este imprimiu ao seu trabalho.

 

Apresentando vidrados quer mates quer brilhantes, ou uma combinação dos dois, mas com acentuada preferência pelos primeiros, Denert desenvolveu peças onde a estilização do figurativismo vegetal se combina com os microcristais escorridos para conceder à obra cerâmica uma harmonização simultaneamente discreta e feérica, em particular quando  a luz incide fortemente sobre o vidrado e faz cintilar a sua componente cristalina.

 

A utilização de microcristais no vidrado – técnica frequente durante o final do século XIX e princípios do século XX em fábricas como Pierrefonds, Sarreguemines e Sèvres, em França, Royal Copenhagen, na Dinamarca, Ruskin, em Inglaterra, Fulper e Roseville, nos E.U.A., e muitas mais, assumiu na fábrica Denbac uma expressão singular precisamente devido ao sentido e à harmonia escultórica que Denert desenvolveu nas peças que serviam de suporte ao vidrado microcristalino.

 

 

A primeira jarra, com cerca de 20,5 cm. de altura, ostenta uma combinação azul-esverdeada característica do vidrado da fábrica e apresenta uma notável modelação vegetalista elaborada ao sinuoso gosto Art Nouveau.

 

A segunda, com cerca de 9,8 cm. de altura, apresenta diferente combinação de vidrados numa inequívoca e clara alusão ao monte Fuji, ícone que surgia de forma algo equívoca e estilizada na peça BFK ontem apresentada (http://mfls.blogs.sapo.pt/276165.html), materializando assim mais uma homenagem ocidental à tradição cerâmica do Japão.

 

Este formato, correspondente ao número 185, não é exclusivo da Denbac, conhecendo-se variantes, com maiores ou menores semelhanças, em diversas fábricas e oficinas francesas e europeias. Aliás, dentro da própria produção da Denbac, esta mesma peça poderá ter surgido como uma variante mais depurada e harmoniosa do formato 184.

 

Fora da Denbac, a variante mais próxima deste formato 185, ligeiramente menos larga e menos achatada, é a que corresponde ao formato 124 criado em grés por Jean Pointu (1843-1925), já na fase final da sua carreira, depois de se instalar em Saint-Amand-en-Puisaye (http://www.grespuisaye.fr/ecolecarries/jpointu.html).

 

O facto de Pointu apenas ter começado a produzir grés a partir de 1906, ano da sua instalação naquela localidade, coloca a curiosa questão de saber qual das peças poderá ter inspirado a outra, pois Denert registou a empresa Denert, consagrada à produção de grès flammés e antecessora da Denbac, em 1909.

 

 

 

A terceira jarra, com cerca de 21,6 cm. de altura, ostenta novamente a mais célebre combinação cromática da Denbac, apresentando já um formato geometrizante ao gosto Art Déco.

 

Evocando, de alguma maneira, formas que surgem nas civilizações pré-colombianas e nas versões menos exuberantes da tendência Déco designada, particularmente no sudoeste dos EUA, por Pueblo Deco, esta proposta de composição haveria de surgir também numa peça de secções cilíndricas sobrepostas, da linha Futura, produzida na fábrica americana Roseville.

 

 

Finalmente, a última jarra, com cerca de 31,2 cm. de altura, apresenta de forma harmoniosa, discreta e elegante um dos símbolos da França – a flor-de-lis, integrando-o numa subtil composição escultórica de inspiração vegetalista.

 

O vidrado aqui patente, também comum a muitas outras peças Denbac, traduz nas suas tonalidades a ideia sugerida pela designação da técnica utilizada para produzir as peças – grès flammés, nesta pequena mas artisticamente importante unidade industrial cerâmica que acabou por encerrar em 1952.

 

Vejam-se diversos outros exemplares da produção Denbac aqui: http://blogdaruanove.blogs.sapo.pt/tag/denbac, e aqui: http://blogdaruaonze.blogs.sapo.pt/tag/denbac, e consulte-se o fundamental trabalho de catalogação que Alexandre Hoffman está a desenvolver aqui: http://sandre74.free.fr/index%202006.htm.

 

               

 

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