Memórias e Arquivos da Fábrica de Loiça de Sacavém

Dezembro 31 2016

Mostruário ilustrando a palete de cores serigrafadas a alto-fogo disponível para os serviços de mesa e hotelaria da Rosenthal nas décadas de 1980 e 1990.

 

A Rosenthal, que já tinha dedicado desde finais do século XIX particular atenção aos motivos e às formas contemporâneas, quer através de peças decorativas quer através de peças funcionais, estas últimas exemplificadas no formato Donatello (http://mfls.blogs.sapo.pt/outras-fabricas-outras-loicas-cclxii-349762), veio a afirmar-se ao longo do século XX como uma das principais fábricas de porcelana focadas na contemporaneidade e na proposta de formas e decorações inovadoras e de vanguarda.

 

Assim, iniciou o século, e o seu primeiro quartel, com uma produção, em particular a proveniente da sua secção de arte (kunstabteilung), que traduzia perfeitamente o zeitgeist, e encerrou-o, no seu último quartel, com as múltiplas propostas de diferentes formas e decorações congradas nas suas peças studio-linie.

 

Este artigo pretende ilustrar, pois, algumas das peças que traduzem a notável produção da Rosenthal quer no início do século XX quer no seu final.

 

 

Acima reproduz-se uma pequena caixa em porcelana, com cerca de 4,6 x 13 x 10 cm., apresentando sumptuosa decoração da série Indra, correspondente ao motivo 35, aqui aplicada sobre o formato número K597.

 

As séries Asra e Indra, ostentando uma peculiar estética Art Déco inquestionavelmente relacionada com os feéricos décors criados por Léon Bakst (1866-1924), e outros artistas, para os famosos Ballets Russes, foram concebidas pelo consagrado Kurt Wendler (1893-1980) e lançadas em 1919, na Feira da Primavera de Leipzig.

 

O desenho original para o motivo 35, neste mesmo formato, pode ver-se abaixo.

 

 

De seguida, apresenta-se uma jarra, com cerca de 16,8 cm. de altura, ostentando decoração floral, algo estilizada, ao gosto Art Déco.

 

A impressão de tridimensionalidade que emana desta decoração deve-se mais à técnica pictórica aplicada sob o vidrado, que parece sublinhar a pintura manual com alguns leves traços de aerógrafo, do que ao subtil relevo patente na pasta de porcelana.

 

Apesar de não ostentar a marca complementar correspondente aos anos de guerra,1914-1918, esta jarra apresenta a grafia "Kunst Abteilung" aplicada nas peças de 1918, o que, contrastando com a erupção cromática surgida em 1919 nas séries Asra e Indra, poderá explicar as tonalidades sóbrias e sombrias da sua decoração.

 

 

A mesma tendência para concentrar a decoração na base da jarra pode ser encontrada ainda num motivo datável de 1925, também de inspiração floral, embora mais estilizado e policromático – o D946, da fábrica belga Boch Frères / Keramis (http://mfls.blogs.sapo.pt/tag/boch+fr%C3%A8res) e numa peça muito posterior da própria Rosenthal, já de final da década de 1960, com um motivo concebido pelo artista plástico francês Alain Le Foll (1935-1981).

 

Conforme referido, o último quartel do século XX foi marcado pela produção das peças studio-linie, que veio ocupar parte do espaço anteriormente abrangido pela secção de arte (kunstabteilung). Estas peças foram criadas e decoradas por inúmeros designers consagrados, oriundos não apenas das predominantes escolas escandinava e italiana, mas também das escolas alemã, americana, francesa e neerlandesa, entre outras.

 

 

Embora a Rosenthal tenha comercializado várias peças no âmbito da influência escandinava e de algumas das suas figuras de proa, como Bjørn Wiinblad (1918-2006), Tapio Wirkkala (1915-1985) ou Timo Sarpaneva (1926-2006), a verdade é que na sua produção do último quartel do século XX se registou certa predominância de alguns nomes da escola italiana.

 

Nesse contexto, pode ver-se acima um castiçal intitulado Il Faro Torre "Pilsum", em edição numerada e limitada a 2.000 exemplares, concebido em 1994 por Aldo Rossi (1931-1997).

 

Esta peça foi concebida em cerâmica e cristal, servindo o corpo cerâmico como base para o copo de cristal do castiçal que, para receber a vela, deve ser invertido e novamente encaixado no corpo cerâmico.

 

 

Nas últimas décadas do século, contudo, um dos ícones da Rosenthal foi o conjunto de pires e chávena de café intitulado Espresso-Sammeltasse (comercializado no mundo anglófono como "Cupola Espresso Collector's Cups") modelado nos finais da década de 1980 pelo arquitecto e designer italiano Mario Bellini (n. 1935), formato que, no decurso dos anos seguintes, veio a ser decorado por dezenas de diferentes artistas.

 

Acima pode ver-se um desses exemplares, com uma decoração minimalista, de grande efeito, da autoria do também aclamado arquitecto e designer italiano Marcello Morandini (n. 1940; cf. http://www.morandinimarcello.com/it/home/).

 

Correspondendo ao número 12 da série Espresso-Sammeltasse, este exemplar apresenta ainda, no pires, o logótipo da Mostra Internacional de Design, MID 1991, promovida em Portugal pelo grupo empresarial Dimensão.

 

 

Mas na área da aproximação artística à criação de chávenas e pires, a Rosenthal atingiu a sua maior versatilidade e consagração na série Künstlertasse (denominada em Inglês como "Artists' Collector's Cups"), que apresentou dezenas de diferentes formatos concebidos e decorados por distintos artistas.

 

Apresenta-se acima um desses notáveis formatos, concebido pelo renomado designer, também italiano, Lino Sabattini (1925-2016), que, entre outros epítetos, aceitava ser conhecido como um "artesão sonhador" (http://linosabattini.com/).

 

Corresponde este conjunto à peça número 17 da série Künstlertasse.

 

 

 

De seguida, apresenta-se um açucareiro da linha Flash, concebida em 1982 por Dorothy Hafner (n. 1952; http://www.dorothyhafner.com) e comercializada a partir de 1984.

 

Característica do período pós-modernista no seu auge, esta linha traduz plenamente essa gramática, quer no formato quer na decoração, e representa talvez a mais famosa das criações desta designer americana.

 

Dorothy Hafner concebeu também a peça número 5, decorada apenas a preto e branco, da série Künstlertasse.

 

 

Finalmente, reproduzem-se um jarra, com cerca de 25,7 cm. de altura, e uma peculiar taça, com cerca de 11 x 20,4 e 12,2 de diâmetro máximo, apresentando formatos e motivos criados pelo consagrado artista e ceramista francês Gilbert Portanier (n. 1926; cf. http://www.gilbertportanier.com/.).

 

A decoração da jarra denomina-se Liguria, correspondendo a taça à peça número 15 da série Künstlertasse.

 

 

A encerrar, apresenta-se abaixo um registo diacrónico de marcas Rosenthal patentes em algumas das peças que se reproduzem neste artigo.

 

 

© MAFLS


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