Memórias e Arquivos da Fábrica de Loiça de Sacavém

Março 06 2011

 

Prato em faiança, da Fábrica de Louça das Devezas, em Vila Nova de Gaia, decorado com o motivo Águia, de inequívoca influência japonesa, estampado a cor-de-rosa sob o vidrado.

 

Fundada em 1884 por José Pereira Valente, esta fábrica não deve ser confundida com a Fábrica Cerâmica e de Fundição das Devezas, fundada em 1865 por António Almeida da Costa, embora Pereira Valente tivesse anteriormente trabalhado na empresa de Almeida da Costa.

 

Em 1904 esta empresa passou a adoptar a designação José Pereira Valente, Filhos, sociedade que se veio a dissolver em 1915, aquando da retirada de dois dos quatro herdeiros de José Pereira Valente. Nesse mesmo ano a empresa passou a designar-se Valente & Moreira, com a entrada de um novo accionista, Joaquim Moreira Gandra da Fonseca.

 

Apesar das sucessivas alterações na constituição da sociedade, com a saída de Júlio Pereira Valente, em 1918, e o falecimento de Feliciano Pereira Valente, em 1946, a empresa parece ter sobrevivido até à década de 1960.

 

A família Pereira Valente esteve ainda ligada à Fábrica do Cavaco, pois em 1 de Agosto de 1936 Luciano Pereira Valente constituiu sociedade com António Augusto Fragateiro Júnior e Manuel Rodrigues Ferreira da Costa para adquirir a fábrica, que ficou com um capital social de 15.000$00, equitativamente repartido pelos sócios.

 

Cerca de dois anos depois, em 28 de Novembro de 1938, Luciano Pereira Valente, que desempenhava as funções de gerente técnico, adquiriu a António Augusto Fragateiro Júnior a sua participação nessa empresa.

 

A peça aqui ilustrada pertencerá certamente aos dois primeiros períodos de produção da Fábrica de Louça das Devezas, sendo muito possivelmente do período de 1904-1915.

 

 

 A influência das artes decorativas japonesas que se estendeu à Europa durante o terceiro quartel do século XIX teve também larga expressão na cerâmica.

 

O prato de sobremesa, ou doce, em porcelana não marcada, reproduzido acima é disso exemplo. Pintado à mão, com esmalte em relevo, apresenta decoração muito semelhante àquela que Félix Bracquemond (1833-1914) desenvolveu cerca de 1875 para o famoso Service Parisien, da fábrica francesa Haviland.

 

A representação da maciça solidez do monte Fuji e do seu pico, em segundo plano, projecta por contraste um notável dinamismo à representação da vegetação e da folhagem agitada pelo vento, levando a nossa atenção a centrar-se no movimento da ave de rapina e das suas presas.

 

 

O motivo dinâmico da águia em pleno voo havia já sido consagrado numa famosa xilogravura japonesa do século XIX, mas manteve o seu impacto e simbolismo bem até ao século XX, como se comprova numa gravura de Ohara Shoson (1877-1945).

 

Reproduzida acima, esta imagem criada em 1933 homenageia claramente o seu antecessor e grande mestre da xilogravura japonesa, Utagawa Hiroshige (1797-1858), também conhecido como Ando Hiroshige ou Ichiyūsai Hiroshige.

 

Hiroshige criou diversos conjuntos de gravuras que marcaram a sua arte e consolidaram a sua fama, sendo as séries Famosas Vistas da Capital Oriental (1831), Cinquenta e Três Estações de Tōkaidō (1833-34), Trinta e Seis Vistas do Monte Fuji (1852-1858) e Cem Vistas de Famosos Lugares em Edo (1856-59; de parcial publicação póstuma) as que mais têm sido aclamadas no âmbito das suas gravuras panorâmicas.

  

 

Foi nesta última série que Hiroshige apresentou em 1858 a gravura Juman-tsubo [a planície Jumantsubo, em], Susaki, Fukagawa, posteriormente adaptada e parcialmente reproduzida pela Fábrica de Louça das Devezas.

 

Diversas gravuras desta série utilizam como recurso estilístico representações de pessoas, animais e objectos em primeiro plano, para destacar a paisagem de fundo, e há até uma outra – [A Ilha de] Mikawa, Kanasugi, Minowa, que apresenta um grou em voo picado.

 

No entanto, a hipnotizante composição e a sugestão de dinamismo que emana de Juman-tsubo consagraram-na como uma das mais representativas imagens de sempre da arte japonesa de xilogravura.

 

 

© MAFLS

publicado por blogdaruanove às 21:01

A decoração cerâmica tem histórias deveras universais.
Conceição
Anónimo a 9 de Março de 2011 às 21:10

A Fabrica Pereira Valente de Vila Nova de Gaia pertenceu aos meus Bisavós.
Fatima Baptista a 26 de Agosto de 2015 às 02:04

A fábrica de cerâmica das Devesas pertenceu à avó do Dr. David Rodrigues Valente Peres (40 anos), filho de António Valente Peres, último herdeiro da família de José Pereira Valente. Nos anos 60, uma gestão ruinosa leva a fábrica à falência, tendo os bens da família sido penhorados. A família mantém contudo a casa de Vila Nova de Gaia. O Dr. David Peres trabalha no hospital de São João e é sobejamente conhecido. O seu pai António Valente Peres poderá contar melhor do que eu a história desta fábrica, embora resista a fazê-lo por questões emocionais.
Maria Cabral a 14 de Julho de 2018 às 20:08

Boa tarde, Maria Cabral.

Agradeço os seus interessantes comentários sobre as particularidades e a história desta importante fábrica cerâmica.

Saudações.

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