Memórias e Arquivos da Fábrica de Loiça de Sacavém

Outubro 05 2011

 

Conforme é comummente referido nos catálogos e livros que tratam da história e da produção da porcelana na Vista Alegre, esta é a empresa cerâmica portuguesa que apresenta um dos mais claros registos cronológicos para a mudança de logótipo e marcas, uma vez que a mudança de administração é tradicionalmente acompanhada de mudança da marca que se apõe nas peças.

 

Estas breves notas debruçam-se sobre algumas marcas utilizadas entre 1922 e 1980 que, se exceptuarmos variantes, se resumem a quatro modelos e aos correspondentes períodos – 1922-1947, 1947-1968, 1968-1971 e 1971-1980.

 

Entre outras publicações, esta tabela encontra-se registada no livro Vista Alegre: Porcelanas (1989), de autoria colectiva, e no opúsculo Vista Alegre: Porcelanas Portuguesas (1998), de Ilda Arez (datas desconhecidas).

 

   Marca correspondente ao período 1924-1947.

 

Através da consulta dessa tabela, constata-se que a marca reproduzida acima correponde ao período de 1924 a 1947, sendo que a antecedente desta variante, em que, por exemplo, os traços horizontais que rematam a inicial V são mais curtos, havia sido introduzida em 1922 e esteve também em uso até 1947.

 

Neste primeiro exemplo, contudo, o interessante é que esta é a marca aposta no verso do cinzeiro, sob o vidrado, enquanto que a frente apresenta a marca e a data que se reproduzem. Tal como a filetagem, surgem a azul sobre o vidrado.

 

Será esta uma indicação de a nova marca ter sido apenas introduzida a 19 de Julho de 1948, uma segunda-feira? O facto de a nova marca surgir em destaque na peça sugere que a data celebra uma efeméride relativa à VA, muito possivelmente a da introdução do novo logótipo. Assim sendo, haveria lugar a um pequeno ajustamento na cronologia da referida tabela.

 

 

O segundo exemplo, patente numa peça experimental, apresenta a marca correspondente ao período 1947-1968 acompanhada de anotações referentes aos tempos de cozedura.

 

A marca VA surge sob o vidrado, bem como a referência e a data P. H. 19.7-54. Também o tempo de  cozedura de 20 minutos foi aposto, a azul, sob o vidrado, embora a indicação de cozedura adicional de mais 15 minutos tenha sido já aposta sobre o vidrado.

 

Esta peça, decorada a azul cobalto, sob o vidrado, e a dourado, sobre o vidrado, é um excelente exemplo do acompanhamento que a VA fazia do design da época.

 

Marca correspondente ao período 1947-1968.

 

De facto, este é um motivo que está muito próximo de outros motivos que então surgiram na cerâmica escandinava, particularmente em algumas peças desenhadas por Stig Lindberg (1916-1982; http://mfls.blogs.sapo.pt/63240.html), a partir da década de 1940, para a fábrica sueca Gustavsberg.

 

No entanto, esta peça da VA destaca-se dos desenhos florais de Lindberg pela maior elegância decorrente do tratamento singelo e harmonioso das formas vegetais e pela abordagem quase minimalista da composição.

 

Além de tudo isto, note-se ainda como a circularidade do rebordo está bastante imperfeita, traduzindo assim as características experimentais da peça.

 

          

 

O exemplo seguinte surge numa taça decorada integralmente sobre o vidrado, com um motivo mais uma vez próximo do gosto orientalizante que marcou durante décadas a produção da VA.

 

As romãzeiras, a representação das flores de maiores dimensões e a predominância em exclusivo dos tons de azul e dos retoques a dourado remetem claramente para essa gramática oriental.

 

Marca especial correspondente a 1974.

 

A marca aqui reproduzida corresponde à marca comemorativa dos 150 anos da VA, utilizada durante todo o ano de 1974.

 

Surge ainda a legenda complementar "1.° dia do lançamento / da nova marca / 2-1-74". Esta indicação "nova marca" refere-se exclusivamente à marca do centenário, pois uma versão quase igual deste logótipo, sem coroa de louros nem as datas 1824-1974, como se pode ver abaixo, havia sido já introduzida em 1971.

 

 

Finalmente, o último exemplo apresentado ilustra algo que aconteceu com frequência na década de 1970 – a aposição simultânea da marca VA e da marca SP.

 

Como referido anteriormente, a Sociedade de Porcelanas, de Coimbra, foi adquirida pela VA em 1945. No entanto, até à década de 1970 não era comum haver sobreposição das distintas marcas da fábrica de Coimbra e da fábrica de Ílhavo.

 

A peça apresenta a marca SP sob o vidrado, indicando portanto ser originária de Coimbra, e a marca VA sobre o vidrado, o que poderá indicar ter sido decorada em Ílhavo. Esta sobreposição é conhecida em peças com marca VA correspondentes quer a 1968-1971 quer a 1971-1980, quer ainda em peças exportadas nesse período para os EUA.

 

Esta decoração, de grande qualidade, aliás, embora não pintada à mão, como à primeira vista parece, poderá ter sido também destinada ao mercado de exportação.

 

   Marca correspondente ao período 1971-1980.

 

© MAFLS

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Outubro 02 2011

 

Prato com decoração estampada a preto, e posteriormente colorida, sob o vidrado. A cercadura a azul, que surge por cima de um rebordo com uma variante do formato espiga em relevo, foi aplicada sobre o vidrado.

 

A fábrica Cesol, Cerâmica de Souselas (Coimbra), foi fundada em 1947. No início da década de 1990 passou a integrar o grupo Apolo Cerâmicas, tendo as suas instalações sido deslocalizadas em 2004 para Aguada de Baixo, no concelho de Águeda. Em Fevereiro deste último ano a Apolo Cerâmicas passou a integrar o grupo CeramicApolo, que por sua vez veio a integrar-se na Aleluia Cerâmicas (http://www.aleluia.pt/) em 2006. 

 

A  existência de este formato na Cesol vem novamente levantar dúvidas sobre a empresa que efectivamente produziu um prato não marcado, com uma imagem do templo romano de Évora, anteriormente aqui reproduzido (http://mfls.blogs.sapo.pt/70160.html). 

 

Verificam-se, no entanto, duas diferenças entre esta peça e o prato não marcado – o prato Cesol é mais pesado e apresenta três círculos em relevo, na base (um junto ao rebordo e dois no centro), enquanto que o prato  não marcado apresenta apenas dois.

 

Deve-se notar, apesar de tudo, que este exemplar ilustrado com uma chinoiserie apresenta qualidade de decoração e acabamento superior àquela que habitualmente se encontra nas peças da Cesol, pelo que o pouco cuidado evidenciado no acabamento aerografado da cercadura do prato com a imagem de Évora se poderia enquadrar na tipologia de produção desta empresa.

 

 

© MAFLS

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Setembro 15 2011

          

 

Pote com tampa, formato Chinês, decorado com esmalte policromado e ouro, sobre o vidrado.

 

Esta peça corresponde ao pote com tampa formato "Chinez" do 1.º, referenciado sob o número 360 da tabela de Novembro de 1945, cujo preço é de 97$00 para "Colorido s/ ouro", 115$00 para "Colorido c/ ouro" e 230$00 para "Azul Sevres".

 

Este formato surge ainda na tabela de Maio de 1960, ao preço de 111$50 para "Branco colorido s/ ouro", 132$00 para "Vidros cores s/ dec. Branco col. c/ ouro Pint. mod. s/ ouro" e 264$00 para "Azul Sévres com ouro".

 

Segundo a cópia dessa tabela existente no CDMJA, esta peça tem 610 gramas de peso.

 

Um outro pote profusamente decorado a esmalte e ouro como este, mas de menores dimensões e com decoração floral mais próxima da gramática Art Déco, foi exibido na exposição Dar Sentido à Argila, Os Ateliês de Decoração na Fábrica da Loiça de Sacavém, realizada em 2007 no MCS.

 

O catálogo refere que essa era "uma peça com decoração única, que não foi comercializada", da autoria de Álvaro Mendes Alves (1905-1996).

 

 

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Setembro 05 2011

 

Açucareiro, a que falta a tampa, com decoração orientalizante estampada sob o vidrado.

 

As manchas que se observam no rebordo, na asa e no interior, correspondem a imperfeições da pasta que afloraram no vidrado. Note-se a aposição da marca Gilman Lda.

 

Duas chávenas com pires apresentando este motivo, mas sem marca nas chávenas, foram exibidas na exposição Porta Aberta às Memórias, segunda edição, realizada no MCS em 2009.

 

Esses exemplares apresentavam decoração policromada sobre o vidrado.

 

 

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Agosto 06 2011

 

Cachepot com decoração estampada sobre o vidrado.

 

Note-se a influência orientalizante da composição, quer na ave exótica quer nos motivos vegetais.

 

 

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Fevereiro 28 2010

 

Grande cinzeiro decorado com pintura manual e dourado sobre o vidrado.

 

Esta peça foi introduzida depois de 1951 e, embora não se encontre numerada, corresponderá ao número 572, "Cinzeiro formato Chinês", referenciado na tabela de Maio de 1960.

 

Aí surge ao preço de 60$00, para "Branco colorido s/ ouro", e 70$00, para "Vidros cores s/ dec. Branco col. c/ ouro Pint. mod. s/ ouro". No exemplar desta tabela existente no CDMJA indica-se o peso desta peça como sendo de 675 gramas, peso correspondente ao exemplar aqui reproduzido.

 

Conhecem-se exemplares desta peça com o vestuário em diversos outros tons – azul, verde, e amarelo, e decoração dourada distinta, bem como uma figura feminina complementar desta, que corresponderá ao número 590, com o vestuário em tons de amarelo. 

 

Uma lista dactilografada não datada existente no CDMJA, com uma relação de 86 trabalhos atribuídos a Leonel Cardoso (1898-1987) e apresentando o título manuscrito Relação de Outros Trabalhos [para além da série Bébé], refere esta figura sob o número 45, "Chinez (cinzeiro)", e a figura feminina sob o número 47, "Chineza (cinzeiro)".

 

Tal como acontece com a "Jarra Caçadores em relêvo n.º 4", apesar do custo da sua decoração esta peça aparece com alguma frequência nos antiquários.

 

 

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Janeiro 20 2010

 

Frasco para chá com decoração estampada e pintada à mão, a ouro e esmalte policromado.

 

Este frasco surge na tabela de preços para Loiças Decorativas em Faiança, de Novembro de 1945, com o número 102, sob a designação "Caixa para chá (moderna)", ao preço de 17$50 para "Colorido s/ ouro" e 22$00 para "Colorido c/ ouro". Na tabela de Maio de 1951 surge ao preço de 20$00 para "Côres Mates ou coloridos s/ ouro" e de 24$00 para "Coloridos c/ ouro". Na tabela de Maio de 1960 apresenta os mesmos preços.

 

No exemplar desta última tabela existente no CDMJA, o seu peso aparece indicado em nota manuscrita como sendo de 480 grs.

 

 

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Setembro 29 2009

 

Prato fundo com decoração estampada a  castanho, sob o vidrado, e pintura manual policromada, sobre o vidrado.

 

Embora este exemplar seja datável do início do século XX, ou mesmo do final da primeira metade desse século, a técnica de decorar sobre o vidrado as peças estampadas era comum em Inglaterra desde a primeira metade do século XIX, onde se denominava clobbering.

 

Evocativa do prestígio das famílias verde e rosa das porcelanas orientais, a pintura manual aqui ilustrada apresenta, contudo, uma aplicação rápida e descuidada, consequência clara de uma pintura manual semi-industrializada. 

 

O motivo da decoração central derivava também de outros motivos orientais extremamente populares no século XIX (cf. http://blogdaruaonze.blogs.sapo.pt/23504.html).

 

Veja-se outro exemplo de um frasco de chá produzido na FLS, com decoração orientalizante e clobbering, em http://blogdaruaonze.blogs.sapo.pt/31669.html.

 

 

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