Memórias e Arquivos da Fábrica de Loiça de Sacavém

Julho 01 2013

 

© MCS/CDMJA

 

O INÍCIO DE UMA CARREIRA NA FLS (XI) 

 

Um dos produtos que mais evidenciou a Sacavém, em particular a nível internacional, foi a loiça decorativa e, nesta área, a série de peças relacionadas com a Guerra Peninsular ou, como também são referidas, as Invasões Francesas, bem como as figuras equestres de cavaleiros medievais. O conjunto de peças da Guerra Peninsular era composto por figuras de oficiais e soldados, montados ou apeados, dos vários regimentos, quer dos exércitos britânicos e portugueses quer dos franceses.

 

Estas peças apenas eram vendidas nos espaços comerciais da empresa, ou seja, nas lojas de Lisboa, Porto e Coimbra. Não houve, contudo, grande procura em Portugal, pois as invasões haviam correspondido a um período de enorme sofrimento para o povo português, parecendo este não querer relembrar aquele período dramático da sua história através destas peças. A memória de tal sofrimento ainda hoje perdura no léxico, através de expressões como "ir tudo para o maneta", que alude aos saques perpetrados pelas tropas comandadas pelo general Loison (Louis Henri Loison, 1771-1816).

 

A nível internacional, no entanto, estas figuras foram muito apreciadas e ainda hoje são avidamente disputadas pelos coleccionadores quando algum exemplar aparece em leilões ou em lojas da especialidade, principalmente nos países anglo-saxónicos. Em Portugal, existem pelo menos três  museus onde se podem apreciar colecções destas estatuetas – o Museu Militar, em Lisboa, o Museu Militar, no Buçaco, e o Museu Leonel Trindade, em Torres Vedras (http://mfls.blogs.sapo.pt/tag/museu+municipal+leonel+trindade).

 

Curiosamente, a única colecção completa das figuras das Invasões Francesas, de que tenho conhecimento, encontra-se nos Estados Unidos, mais especificamente na posse de um director jubilado da Faculdade de História da Florida State University. Tive o privilégio de visitar esta colecção quando fui convidado a apresentar uma comunicação durante um congresso sobre o período napoleónico, que se realizou nessa universidade, sedeada em Tallahassee, capital da Flórida, em Janeiro de 2010.

 

De qualquer forma, penso que estas figuras, bem como as dos cavaleiros medievais, são consideradas pelo meio especializado como sendo das melhores no seu género até este momento, não só pela qualidade do fabrico e modelação, da autoria de Armando Mesquita (1907-1982), mas também pelas aturadas pesquisas realizadas, que se traduziram numa minuciosa e fiel reprodução quer dos uniformes quer da heráldica medieval.

 

Estas peças eram consideradas de grande prestígio, de tal forma que o Estado Português tinha o costume de as oferecer em visitas oficiais ou a personalidades importantes. Consta que uma delas foi oferecida ao marechal inglês Montgomery (Bernard Law Montgomery, 1887-1976), o qual já havia sido homenageado pela FLS na década de 1940 através de uma peça caricatural executada por Leonel Cardoso (1898-1987).

 

© Clive Gilbert

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Junho 03 2013

 

© ADLSB

 

O INÍCIO DE UMA CARREIRA NA FLS (X)


Uma vez que anteriormente já me referi aos dois irmãos Howorth ligados à FLS e à descendência do Barão Howorth de Sacavém, aproveito a oportunidade para reproduzir hoje um assento de baptismo relativo ao primeiro filho que o barão teve com Maria Margarida Pinto Bastos (1866-1936?), Henrique Anthony Stott Howorth (1891-1981):

 

"Aos sete dias do mês de Outubro do ano de mil oitocen- / tos noventa e um, n’esta igreja parochial de Santos-o-Velho, da / Cidade de Lisboa, baptizei solemnemente um individuo do / sexo masculino a quem dei o nome de Henrique Anthony, / que nasceu na freguesia da Pena d'esta Cidade, às onze / da noite de vinte e três de Agosto do mesmo anno, filho / illegitimo, primeiro do nome do Excellentissimo Barao Howor- / th de Sacavem, João  Stott Howort, casado, negociante na- / tural de Inglaterra, residente n'esta freguesia na Rua / de São Francisco de Paula e de Dona Maria Margarida / Pinto, solteira, baptizada na freguesia do Socorro n'esta / Cidade, e moradora na Rua de Santo Antonio  / dos Capuchos. Neto paterno de João Howorth e Maria / Howorth, e materno de Antonio Gonçalves Pinto Bastos e / Dona Margarida Pinto Bastos. Foram padrinhos os avós mater- / nos, moradores na mesma casa da Rua de Santo An- / tonio dos Capuchos. O pae d'este menino declarou na minha / presença e das testemunhas abaixo nomeadas e assignadas que / como tal se apresentava e assignava este termo, tendo em vis- / ta os efeitos do Codigo Civil nos seus artigos respectivos; e a mãe que o reconhecia como seu filho para todos os efeitos legais (?) / Serviram de testemunhas d'esta declaração José Eduardo / Anjos e João Carlos Martins, empregado n’esta Igreja. E para / constar se lavrou em duplicado este termo, que depois de / lido e conferido perante os paes padrinhos e testemunhas, / todos comigo assignaram. Era ut supra.

 

Barão de Howorth de Sacavem

Maria Margarida Pinto

Antonio Gonsalvez Pinto Bastos

Margarida Pinto

José Eduardo Anjos

João Carlos Martins

O Prior Domingos da Silva"

 

Nos averbamentos legíveis que surgem à margem, regista-se que Henrique Anthony casou em Lisboa com Maria Olívia Augusta Gomes d'Araújo (datas desconhecidas) no dia 11 de Fevereiro de 1915 e que o seu óbito ocorreu, também em Lisboa, na freguesia de S. José, a 19 de Janeiro de 1981.    

 

Regista-se ainda que deste assento de baptismo foi passada a cédula em 29 de Outubro de 1924. 

 

À margem dos averbamentos legíveis neste assento, acrescente-se que Henrique Anthony teve dois filhos deste casamento, António Henrique de Araújo Stott Howorth (n. 1915) e Maria de Lourdes Howorth (1917-1993), havendo notícia de posteriormente ter casado em segundas núpcias com Palmira Cardim (datas desconhecidas), de quem teve uma filha, Gastine Howorth, em 1920.

 

Agradeço ao dr. Carlos Pereira, do Museu de Cerâmica de Sacavém, a cedência da imagem do respectivo assento, cujo original se encontra no Arquivo Distrital de Lisboa.

 

© Clive Gilbert

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Maio 02 2013

© Clive Gilbert


O INÍCIO DE UMA CARREIRA NA FLS (IX)

 

Divagando de novo sobre o conteúdo de alguma documentação que possuo nos meus arquivos, passo a apresentar a tradução para português de uma carta cuja cópia encontrei recentemente.

 

Dirigida a um certo Robert, provavelmente Robert Hunter Reynolds (1820-1872), segundo consegui apurar (http://reynolds.com.es/Los Rey-PMont.htm), esta carta de William John Howorth (1823-1881) documenta bem quer a complexidade do sistema de venda de louça na primeira década de actividade da FLS quer o papel que o próprio William John, muitas vezes esquecido em função do estatuto atribuído a seu irmão John Stott, desempenhava nos primórdios da fábrica.

 

"Lisboa, 1 de Fevereiro de 1865

 128, Rua da Prata

 

Meu caro Robert,

 

Dado que ultimamente não o tenho visto, tomo agora a liberdade de lhe pedir o favor de me remeter o pagamento do envio de Louça [com maiúscula e em português no original] efectuado em 4 de Março de 1864 [no valor de] Rs. 16.490. Gostaria também que me remetesse a soma que possa ter apurado da Louça [idem] enviada à sua consignação. Caso ainda tenha alguma quantidade que possa ser vendida, ficaria muito grato se contactasse J. Luis Simões e lhe vendesse a Louça [idem]. Se ele não a aceitar, agradeceria que ma devolvesse.

 

Tenho um carregamento de carvão e argila a pagar, razão pela qual lhe faço este pedido.

 

Com os melhores cumprimentos para a sua família,

 

Deste seu

 

W. J. Howorth"

 

© Clive Gilbert

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Abril 02 2013

Herbert Gilbert fotografado cerca de 1900.

© Clive Gilbert


O INÍCIO DE UMA CARREIRA NA FLS (VIII)

 

Voltando aos meus primeiros tempos na Sacavém, que, como já referi, decorreram a partir de Julho de 1960, devo notar que passei esse período nos laboratórios da empresa, principalmente no dos ensaios físicos. Aqui eram ensaiadas diariamente amostras das três linhas de produção - loiça de mesa, sanitária, azulejo e mosaico, bem como amostras de cada remessa das várias matérias-primas que entravam, tanto das diversas pastas como dos vidros.

 

Este trabalho permitiu-me conhecer ao longo dos primeiros anos as várias linhas de produção da empresa numa altura importante, pois a Sacavém estava a investir em equipamento que permitisse não só melhorar a qualidade dos produtos como também melhorar a produtividade.

 

No entanto, este programa teve lugar numa altura em que o meu avô, como presidente do conselho de administração, já contava com mais de oitenta anos e com cinquenta e cinco anos de trabalho na empresa. Era um trabalhador incansável. Ia para Sacavém de manhã e durante a parte da tarde ia para os escritórios de Lisboa, por cima da loja da Avenida da Liberdade, onde se encontravam a Direcção Comercial e Compras e a Direcção Administrativa.

 

Para além de tudo isto, ao chegar a casa, no fim do dia, continuava a trabalhar até bem para além da meia-noite. Isto significava que ele é que controlava tudo na empresa. Até que um dia se esqueceu de encomendar uma remessa de barro e a fábrica esteve quase a parar a sua produção.

 

Com este contratempo, chegou à conclusão que não podia continuar a gerir a empresa daquela forma e ele próprio tomou a decisão de se reformar. Assim sendo, o conselho de administração resolveu chamar uma empresa francesa de organização, a Paul Planus, que durante vários meses trabalhou na Sacavém a montar um sistema que permitisse à empresa funcionar de uma forma mais descentralizada.

 

Entretanto, eu, já mais dentro dos vários processos de fabrico, comecei a reparar que as perdas na produção eram excessivamente elevadas, principalmente porque, devido às dificuldades existentes durante a Segunda Guerra Mundial em termos de importação de materiais acessórios à produção - tais como corantes ou placas refractárias para apoio no cozimento da loiça, a empresa se vira forçada a desenvolver por si própria muitos destes produtos. Mas estes não apresentavam a mesma qualidade do material importado, pois não detínhamos nem a técnica nem o equipamento especializado para o produzir.

 

A partir do momento em que começámos novamente a importar estes produtos, a melhoria na qualidade da loiça e azulejos foi notável, de tal forma que a Sacavém passou a fornecer loiça sanitária aos hotéis de luxo, que começaram a ser inaugurados no final da década de sessenta e o início da década de setenta, até porque foi possível começar a produzir a loiça na pasta vitrificada (vitreous china) exigida para este tipo de fornecimento.

 

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Março 01 2013

Herbert Gilbert fotografado cerca de 1900.

© Clive Gilbert

 

O INÍCIO DE UMA CARREIRA NA FLS (VII)

 

Já que no último texto falei do cemitério inglês, aproveito para continuar no mesmo tema. Aparentemente o barão Howorth, que, como escrevi, está sepultado em Lisboa, no Cemitério Inglês, à Estrela, teve duas relações extra-conjugais das quais resultaram diversos descendentes. Um deles tinha muita admiração pelo progenitor e quando estava já perto da morte pediu para ser sepultado junto do pai. No entanto, quer porque estivesse perante descendência ilegítima quer porque estivesse perante um não convertido, a igreja anglicana não achou bem esta ideia e recusou o pedido. O filho insistiu e a solução encontrada foi que ele ficasse na mesma sepultura, mas sem qualquer referência ao seu nome! Já agora, refira-se que o barão era homem de sólidas convicções, tendo na altura do Ultimato de 1890 ficado tão chocado com essa atitude do governo inglês que desistiu da nacionalidade inglesa e assumiu a portuguesa!

 

A informação sobre o filho ilegítimo do barão foi-me transmitida por uma conservadora do cemitério, a D. Adelina, que ali trabalhou até completar cem anos, após o que foi condecorada pela rainha Isabel II. Outra observação efectuada por ela veio ainda complementar aspectos do último texto, particularmente quando escrevi que o meu avô, já perto da morte, se converteu ao catolicismo. Havia ali, segundo a D. Adelina, uma pequena correcção a fazer. Sendo a minha avó Laura católica (e bastante beata!) como seria possível o meu pai ser protestante? Aparentemente o meu avô entendia que o meu pai e seu único filho, Leland, deveria ser baptizado como protestante. Sabendo que não valia a pena perder tempo a argumentar com a minha avó, decidiu, sem a avisar, levar o meu pai à igreja anglicana de S. Jorge, junto ao cemitério, onde o fez baptizar. Claro que a minha avó nunca o desculpou e, sessenta anos depois (ai estes Madeirenses!), não tendo esquecido a afronta, obrigou-o a converter-se…

 

Quanto à D. Adelina, contou-me também que o seu nascimento tinha sido o primeiro a ser registado em Viseu após a queda da monarquia. Contou-me ainda que, mais tarde, já crescida, o que ela e outros jovens da região gostavam de fazer era irem divertir-se a Aveiro!

 

Depois de mais este pequeno desvio, prometo que em breve voltarei com muito gosto a Sacavém, onde passei alguns dos melhores, bem como alguns dos piores, tempos da minha vida…

 

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Fevereiro 01 2013

Fotografia de John Stott Howorth existente no CDMJA.

© CDMJA / MCS

 

O INÍCIO DE UMA CARREIRA NA FLS (VI)

 

Antes de continuar a recordar as minhas primeiras experiências na Sacavém, lembrei-me agora de uma curiosa carta escrita por John Stott Howorth (1829-1893) em resposta a um pedido de emprego de um técnico ou operário cerâmico de Stoke-on-Trent, que passo a transcrever:

 

"4/2/1874

 

Dear Mr. Ellis,

 

Your letter to our late manager Mr. Barlow came duly to hand. I beg to inform you that, for the present, we do not require your services. All our workmen are natives. The English that have come out here have either gone home or have died out here, they could not keep off the drink and we are doing very well without them.

 

Yours sincerely,

 

(signed) John Stott Howorth"

 

ou seja:

 

"4/2/1874

 

Prezado sr. Ellis:

 

Recebemos, em devido tempo, a sua carta dirigida ao nosso falecido encarregado-geral, Sr. Barlow. Aproveito para o informar que, de momento, não necessitamos dos seus serviços. Todos os nossos trabalhadores são portugueses. Os ingleses que para cá vieram ou voltaram para casa ou então morreram por cá, não conseguiam manter-se afastados do álcool e estamos a dar-nos muito bem sem eles.

 

Atenciosamente,

 

Ass. John Stott Howorth"

 

O encarregado-geral John Barlow, que veio de Tunstall, Stoke-on-Trent, esteve à frente da actividade fabril da Sacavém entre 1861 e 1874 tendo morrido em Sacavém em Janeiro de 1874 (um mês portanto antes de esta carta ter sido escrita), sem que conste que tenha sido pelos defeitos que John Stott Howorth aponta aos seus compatriotas...

 

John Barlow está enterrado em Lisboa no Cemitério Inglês, à Estrela, perto da campa do Barão Howorth de Sacavém, seu patrão, e de James Gilman (1854-1921) e seu filho, Ralph Gilman (?-1935), futuros donos da empresa.

 

O proprietário que sucedeu a James e Ralph Gilman, Herbert Gilbert (1878-1962), está enterrado no cemitério de S. Martinho, no Funchal. Havendo casado com Laura de Moura Teixeira (1881-1962), filha do director do Hospital do Funchal, quando trabalhava na firma Blandy Brothers da Madeira, naquele que foi o seu primeiro emprego, converteu-se ao catolicismo pouco tempo antes de morrer, pelo que não foi possível sepultá-lo no cemitério inglês que era de denominação protestante.

 

Mais tarde, no entanto, esta situação alterou-se, pelo que hoje já é possível proceder-se à sepultura de católicos neste espaço.

 

[Agradece-se ao Centro de Documentação Manuel Joaquim Afonso / Museu de Cerâmica de Sacavém a cedência da imagem que ilustra este artigo.]

 

© Clive Gilbert

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Janeiro 02 2013

Caricatura de Clive Gilbert executada em 1967 por Leonel Cardoso (1898-1987).

Note-se o novo logótipo da FLS concebido por Clive Gilbert.


O INÍCIO DE UMA CARREIRA NA FLS (V)

 

A seguir à Segunda Guerra Mundial a Fábrica de Loiça de Sacavém decidiu fazer investimentos na área de produção, pois os custos directos de fabrico eram bastante elevados, especialmente no que dizia respeito à mão de obra. Optou-se por investir na renovação do equipamento e do sistema de cozimento tendo em consideração que os antigos fornos redondos intermitentes, semelhantes àquele que veio a ser preservado no Museu de Sacavém, para além de precisarem de muita mão de obra em certos períodos, como na altura da carga e descarga, não eram totalmente fiáveis.

 

Além disso, dependiam muito de uma constante e competente vigilância do forneiro que estivesse de serviço, particularmente em determinados períodos do aquecimento e do arrefecimento, que eram momentos críticos. Nessa altura a curva do cozimento tinha de ser mais lenta para permitir que a transformação da sílica na pasta decorresse sem problemas num período bastante sensível que, no caso de não ser devidamente acompanhado, resultaria em elevadas perdas na loiça, pois esta ficaria rachada.

 

Havia uma história que se contava sobre o Mestre John Barlow que dizia conseguir ele ver, a mais de cem metros de distância, se uma fornada de loiça tinha saído com poucas perdas ou se, pelo contrário, tinham havido muitas perdas por falta de controle do cozimento. Quem ouvia isto ficava espantado e perguntava como é que aquilo era possível. O Mestre repondia então que se houvesse muita gente à volta do forno ficava a saber que tinham havido poucas perdas. Se, pelo contrário, não estivesse lá ninguém era certo que o cozimento tinha sido um desastre!

 

Assim, no final da década de 1940, a administração resolveu adquirir em Itália fornos eléctricos contínuos de rolos, para aproveitar o baixo custo da energia eléctrica na altura. Contudo, estes fornos apresentavam uma desvantagem pois, durante o cozimento, os azulejos tinham de ser transportados em placas refractrárias importadas, que eram muito caras.


A solução encontrada foi a de aplicar a experiência adquirida ao longo da segunda Guerra Mundial, durante a qual era impossível importar produtos complementares deste género para o fabrico de loiça. Nesse período, até o ministro Duarte Pacheco (1900-1943) intercedeu junto da FLS para que parte das suas reservas de lenha seca, destinadas aos fornos intermitentes redondos, fosse cedida a terceiros, uma vez que era praticamente impossível importar carvão!


Na altura da guerra os técnicos da Sacavém foram obrigados a puxar pela cabeça e a produzir, ou procurar internamente, eles próprios, muitos destes produtos ou matérias primas. Anos depois, assim foi no caso das placas cerâmicas para os azulejos! 

 

Mais tarde viriam a adquirir-se fornos túneis para o cozimento da loiça de mesa e da loiça sanitária, para substituir aquele que já existia desde 1912 (cf. http://mfls.blogs.sapo.pt/58149.html). Obsoleto, quer quanto ao consumo de energia, quer quanto à fiabilidade de cozimento, ainda chegou a ser transformado por duas vezes, primeiro para cozer a gás pobre e mais tarde a gás propano.

 

É este um assunto que voltarei a tratar posteriormente.


© Clive Gilbert

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Dezembro 03 2012

Caricatura de Clive Gilbert executada em 1967 por Leonel Cardoso (1898-1987).

Note-se o novo logótipo da FLS concebido por Clive Gilbert.

 

O INÍCIO DE UMA CARREIRA NA FLS (IV) 

 

Para complementar os apoios sociais já referidos, existiu na fábrica, durante as décadas de 1930 e 1940, uma vacaria, pois havia a ideia de que o leite então disponível no mercado era, em grande parte, adulterado. Assim, a qualidade do leite disponível para o pessoal da empresa ficava assegurada. Junto às vacas havia uma cocheira com algumas mulas, que puxavam uns vagões sobre carris pelos arruamentos principais da fábrica. Estes vagões transportavam matérias-primas e outro material necessário em vários locais ou dependências da fábrica. O mais curioso era que, todos os dias, logo que tocava a sirene ao meio-dia para indicar a hora do almoço, as mulas recusavam-se a continuar a trabalhar e voltavam para a cocheira! Sem sequer acabarem o trabalho que tinham iniciado. Ao fim do dia acontecia exactamente a mesma coisa!

 

Alguns funcionários mais maliciosos comentavam que até parecia haver um sindicato das mulas na FLS! Estes comentários sibilinos estabeleciam contraponto com uma organização activa na empresa, que havia sido encorajada por Herbert Gilbert – o sindicato dos trabalhadores da indústria cerâmica, cuja primeira sede foi dentro da própria fábrica.

 

Continuando a referir os aspectos sociais, para além da vacaria havia uma horta, perto das moradias, que fornecia a cantina. A empresa tinha também o seu próprio corpo de bombeiros, pois os meios da corporação que nessa altura existia em Sacavém não se revelavam suficientes para acudir a um eventual incêndio industrial de grandes proporções.

 

Como não haviam grandes actividades fora das horas do trabalho, a empresa tinha um campo de jogos para a prática de futebol, hóquei em patins, basquetebol, atletismo, e outras modalidades. Ainda antes desta época, a empresa tinha já a sua equipa de futebol que, em 1909, jogou contra o S. L. Benfica. O resultado desse encontro foi de 1-0 a favor do Benfica.

 

Pouco tempo depois de eu começar a trabalhar na Sacavém, em Julho de 1960, fui convidado a candidatar-me a presidente do Grupo Desportivo da Fábrica de Loiça de Sacavém. Fui eleito (claro, aquilo só dava trabalho que não era pago!) e escolhi a minha equipe para a direcção. Qual não foi o meu espanto quando fui informado que teria de mandar a lista para a P.I.D.E., a fim de todos os membros da lista serem aprovados!

 

Uma das particularidades de que me apercebi quando fui acompanhar jogos da nossa equipa, que na altura participava no campeonato da F.N.A.T. (Fundação Nacional para a Alegria no Trabalho, instituída em 1935), era que os jogos normalmente acabavam em pancadaria, com vários jogadores de ambas as partes a serem expulsos! Como resultado resolvemos acabar com a prática do futebol na FLS e aplicar a verba destinada a esta área (cerca de 100.000$00 escudos por época, o que na altura era um valor bastante elevado) para fins sociais. Essencialmente, garantindo empréstimos ou donativos aos trabalhadores mais carenciados. O funcionamento deste serviço foi entregue à assistente social da empresa. Tudo corria muito bem, mas ao fim de algum tempo notámos que os "clientes" eram sempre os mesmos pois aqueles que realmente precisavam de apoio tinham vergonha de o pedir…

 

O mais engraçado, no meio disto tudo, é que houve um caso de uma trabalhadora que tinha pedido um empréstimo e que um dia veio entregar a verba em dívida, despedindo-se da empresa na mesma altura. Viemos a saber mais tarde que ela tinha uma casa da má fama em Moscavide. Consta que, certo dia, um cliente, não tendo dinheiro para pagar o serviço prestado, lhe deu uma cautela da lotaria. Claro que já se está a ver o que veio a acontecer... A trabalhadora acabou por ganhar uma pequena fortuna!

 

© Clive Gilbert

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Novembro 01 2012

 

O INÍCIO DE UMA CARREIRA NA FLS (III)

 

Tendo concluído os meus estudos em Stoke-on-Trent, no verão de 1960, planeei um regresso a Portugal juntamente com um amigo e colega de curso, no carro dele, por forma a aproveitar a viagem visitando fábricas de cerâmica. Assim, decidimos escrever a empresas da Holanda (Sphinx), Alemanha e Luxemburgo (Villeroy & Boch), Suíça (Laufen), Itália (Gibertini) e Espanha (Roca), solicitando autorização para visitar as suas instalações e conhecer os seus meios de produção.

 

Todas as empresas foram impecáveis e convidaram-nos para as visitar quando quiséssemos. Foi uma óptima oportunidade para comparar processos de produção diferentes daqueles que estávamos acostumados a ver em Inglaterra, tudo isto em relação ao fabrico de loiça sanitária, loiça de mesa, azulejos e mosaicos, bem como tijolos e telhas. A viagem foi extraordinariamente interessante pois aprendemos muito, para além de conhecermos uma boa parte da Europa, ou seja, foram dois coelhos de uma só cajadada!

 

De regresso a Portugal, iniciei a minha carreira na Divisão Técnica da FLS, supervisionada na altura pelo extraordinário João de Sousa, filho de José de Sousa, o primeiro Encarregado Geral português da Fábrica de Loiça de Sacavém. O João de Sousa, que tirou o mesmo curso que eu em Stoke-on-Trent, nos anos 30, habitou toda a sua vida dentro da fábrica, pois a empresa disponibilizava meia dúzia de moradias na parte alta dos seus terrenos para os técnicos ou quadros indispensáveis a que tudo corresse bem no dia-a-dia.

 

Uma das razões, se não a principal, para a existência destas casas devia-se ao facto de Sacavém, na época, não ter infra-estruturas que assegurassem rápida ligação a Lisboa, ou a outras localidades - a estrada era péssima e os transportes públicos regulares, com excepção dos comboios, quase não existiam.

 

Quem vivia dentro dos muros da empresa eram o Encarregado Geral, o Director da Produção, o Director dos Recursos Humanos, o Chefe dos Fornos, o Chefe dos Electricistas e o Director Técnico. As casas foram construídas pelo pessoal da Secção dos Pedreiros, sendo o projecto das últimas quatro da autoria de Leonardo (Rey Colaço) Castro Freire (1917-1970), arquitecto que veio a ser distinguido com o prémio Valmor em 1970.

 

Para além destes aspectos, a Sacavém foi pioneira numa política social inovadora, pois o Estado, nos anos 20 e 30, pouco fazia pelos trabalhadores em termos sociais. Assim, o meu avô Herbert Gilbert (1878-1962) lançou nessa época os seguintes serviços de apoio:

 

● Cantina subsidiada (poucas empresas nessa altura tinham cantinas).

● Creche para as crianças do pessoal

● Subsídio de férias e férias junto ao mar para todas os trabalhadores (casas alugadas em S. Martinho do Porto, Ericeira, e outros locais)

● Médico da empresa

● Suplemento da reforma

● Aulas de ginástica para os mais novos dentro do horário de trabalho

 

Mais tarde, a empresa foi das primeiras em Portugal a introduzir a semana inglesa (trabalho durante cinco dias e meio, em vez de seis) e, já nos anos sessenta, a semana americana (trabalho durante cinco dias).

 

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Outubro 02 2012

 

O INÍCIO DE UMA CARREIRA NA FLS (II)

 

Iniciei os meus estudos em matéria cerâmica no então denominado North Staffordshire Technical College (hoje, North Staffordshire University), em Stoke-on-Trent, em Setembro de 1956.

 

Os cursos estavam divididos entre Barro Branco e Barro Vermelho e, em princípio, tinham a duração de três anos. O ano escolar, por sua vez, estava dividido em dois períodos (de Setembro a Abril, para a teoria, e de Maio a Agosto, para a prática). Neste último período o estudante tratava de arranjar o seu estágio numa fábrica, em Inglaterra ou no estrangeiro, podendo o NSTC encarregar-se disso caso ele não o conseguisse.

 

O primeiro ano foi essencialmente bastante básico, abordando, em termos de Física e Química, matéria tratada no antigo 7.º ano do secundário. Era um ano comum aos estudantes de Barro Branco e de Barro Vermelho.

 

Por sua vez, o segundo ano já era mais especializado em termos da área cerâmica que cada qual tinha escolhido. No meu caso era o Barro Branco, tratando portanto de áreas que lhe estavam directamente ligadas – vidros, corantes, moldes, madres, e outros aspectos técnicos.

 

Finalmente, o terceiro ano era ainda mais especializado e incluía outros aspectos práticos desenvolvidos nas fábricas de Stoke. Lembro-me, por exemplo, que fui o primeiro aluno a produzir uma sanita, do princípio ao fim, na fábrica Royal Doulton. Enchi e despejei o molde, tirei a peça do molde, acabei-a, coloquei-a no secador, vidrei-a, coloquei-a e tirei-a do forno antes de fazer a escolha. Hoje a peça faz parte da colecção do museu da Universidade.

 

No curso, o mais surpreendente era o facto de a matéria continuar a ser exactamente igual há mais de vinte anos. Curiosamente, o Director do Departamento Técnico da FLS era o João de Sousa, filho do Mestre José de Sousa, o primeiro português a ocupar este lugar depois dos ingleses Barlow, pai e filho. O João de Sousa tinha estudado em Stoke nos anos 30, pelo que pude comparar os meus apontamentos com os dele. Eram praticamente iguais!

 

Algo de ainda mais extraordinário ocorria nos estudos relativos ao cozimento. Aqui, noventa por cento da matéria era dedicada aos fornos intermitentes redondos e apenas o muito pouco que restava aos fornos-túneis, que já eram norma em grande parte das empresas. Quanto aos fornos de rolos para azulejos, que já existiam na Sacavém, nenhuma referência! Quando levantei a questão responderam que ainda não estavam suficientemente testados nem dados como fiáveis! Estou convencido que lá no NSTC ainda nem sequer tinham ouvido falar deles!

 

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