Memórias e Arquivos da Fábrica de Loiça de Sacavém

Outubro 10 2013

 

O vazio desta fachada que, para os mais optimistas e bem-intencionados, poderia significar a remoção provisória de um revestimento azulejar para limpeza e restauro, documenta, afinal, mais um irreversível atentado contra a memória e o património azulejar do país.

 

Resta saber se, por incúria, ignorância, ou dolo intencional, o centenário painel produzido em 1912 na Fábrica de Loiça de Sacavém foi total e irremediavelmente destruído, como garantem alguns testemunhos, ou se terá sido velada, inescrupulosa e malevolamente retirado da fruição pública.

 

Vejam-se os artigos anteriormente publicados neste espaço sobre o desaparecido painel, e aquele que subsistiu, aqui: http://mfls.blogs.sapo.pt/tag/a.+dean.

 

Abaixo reproduz-se o artigo publicado sobre este assunto no jornal Diário de Notícias do passado dia 8 de Outubro de 2013, com uma imagem não creditada mas aparentemente retirada de um dos artigos publicados neste espaço.

 

No artigo daquele jornal deve corrigir-se a incorrecta afirmação de que o painel desaparecido denotava uma composição de influência chinesa, quando, entre diversas outras características, o kimono, o penteado e os kanzashi (http://blogdaruanove.blogs.sapo.pt/382122.html) comprovam inequivocamente ser esta uma composição reminiscente da tendência japonizante que, no ocidente, marcou a pintura e as artes decorativas das últimas três décadas do século XIX.

 

 

© MAFLS

 

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Março 06 2011

 

Prato em faiança, da Fábrica de Louça das Devezas, em Vila Nova de Gaia, decorado com o motivo Águia, de inequívoca influência japonesa, estampado a cor-de-rosa sob o vidrado.

 

Fundada em 1884 por José Pereira Valente, esta fábrica não deve ser confundida com a Fábrica Cerâmica e de Fundição das Devezas, fundada em 1865 por António Almeida da Costa, embora Pereira Valente tivesse anteriormente trabalhado na empresa de Almeida da Costa.

 

Em 1904 esta empresa passou a adoptar a designação José Pereira Valente, Filhos, sociedade que se veio a dissolver em 1915, aquando da retirada de dois dos quatro herdeiros de José Pereira Valente. Nesse mesmo ano a empresa passou a designar-se Valente & Moreira, com a entrada de um novo accionista, Joaquim Moreira Gandra da Fonseca.

 

Apesar das sucessivas alterações na constituição da sociedade, com a saída de Júlio Pereira Valente, em 1918, e o falecimento de Feliciano Pereira Valente, em 1946, a empresa parece ter sobrevivido até à década de 1960.

 

A família Pereira Valente esteve ainda ligada à Fábrica do Cavaco, pois em 1 de Agosto de 1936 Luciano Pereira Valente constituiu sociedade com António Augusto Fragateiro Júnior e Manuel Rodrigues Ferreira da Costa para adquirir a fábrica, que ficou com um capital social de 15.000$00, equitativamente repartido pelos sócios.

 

Cerca de dois anos depois, em 28 de Novembro de 1938, Luciano Pereira Valente, que desempenhava as funções de gerente técnico, adquiriu a António Augusto Fragateiro Júnior a sua participação nessa empresa.

 

A peça aqui ilustrada pertencerá certamente aos dois primeiros períodos de produção da Fábrica de Louça das Devezas, sendo muito possivelmente do período de 1904-1915.

 

 

 A influência das artes decorativas japonesas que se estendeu à Europa durante o terceiro quartel do século XIX teve também larga expressão na cerâmica.

 

O prato de sobremesa, ou doce, em porcelana não marcada, reproduzido acima é disso exemplo. Pintado à mão, com esmalte em relevo, apresenta decoração muito semelhante àquela que Félix Bracquemond (1833-1914) desenvolveu cerca de 1875 para o famoso Service Parisien, da fábrica francesa Haviland.

 

A representação da maciça solidez do monte Fuji e do seu pico, em segundo plano, projecta por contraste um notável dinamismo à representação da vegetação e da folhagem agitada pelo vento, levando a nossa atenção a centrar-se no movimento da ave de rapina e das suas presas.

 

 

O motivo dinâmico da águia em pleno voo havia já sido consagrado numa famosa xilogravura japonesa do século XIX, mas manteve o seu impacto e simbolismo bem até ao século XX, como se comprova numa gravura de Ohara Shoson (1877-1945).

 

Reproduzida acima, esta imagem criada em 1933 homenageia claramente o seu antecessor e grande mestre da xilogravura japonesa, Utagawa Hiroshige (1797-1858), também conhecido como Ando Hiroshige ou Ichiyūsai Hiroshige.

 

Hiroshige criou diversos conjuntos de gravuras que marcaram a sua arte e consolidaram a sua fama, sendo as séries Famosas Vistas da Capital Oriental (1831), Cinquenta e Três Estações de Tōkaidō (1833-34), Trinta e Seis Vistas do Monte Fuji (1852-1858) e Cem Vistas de Famosos Lugares em Edo (1856-59; de parcial publicação póstuma) as que mais têm sido aclamadas no âmbito das suas gravuras panorâmicas.

  

 

Foi nesta última série que Hiroshige apresentou em 1858 a gravura Juman-tsubo [a planície Jumantsubo, em], Susaki, Fukagawa, posteriormente adaptada e parcialmente reproduzida pela Fábrica de Louça das Devezas.

 

Diversas gravuras desta série utilizam como recurso estilístico representações de pessoas, animais e objectos em primeiro plano, para destacar a paisagem de fundo, e há até uma outra – [A Ilha de] Mikawa, Kanasugi, Minowa, que apresenta um grou em voo picado.

 

No entanto, a hipnotizante composição e a sugestão de dinamismo que emana de Juman-tsubo consagraram-na como uma das mais representativas imagens de sempre da arte japonesa de xilogravura.

 

 

© MAFLS

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Fevereiro 12 2011

  

Grande estatueta em cerâmica não vidrada, com cerca de 39,8 cm. de altura, produzida pela fábrica A Nova Decorativa, de Coimbra.

 

Note-se como esta figura de meados do século XX evoca ainda a tendência japonizante iniciada na Europa durante a segunda metade do século anterior. Essa influência, aliás, prolongara-se em Portugal durante décadas, consagrando-se particularmente na obra do escritor Wenceslau de Moraes (1854-1929).

 

 

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Janeiro 29 2011

 

 

 

Canjirão em pasta cerâmica vermelha, com decoração escorrida sob o vidrado.

 

Embora não ostente marca visível, apresenta as características de produção dos vidrados escorridos das Caldas da Rainha, sendo muito provavelmente uma peça da fábrica de Rafael Bordalo Pinheiro (1846-1905) ou da fábrica San Rafael, criada por seu filho Manuel Gustavo Pinheiro (1867-1920).

 

Note-se o pormenor orientalizante das curvas da tampa e da asa, que remetem para as traves ou os arcos dos portões japoneses, de tradição xintoísta, conhecidos como torii.

 

© MAFLS

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Setembro 12 2010

 

Leiteira formato Porto estampada a verde, sob o vidrado, com retoques a ouro, sobre o vidrado.

 

De acordo com a tabela de Setembro de 1949, este formato tem a capacidade de 4 decilitros. Ainda segundo a mesma tabela, produzia-se em branco e nas classes A (colorido sem ouro), B (colorido sem ouro) e C (colorido com ouro), com os seguintes preços – 7$00, 8$00, 9$00 e 11$00. A diferença de custo entre as classes A e B dever-se-ia, muito provavelmente, a uma maior ou menor intervenção manual na decoração.

 

Na tabela de 1938 este modelo apresentava-se apenas em duas classes – I (colorido sem ouro), a 4$90, e II (colorido com ouro), a 6$15. Uma nota de Fevereiro de 1945 dactilografada na capa do exemplar desta tabela que se encontra no CDMJA refere o seguinte:

 

" IMPORTANTE = Os preços constantes / de todas estas tabelas, estão sujeitos / aos seguintes aumentos: / NAS LOIÇAS SEM OURO = 10% +20 +10+10+10% / NAS LOIÇAS COM OURO= 10 +10% +20+10+10+10% / 7/2/45 "

 

Embora os açucareiros e bules deste formato se encontrem referidos na tabela de 1932, tal não acontece com as leiteiras.

 

 

© MAFLS

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Agosto 09 2010

 

Pormenor de um painel de azulejos, datado de 1912 e pertencente a uma antiga mercearia, existente no cruzamento da Avenida Visconde de Valmor com a Avenida 5 de Outubro, em Lisboa. Para além da pintura policromada sob o vidrado, este painel apresenta ainda retoques a dourado sobre o vidrado.

 

A figura feminina apresenta-se aqui a tocar um shamizen, instrumento musical japonês, de cordas, habitualmente associado à arte das gueixas.

 

Com a reabertura do Japão ao mundo ocidental, no início da década de 1850, uma nova tendência sucedeu à chinoiserie e se desenvolveu na Europa e na América, a qual passou a ser conhecida, também em Francês, como japonisme.

 

A consagração desta tendência deu-se durante as exposições universais de 1867 e 1878, e estendeu-se à pintura, marcando a obra de artistas como Claude Monet (1840-1926; cf., entre outras, a obra Madame Monet en costume japonais [1875]) e Vincent van Gogh (1853-1890). (Para a discussão de mais alguns aspectos desta tendência cf. http://blogdaruanove.blogs.sapo.pt/30564.html.)

 

Em 1860, na sequência daquela reabertura e a exemplo do que aconteceu com outras nações ocidentais, Portugal assinou com o Japão um Tratado de Paz, Amizade e Comércio.

 

 

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Junho 10 2010

 

Pormenor de um painel de azulejos, datado de 1912 e pertencente a uma antiga mercearia, existente no cruzamento da Avenida Visconde de Valmor com a Avenida 5 de Outubro, em Lisboa. Para além da pintura policromada sob o vidrado, este painel apresenta ainda retoques a dourado sobre o vidrado.

 

No CDMJA existe uma lista dactilografada pela secretaria-geral da FLS, intitulada ESTRANGEIROS QUE ESTIVERAM AO SERVIÇO DA FÁBRICA EM DIVERSOS SECTORES DE TRABALHO e datada de 5 de Abril de 1971, onde são enumerados sete pintores.

 

Surgem aí referenciados Taylor (datas desconhecidas, inglês, pintor sobre vidro), John Dean (datas desconhecidas, inglês, pintor sobre vidro), Jorge Colaço (1868-1942, marroquino, pintor de azulejos), Fabian Tomaz Lagore (datas desconhecidas, espanhol, pintor de azulejos), Bernard Gusgen (datas desconhecidas, alemão, pintor sobre vidro que trabalhou na fábrica entre 1924 e 1927), Wilhelm Wagner (datas desconhecidas, alemão, pintor sobre biscoito que trabalhou na fábrica entre 16 de Junho de 1928 e 1945), Karl Huber (datas desconhecidas, alemão, pintor sobre biscoito que trabalhou na fábrica entre 12 de Janeiro de 1932 e 31 de Agosto de 1969).

 

Muito provavelmente, o inglês John Dean aqui listado corresponderá a este A. Dean que assinou o painel.

 

 

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Novembro 01 2009

 

Prato com decoração de influência oriental estampada sob o vidrado. Apresenta ainda retoques a esmalte branco e decoração a dourado sobre o vidrado.

 

Notem-se as impurezas da pasta, particularmente visíveis no verso, que afloraram na superfície após a cozedura.

 

Notem-se ainda os traços ocidentais nos rostos das figuras que se apresentam em quimono.

 

 

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