Memórias e Arquivos da Fábrica de Loiça de Sacavém

Março 21 2014

 

Excerto de uma entrevista concedida ao jornalista José Cabrita Saraiva, e publicada na edição digital do semanário SOL no passado dia 19 de Março de 2014, pelo consagrado fotógrafo Eduardo Gageiro (n. 1935).

 

" (...) Foi precisamente aqui, na Fábrica de Loiça, que começou a trabalhar. O que fazia?

Andava de secção em secção a distribuir papéis. Depois comecei a escrever à máquina, a preencher facturas. Mas odiava números - e continuo a odiar. Tinha sempre fotografias na gaveta que coloria à mão. Aparecia o chefe atrás de mim e dizia: 'Isto não é uma loja de fotografia, é um escritório!'. Mas não foi assim tão negativo, porque passei a ter um contacto mais intenso com os operários e conheci uma série de artistas.

 

Que também trabalhavam na fábrica?

Sim. Comecei a relacionar-me especialmente com o Armando Mesquita. Era escultor e interessou-se por mim. Eu mostrava-lhe as fotografias, e um dia ele diz-me: 'Tens jeito, mas não percebes nada de composição. Tens de ir ao meu ateliê, que eu dou-te umas lições'. A primeira coisa que fez foi um rectângulo cheio de quadradinhos. 'Isto é a regra de ouro. O motivo principal tem de estar aqui, de preferência do lado direito, porque a vista tem tendência a ir para a direita'. E também foi ele que convenceu o meu pai a comprar-me a primeira máquina.

 

Como foi isso?

O Armando Mesquita chega lá um dia à hora do almoço e diz: 'Ó sr. Gageiro, então o sr. não tem vergonha? O seu filho anda aí a tirar fotografias com máquinas emprestadas!'. O meu pai ficou um bocado chateado e mandou-me saber o preço de uma máquina. Fui à J. C. Alvarez, onde comprava rolos para as máquinas dos outros, e o Amadeu Ferrari, que era pai do Nuno, disse-me: 'Tens aqui uma Rolleicord e uma Rolleiflex. A Rolleicord custa praticamente metade do preço'. E eu: 'Vou dizer ao meu pai quanto é'. 'Leva já a máquina'. Veja como teve confiança num puto de 16 ou 17 anos. E lá venho eu na camioneta da carreira a mudar as velocidades e as aberturas.

 

Lembra-se das primeiras fotografias que fez?

Estreei logo a máquina com retratos do Armando Mesquita. Fiz também uma fotografia muito rebuscada de uma prima minha e mandei-a para o primeiro concurso fotográfico de empregados de escritório do distrito de Lisboa. E não é que ganhei logo três prémios? Foi assim que começou a bola de neve.

 

 

Começou a trabalhar muito cedo. Como foi a sua infância?

Foi uma infância normal, não passei fome, nem pouco mais ou menos, mas os meus pais não tinham tempo para mim. Quem me criou praticamente foi uma tia que morava ali ao pé. Eu passava a vida ao colo dos velhos operários que chegavam ao fim da tarde para beber mais um copo, às vezes muito bêbedos, quase me deixavam cair.

 

Viveu toda a vida em Sacavém?

Nasci exactamente a 50 metros daqui, do lado de lá da estrada. O meu pai tinha uma casa de pasto onde os velhos operários iam com as marmitas para a minha mãe aquecer num fogão enorme. Almoçavam o que tinham trazido e consumiam uma pequena garrafa de vinho, aquilo a que se chamava um pirolito.

 

Passava muito tempo na casa de pasto?

Sim. Quando saía da fábrica ia para lá. Quando era mais crescido o meu pai punha-me no balcão a aviar. Aviava copos de três, como se dizia antigamente, e ao fim-de-semana fazia almoços.

 

Quando entra para os jornais?

Ir para os jornais era muito difícil porque havia uma máfia de maus fotógrafos que não deixavam ninguém entrar. Eram quatro ou cinco que trocavam fotografias entre si e tinham mais poder que os chefes de redacção. Eu tentei, mas não consegui. Entretanto um amigo de infância, o Mário Ventura, que estava no Diário Popular, organizava uns jantares com jornalistas e um dia convida-me para ir. Estavam lá os craques: o Urbano Carrasco, o Dr. Tavares Rodrigues, muitos. Ele apresenta-me e eu manifesto interesse em ir para os jornais. O Dr. Tavares Rodrigues diz-me: 'Apareça no Diário Ilustrado e leve fotografias suas'. Eu levei e ele gostou. 'Se quiser venha já amanhã'. E fui.

 

Que idade tinha?

Uns 20 anos.

 

Deixou o emprego na fábrica?

O meu pai queria bater-me porque eu tinha abandonado um emprego certo. E a minha mãe, coitadinha, dizia-me assim: 'Mas tu não tens necessidade de ser fotógrafo. Podes ser empregado de escritório'. (...) "

 

A entrevista pode ser lida, na íntegra, aqui: http://sol.sapo.pt/inicio/Cultura/Interior.aspx?content_id=101695.

 

© MAFLS

publicado por blogdaruanove às 21:01

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