Memórias e Arquivos da Fábrica de Loiça de Sacavém

Fevereiro 05 2012

 

Pequena jarra bulbosa em faiança da fábrica Bordalo Pinheiro, com cerca de 6,8 cm. de altura, decorada sob o vidrado e apresentando a escultura de um caranguejo aplicada em relevo.

 

Este é um formato comum na produção da fábrica, conhecendo-se peças semelhantes com maiores dimensões, nomeadamente com cerca de 8, 12 e 15 cm. de altura, mas sem a aplicação do caranguejo.

 

Pela data inscrita na base, 1908, vê-se que este é um exemplar produzido no ano em que a fábrica foi adquirida por Manuel Augusto Godinho Leal, embora ostente a marca de Rafael Bordalo Pinheiro (1846-1905) e seja característico da sua produção.

 

Como se sabe, o ceramista francês Bernard Palissy (1510-1590) celebrizou no século XVI a cerâmica com aplicações em relevo, entre as quais surgiam várias peças com motivos marinhos, criando imagens que foram posteriormente seguidas por vários centros cerâmicos europeus.

 

Já na China, durante o período Kangxi (1662-1722), os motivos com peixes e crustáceos surgiam com frequência nas características decorações pintadas a azul sobre o fundo branco da porcelana.

 

 

As artes japonesas, largamente difundidas no Ocidente durante as últimas quatro décadas do século XIX, vieram novamente avivar o interesse ocidental pelos motivos marinhos que surgiam profusamente nas mais pequenas peças do quotidiano japonês, como os okimono, os netsuke, as tsuba, bem como nas populares xilogravuras, quer em kakemono quer em surimono.

 

Esta pequena caixa japonesa, em bronze patinado com aplicações em latão, ilustra perfeitamente no exíguo espaço da sua tampa essa profusão de elementos marinhos – uma lagosta, uma amêijoa, um polvo, um caranguejo, três peixes e um mexilhão.

 

Em França, o consagrado ceramista Adrien Dalpayrat (1844-1910) criou também pequenas jarras ao gosto nipónico, com aplicação de crustáceos em relevo. Umas dessas peças, com uma sapateira (Cancer pagurus L.) aplicada sobre um vidrado vermelho de cobre, recorda o presente exemplar de Bordalo, salvaguardadas as devidas distâncias entre as qualidades e caraterísticas dos diferentes vidrados.

 

Ainda em França, no mesmo período, diferentes ceramistas, como Charles Greber (1853-1935), e diferentes fábricas, como a Denbac (cf. http://blogdaruanove.blogs.sapo.pt/tag/denbac e http://blogdaruaonze.blogs.sapo.pt/tag/denbac), produziram peças com crustáceos  e motivos marinhos aplicados em relevo, prática que também ocorria no resto da Europa e nos EUA.

 

Entretanto, em Portugal, os motivos marinhos aplicados em relevo vieram a tornar-se uma das imagens de marca da cerâmica das Caldas da Rainha, em geral, bem como das peças de Rafael e seu filho Manuel Gustavo Bordalo Pinheiro (1867-1920). 

 

Com a decoração desta pequena jarra estamos, portanto, perante uma imagem comum na cerâmica caldense e bordaliana.

 

 

Mas esta imagem vulgar ganha nova dimensão se recordarmos um dos desenhos de Manuel Gustavo publicado em A Paródia, número 30, de 8 de Agosto de 1900. 

 

Surgindo na primeira página da publicação, e incluído numa série de críticas às instituições e à situação do país, o desenho é acompanhado da legenda "O Progresso Nacional: o grande Caranguejo." 

 

Com este pano de fundo, a mordacidade crítica de Rafael e Manuel Gustavo não podem deixar de nos sugerir novas leituras das suas mais simples e, aparentemente, inócuas produções cerâmicas.

 

Vejam-se alguns desenhos destes autores nos seguintes espaços (as imagens truncadas podem ser visionadas na íntegra depois de guardadas): http://blogdaruanove.blogs.sapo.pt/?skip=10&tag=rafael+bordalo+pinheiro, http://blogdaruaonze.blogs.sapo.pt/tag/manuel+gustavo+bordalo+pinheiro, e http://blogdaruaonze.blogs.sapo.pt/tag/rafael+bordalo+pinheiro.

 

 

© MAFLS

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Abril 26 2011

 

Os dois volumes intitulados Notas sobre Portugal publicados por ocasião da Exposição Nacional do Rio de Janeiro em 1908 pretendiam apresentar ao longo das suas mais de 1200 páginas uma visão abrangente do país.

 

Ao longo das dezenas de capítulos, subcapítulos e mais de uma dezena de mapas, alguns apresentando características tão curiosas como o "indice cephalico medio" e o"indice nasal medio" da população portuguesa, surgem alguns parágrafos relativos às diversas indústrias nacionais.

 

De entre essa multiplicidade de inevitáveis caracterizações superficiais da indústria transcrevem-se os três parágrafos dedicados à cerâmica, constantes do capítulo intitulado A Evolução da Indústria Portuguesa:

 

"A ceramica aperfeiçoa-se. Funda-se em 1824 a fabrica de porcelana da Vista Alegre, e em 1856 a grande fabrica de pó de pedra, em Sacavem.

 

Começam a introduzir-se melhoramentos na ceramica de construcção, mas a faiança ordinaria continua as antigas tradições, e até as rusticas e originalissimas formas primitivas nos seus productos.

 

Algumas fabricas de Lisboa, como a das Janellas Verdes [Cerâmica Constância], em 1842 e a do Intendente [Viúva Lamego], em 1849, logram uma certa celebridade, mas não attingem as perfeições dos productos do Rato.",

 

Este incompletíssima caracterização da indústria cerâmica portuguesa, da autoria de J. de Oliveira Simões (datas desconhecidas), apresenta contudo um interessante pormenor - o facto de a data de 1856 ser já apontada em 1908 como a data efectiva de fundação da FLS, ao contrário da mítica data de 1850 que veio a ser posteriormente veiculada pela própria empresa.

 

Refira-se ainda que a FLS esteve representada nesta exposição, onde foi galardoada com um Grande Prémio, tal como se indica na primeira página do catálogo de Preços Correntes da Real Fabrica de Louça em Sacavém - Azulejo, de Agosto de 1910.

 

Edifíco complementar do Pavilhão de Portugal, que se pode observar à direita, dedicado às Belas-Artes.

 

© MAFLS

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Junho 20 2010

 

Azulejo com decoração moldada e vidrado monocromático. No tardoz apresenta a inscrição SACAVEM, em relevo.

 

Notem-se as observações registadas na correspondência da FLS, datáveis do primeiro trimestre de 1908 e transcritas no livro Fábrica de Louça de Sacavém (1997), de Ana Paula Assunção (n. 1957), sobre a peculiaridade do azul:

 

"Os azulejadores de Lisboa estão acostumados à diversidade que há nos tons de cor azul e por isso fazem a sua escolha na ocasião de colocar os azulejos, colocando-os de forma que um azulejo escuro não fique ao pé de um azulejo claro. É quase impossível evitar-se nuance do azulejo cor azul, é uma cor muito ingrata, basta uma leve diferença de temperatura nos fornos para que os azulejos sofram uma alteração de cor."

 

No caso dos azulejos monocromáticos moldados em relevo, um outro aspecto que pode contribuir para estas nuances é a própria espessura do vidrado, como se pode verificar numa análise comparativa dos vários exemplares conhecidos com este padrão.

 

 

© MAFLS

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