Memórias e Arquivos da Fábrica de Loiça de Sacavém

Fevereiro 18 2017

© Imagem Associação Turismo de Lisboa

 

Após catorze anos de encerramento, e muitos mais de abandono e desoladora degradação, foi hoje reaberto o Pavilhão Carlos Lopes, em Lisboa.

 

Agora sob a gestão da Associação Turismo de Lisboa (https://www.visitlisboa.com/pt-pt) este edifício com quase cem anos, que representou Portugal na Exposição Internacional do Rio de Janeiro, comemorativa do Centenário da Independência do Brasil, em 1922, teve uma recuperação integral que inclui o restauro dos magníficos painéis azulejares executados por Jorge Colaço (1868-1942) na Fábrica de Loiça de Sacavém.

 

Vejam-se alguns pormenores dos quatro painéis alegóricos – intitulados A Ala dos Namorados, Cruzeiro do Sul, Ourique e Sagres,  aqui: http://mfls.blogs.sapo.pt/tag/exposi%C3%A7%C3%A3o+internacional+rio+de+janeiro.

 

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Dezembro 27 2012

 

Tendo começado  a produzir cerâmica em 1748, em França, François Boch implantou uma fábrica no Luxemburgo, a partir de 1767. No século seguinte, em 1836, essa fábrica fundiu-se com uma outra de Nicolas Villeroy, dando origem à empresa Villeroy & Boch.  Afectada pela separação política e administrativa entre o Luxemburgo e a Bélgica, parte da família Boch implantou uma fábrica neste último país a partir de 1841. O local escolhido foi La Louvière, próximo da fronteira com o Luxemburgo, onde a fábrica se manteve até ao seu encerramento, já na segunda metade do século XX.

 

O nome Boch passou, assim, a ser partilhado por duas empresas – a fábrica Boch Frères / Keramis, na Bélgica, e a fábrica Villeroy & Boch, no Luxemburgo. Esta última empresa ainda se encontra em produção, embora a sua sede actual seja na Alemanha (http://www.villeroy-boch.com/).

 

A fábrica Boch Frères produziu ao longo do século XIX, com sucesso comercial,  diversa loiça utilitária e decorativa, mas foi a partir do início do século XX, com a chegada de Charles Catteau (1880-1966), que a empresa atingiu a consagração, marcando o design contemporâneo no estilo Art Nouveau e, particularmente, no estilo Art Déco.

 

Catteau foi engenheiro ceramista na École Nationale de Sèvres cerca de 1902 ou 1903, e decorador da fábrica de Sèvres entre 1903 e 1904. Teve ainda formação complementar na Königlich-Bayerische Porcellan-Manufaktur de Nymphenburg, na Alemanha, até 1906, ano que em passou a trabalhar para a Boch Frères / Keramis.

 

          

Capa do catálogo editado em 2001, por ocasião da exposição das peças da fábrica Boch Frères / Keramis doadas por Claire De Pauw e Marcel Stal à Fondation Roi Baudoin, Bruxelas, Bélgica.

 

Antes desta data colaborou ainda com a fábrica de Rambervillers, em França, onde assinou algumas peças de clara inspiração Art Nouveau. Já no âmbito do estilo Art Déco, desenhou a partir de 1927 diversos modelos em vidro para a fábrica belga Scailmont (cf. http://www.artdecoducentre.be/Scailmont.html).

 

Com a chegada de Catteau, as peças da BFK passaram a apresentar, entre outras opções estéticas e técnicas, desenhos pintados a esmalte sob vidrado uniforme, esmalte escorrido sob o vidrado, esmalte mate com fundo negro (a exemplo da cerâmica holandesa Gouda), esmalte monocromático com fundo craquelé e, o que constituiu imagem de marca da fábrica durante o período Art Déco, esmalte cloisonné sobre fundo craquelé, representando animais, flores ou formas vegetais estilizadas.

 

Inserindo-se nestas últimas características, a jarra em grés aqui reproduzida, com cerca de 15,4 cm. de altura, ostenta o motivo número 775, que foi concebido cerca de 1923.

 

A produção de cerâmica decorativa diversificou-se então, quer no formato das peças quer na sua decoração, vindo a fábrica a traduzir melhor do que anteriormente l'air du temps. Neste período, a produção de peças decorativas foi também desenvolvida em grés, aproximando-se algumas destas, pela sua contenção formal e pelo seu minimalismo decorativo, da gramática japonesa. 

 

Para outros exemplares Art Déco desta fábrica belga veja-se: http://blogdaruaonze.blogs.sapo.pt/tag/boch+fr%C3%A8res.

 

 

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Dezembro 18 2011

 

 

 

De acordo com o Diário do Govêrno, por escritura de 24 de Outubro de 1923, a FLS procedeu a um aumento do capital social de 500.000$00 para 1.000.000$00, sendo subscritos:

 

"135.000$00 por D. Elvira James Gilman,

 45.000$00 por Raúl Gilman, 

 100.000$00 por Herbert E. O. Gilbert,

 89.000$00 por D. Irene Gontha Ribeiro,

 125.000$00 por D. Eveline E. Howorth,

 1.000$00 por D. Ester Gilman de Carvalho,

 1.000$00 por D. Hermengarda Gilman de Carvalho, 

 1.000$00 por José Maria Pereira,

 1.000$00 por Guilherme Gilman,

 1.000$00 por Edgar Henry Hikie, e

 1.000$00 por José de Sousa"

 

As acções passaram a ser 10.000, com o valor de 100$00 cada.

 

Note-se como a posição de Herbert Gilbert (1878-1962), apesar de ter subscrito 20% deste aumento de capital, é ainda manifestamente minoritária na empresa, tendo embora ultrapassado já, largamente, a participação do mestre José de Sousa (cf. http://mfls.blogs.sapo.pt/57700.html e http://mfls.blogs.sapo.pt/58098.html).

 

Tal facto viria a ter nova alteração no aumento de 1924.

 

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Outubro 16 2010

 

Pormenor do painel Ourique, de Jorge Colaço (1868-1942), concluído em 15 de Julho de 1922.

 

Painel do Pavilhão Carlos Lopes evocativo da célebre Batalha de Ourique, travada entre cristãos e muçulmanos no ano de 1139 (cf. http://pt.wikipedia.org/wiki/Batalha_de_Ourique).

 

Jorge Colaço concebeu ainda um outro painel de azulejos alusivo a esta batalha, que se encontra no actual Centro Cultural Rodrigues de Faria, em Esposende, uma antiga escola escola primária inaugurada em 1934 e encerrada em 2001 (cf. http://pt.wikipedia.org/wiki/Centro_Cultural_Rodrigues_de_Faria).

 

Em ambos os painéis, note-se como um dos elementos centrais é a cruz que evoca a expressão In Hoc Signo Vinces e a suposta visão milagrosa testemunhada pelos cavaleiros cristãos, uma imagem que sincreticamente remete para episódio semelhante supostamente testemunhado pelo imperador Constantino (272-337) no ano de 312, antes da batalha (cf. http://pt.wikipedia.org/wiki/Batalha_da_Ponte_M%C3%ADlvio) em que derrotou o imperador Maxêncio (282-312).

 

 

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Outubro 06 2010

 

Pormenor do painel A Ala dos Namorados, de Jorge Colaço (1868-1942), concluído em 15 de Julho de 1922.

 

Painel do Pavilhão Carlos Lopes evocativo da famosa Ala dos Namorados, que  combateu na batalha de Aljubarrota (1385) e constituíu uma das alas na formação do quadrado (cf. http://www.fundacao-aljubarrota.pt/?idc=186). O episódio desta batalha é tratado por Luís de Camões (c. 1524-1580) no canto IV do seu poema épico Os Lusíadas (1572).

 

O denodo e voluntarismo dos cavaleiros portugueses que lutavam pela honra e por um ideal, e também pela sua dama, viria ainda a ser abordado e consagrado por Camões no canto VI do mesmo poema, onde se relatam as façanhas dos Doze de Inglaterra, alegadamente ocorridas no reinado de D. João I (1358-1433; rei, 1385-1433).

 

Em 1993 formou-se um grupo musical com o nome Ala dos Namorados: http://www.lastfm.pt/music/Ala+dos+Namorados/+videos/+1-OCQdP3LmUg8.

 

 

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Setembro 20 2010

 

 

Pormenor do painel Sagres, de Jorge Colaço (1868-1942), concluído em 31 de Julho de 1922. Note-se como no ângulo superior esquerdo surge no promontório uma figura serena, supostamente o Infante D. Henrique (1394-1460), que se sobrepõe à agitação de Poseidon / Neptuno e das restantes divindades marinhas.

 

© Google Earth / IGP/DGRF / Tele Atlas / Digital Globe

 

Situado à esquerda do observador, este é um dos quatro painéis que ornamentam a fachada principal do actualmente denominado Pavilhão Carlos Lopes, localizado na zona nascente do Parque Eduardo VII, em Lisboa. O revestimento azulejar estende-se também às colunatas e portas interiores, que se encontram agora entaipadas.

 

 

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Agosto 21 2010

 

Pormenor do painel Cruzeiro do Sul, de Jorge Colaço (1868-1942), concluído em 5 de Agosto de 1922. Note-se como a nau segue na água um reflexo que evoca a cruz latina, sugerida também pelo próprio Cruzeiro do Sul. Curiosamente, note-se ainda como as estrelas apresentam as seis pontas características da hebraica estrela de David.

 

Situado à direita do observador, este é um dos quatro painéis que ornamentam a fachada principal do actualmente denominado Pavilhão Carlos Lopes, localizado na zona nascente do Parque Eduardo VII, em Lisboa. O revestimento azulejar estende-se também às colunatas e portas interiores, que se encontram agora entaipadas.

 

Em adiantado estado de degradação, o edifício tem, desde há alguns anos, projecto para vir a ser recuperado e adaptado a  Museu Nacional do Desporto.

 

© Google Earth / IGP/DGRF / Tele Atlas / Digital Globe

 

Inicialmente, este edifício foi desenhado pelos arquitectos Guilherme Rebelo de Andrade (1891-1969), Carlos Rebelo de Andrade (1887-1971) e Alfredo Assunção Santos (datas desconhecidas) para funcionar como Pavilhão de Portugal na Exposição Internacional do Rio de Janeiro. Realizada entre 1922 e 1923, esta exposição comemorou o primeiro centenário da independência do Brasil.

 

Inaugurado em 1923, o conjunto foi entretanto desmontado, transferido para Portugal, e novamente reedificado no local onde hoje se encontra, sendo reinaugurado em 1932, no âmbito da Exposição Industrial Portuguesa. 

 

Devidamente adaptado, recebeu em 1947 o Campeonato do Mundo de Hóquei em Patins, onde Portugal se sagrou pela primeira vez campeão do mundo e acabou com a hegemonia de títulos da Inglaterra, que se prolongava desde o Campeonato da Europa de 1926.

 

 

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