Memórias e Arquivos da Fábrica de Loiça de Sacavém

Agosto 24 2011

 

     

 

 

"Entraram para a taverna, e o vendeiro acendeu a luz.

O Isidro foi direito ao balcão e, nos grandes jeitos de paz  ou guerra, propôs:

– Para não gastar mais água na boca, racha-se a diferença, quer?

A cabeça pitoresca do taverneiro torceu-se duas vezes na mesura dos lances aventurosos, esbeiçou os lábios, anuiu. Apressou-se o almocreve a selar o contrato com uma jura honrada de negociante:

– É por ser para quem é, negro eu seja se tiro um puto real!

Deitou-se num prato um fio de azeite para prova. A faiança coloriu-se de oiro, doirado ficou o cavaleiro verde na verde historiação dos oleiros. As pessoas que estavam molharam o dedo e levaram à língua. E, entre tantos de palato gozoso, só o homem das vacas, para agradar ao senhor da taverna, pôs pecha:

– Sempre lhe digo que o outro não era lá grande fazenda.

O Isidro, que havia ganho uns cobres, complacentemente respondeu:

– Este não há-de ser pior. Mas tomara eu ter a alma tão pura como era o outro."

 

Passagem retirada do conto À Hora de Vésperas, inserido no volume intitulado Jardim das Tormentas (1913), de Aquilino Ribeiro (1885-1963).

 

O referido "cavaleiro verde" alude indubitavelmente ao motivo Estátua (Cavalinho), comum quer na produção da FLS quer na de outras fábricas portuguesas (cf. http://mfls.blogs.sapo.pt/tag/motivo+est%C3%A1tua).

 

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Julho 21 2011

     

 

"D. Nicéforo Fernandes ocupava a cabeceira da mesa e, modo de honrar meu pai, sentando o Dr. Temudo à direita, sentou-me a mim logo à sua esquerda, antes dele. De modo que eu ouvia, quer quisesse quer não, espremendo-me quanto podia, o cavaco que iam entretecendo os dois. E para mim, que nunca tal pensara, esse cavaco, sem me alhear do arroz de cabidela e do peixe de barrica, que as vareiras traziam à feira de S. Mateus, servido ali à farta em travessas de Sacavém, enlodado de molhanga, foi banqueteando por sua vez a minha curiosidade."

 

Passagem retirada do romance Cinco Reis de Gente (1948), de Aquilino Ribeiro (1885-1963), cuja acção decorre na Beira Alta durante a última década do século XIX.

 

Ao longo deste romance, onde se efectua uma revisitação da infância do autor, Aquilino revela particular enlevo pela cerâmica, fazendo referências ao azul de Saxe, à figura de um cão em faiança, à cerâmica de Delft e à obra de Palissy.

 

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Maio 12 2011

 

                     

 

 

"O meio dia era a hora da maré alta na casa de hóspedes. Os pratos voavam nas mãos da Ervilha, embora aliviada da grande travessa que ia circulando fumegante de mão em mão, onde cada um tirava a pitança da lei. Os comensais entravam em regra muito curiais, fazendo ao geral uma leve vénia ou lançando o bom dia, pela rapidez e a mesura actos de superior urbanidade. Dirigiam-se à gaveta comum a tirar o guardanapo numerado, ou ao aparador, onde estava encarapuçando a garrafa, os que bebiam vinho. Depois dum olhar, certeiro de pontaria, ao assento devoluto, avançavam sôbre o talher. A Ervilha acercava-se solerte a limpar as migalhas para depois pôr o prato com o menos de estreloiçada possível. D. Flávia não suportava criadas caqueiras, e ao mais pequeno boucelado da sua rica louça fazia-lha substituir por nova. Não raro se abria subscrição entre os comensais para pagar uma terrina rachada de Sacavém. A conversa ia decorrendo em smorzo sôbre coisas e loisas até a chegada do Hermano Bexiga. Em género de agitador não havia como êste. Adquirira tal arte, porventura, no manejo da espátula e das baguettes de vidro com que anaçava os componentes viscosos e irreconciliáveis de electuários e colírios."

 

Parágrafo retirado do romance Lápides Partidas (1945), de Aquilino Ribeiro (1885-1963), cuja maior parte da acção decorre em Lisboa nos meses que imediatamente antecedem o regicídio (1 de Fevereiro de 1908).

 

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Abril 14 2011

 

 

 

Tabuleiro com a inscrição MARMELADA aplicada sobre stencil (chapa recortada) e decoração a verde com aerógrafo.

 

No exemplar da tabela de preços de Setembro de 1949 existente no CDMJA surge uma adenda manuscrita, sob a designação Tabuleiro pª. marmelada, que indica o seu preço, em branco, como sendo 10$00.

 

Este tabuleiro destinava-se a marmelada servida em pequenas fatias rectangulares, conhecidas como ladrilhos.

 

No norte de Portugal, com ou sem qualquer ligação intencional entre o formato do recipiente e a conotatividade das palavras que designam o doce e o fruto, a marmelada colocava-se tradicionalmente em tigelas, ou malgas, que eram depois cobertas com uma folha recortada de papel vegetal, por vezes embebida em aguardente.

 

Esta prática está também descrita numa passagem, que decorre em Lamego, do romance A Via Sinuosa (1918), de Aquilino Ribeiro (1885-1963):

 

"Ao papel de mirante de freira reunia a varanda o de despensa. Ahi pendurava D. Henriqueta as pinhas de peras amorins, de melapios, de maçãs que lhe expediam as almas boas do sertão, e punha em fileira geometrica as malgas de marmelada e os pires de compota, que uma hostia de papel protegia da poeira e das moscas. E, todas as manhãs, era seu primeiro cuidado contar a guloseima, não tivesse eu, a Amelia Violas, o gato, os ratos ou os vampiros commettido subtracção."

 

Ainda a propósito de um comentário aqui surgido anteriormente (http://mfls.blogs.sapo.pt/59683.html#comentarios), note-se neste contexto a ambiguidade da designação pires quanto à sua dimensão e às suas funções.

 

 

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