Memórias e Arquivos da Fábrica de Loiça de Sacavém

Junho 10 2010

 

Pormenor de um painel de azulejos, datado de 1912 e pertencente a uma antiga mercearia, existente no cruzamento da Avenida Visconde de Valmor com a Avenida 5 de Outubro, em Lisboa. Para além da pintura policromada sob o vidrado, este painel apresenta ainda retoques a dourado sobre o vidrado.

 

No CDMJA existe uma lista dactilografada pela secretaria-geral da FLS, intitulada ESTRANGEIROS QUE ESTIVERAM AO SERVIÇO DA FÁBRICA EM DIVERSOS SECTORES DE TRABALHO e datada de 5 de Abril de 1971, onde são enumerados sete pintores.

 

Surgem aí referenciados Taylor (datas desconhecidas, inglês, pintor sobre vidro), John Dean (datas desconhecidas, inglês, pintor sobre vidro), Jorge Colaço (1868-1942, marroquino, pintor de azulejos), Fabian Tomaz Lagore (datas desconhecidas, espanhol, pintor de azulejos), Bernard Gusgen (datas desconhecidas, alemão, pintor sobre vidro que trabalhou na fábrica entre 1924 e 1927), Wilhelm Wagner (datas desconhecidas, alemão, pintor sobre biscoito que trabalhou na fábrica entre 16 de Junho de 1928 e 1945), Karl Huber (datas desconhecidas, alemão, pintor sobre biscoito que trabalhou na fábrica entre 12 de Janeiro de 1932 e 31 de Agosto de 1969).

 

Muito provavelmente, o inglês John Dean aqui listado corresponderá a este A. Dean que assinou o painel.

 

 

© MAFLS

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Abril 25 2010

 

Diferente perspectiva de uma decoração a stencil (chapa recortada) em taça saladeira já reproduzida anteriormente (http://mfls.blogs.sapo.pt/40274.html).

 

A decoração radiante, evocativa da sol, das estrelas, da electricidade, e mesmo das vibrações sonoras e musicais, foi um tema recorrente ao longo do período Art Déco nas mais diversas áreas das artes decorativas e da arquitectura sendo, na cerâmica, comum a várias fábricas europeias e americanas.

 

Conforme referido em artigos anteriores, há notícia de técnicos provenientes da fábrica alemã Schramberg (SMF) terem vindo trabalhar, ocasionalmente ou em definitivo, para a FLS a partir da década de 1920. Terá sido esse o caso do abridor de chapas (stencil) Joseph Clemens (datas desconhecidas), que trabalhou na empresa entre 1926 e 1971.

 

Também de origem alemã eram o chefe forneiro Franz Altenbaumker (datas desconhecidas; trabalhou na FLS entre 1927 e 1936), o pintor sobre vidro Bernard Gusgen (datas desconhecidas; 1924-1927), o pintor sobre biscoito Karl Huber (datas desconhecidas; 1932-1969), o técnico de mosaicos Kortch (datas desconhecidas; 1924-1928) e o pintor sobre biscoito Wilhelm Wagner (datas desconhecidas; 1928-1945). Estes nomes constam de uma lista dactilografada elaborada pela secretaria-geral da fábrica em 5 de Abril de 1971, e actualmente depositada no CDMJA, pelo que é possível que a transcrição onomástica não seja completamente exacta.

 

 

A empresa de faiança Schramberger Majolika Fabrik empregou nas décadas de 1920 e 1930 diversos artistas que imprimiram um cunho de modernidade à sua produção, quer a nível das formas, muitas vezes influenciadas pelas linhas depuradas da Bauhaus, dos Construtivistas, dos Suprematistas e do movimento De Stijl, quer a nível da decoração, como exemplificado por este prato (pode ainda ver-se uma pequena jarra desse período da SMF aqui: http://mfls.blogs.sapo.pt/40059.html).

 

Entre os grandes designers que colaboraram com a fábrica conta-se a artista de origem húngara Eva Zeisel (nascida Eva Amalia Striker, ou Stricker, em 1906), a qual esteve na empresa desde 1928 até 1930, período em que criou mais de 200 formas e decorações para a SMF. Mudando-se para a União Soviética em 1932, colaborou com as célebres fábricas russas Lomonosov e Dulevo, vindo a ser nomeada directora artística da indústria de cerâmica e vidro da URSS em 1935. 

 

No ano seguinte, contudo, acabou por ser presa sob acusação de conspirar contra Estaline (1878-1953) e o Estado. Libertada em 1937, partiu para a Áustria, de aí para Inglaterra, onde casou em segundas núpcias com Hans Zeisel (datas desconhecidas), e posteriormente para os E.U.A., onde chegou em Outubro de 1938. Nesse país as suas competências técnicas e artísticas depressa contribuíram para que obtivesse emprego, vindo o reconhecimento do seu trabalho a proporcionar-lhe colaboração com diversas empresas cerâmicas, como a Castleton, a Hall China e a Red Wing, entre muitas outras. Aclamada ao longo de décadas, Eva Zeisel tem-se mantido activa como designer até à presente data.

 

Lucie Young, Eva Zeisel (2003).

 

Em Portugal o seu trabalho encontra-se representado através do canjirão "Machado", que a Vista Alegre produziu em porcelana a partir de 1938. Embora não se encontre assim creditado nos arquivos da VA (nos verbetes da fábrica, a única anotação manuscrita sobre os dados históricos da peça refere ter sido este modelo dado [sic] por Machado dos A.), o formato corresponde a uma peça criada por Zeisel para a SMF em 1929 ou 1930. Um exemplar deste canjirão da VA, com a inscrição "Recordação de Braga" e uma imagem do Santuário do Sameiro, foi exibido na exposição Portuguese Ceramics in the Art Deco Period, realizada em 2005 nos E.U.A.

 

Nos arquivos da VA encontra-se ainda o registo de uma cafeteira, "Primavera", e respectivo serviço complementar, produzida a partir de 1961, cuja autoria é atribuída a "Mme. Stricker" [sic]. O seu perfil não corresponde às formas curvilíneas e arredondadas que predominam nas peças de Eva Zeisel, mas é possível que este serviço seja de sua autoria, pois Zeisel voltou a colaborar com diversas fábricas europeias, entre as quais a Rosenthal, a partir de 1958.

 

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