Memórias e Arquivos da Fábrica de Loiça de Sacavém

Abril 18 2015

 

Cinzeiro quadrado em faiança fina de Viana, com cerca de 12 cm. de lado, produzido pela empresa Campos & Filhos e apresentando motivo pintado à mão com complementos a ouro. Na base, sob a marca, ostenta a assinatura, manuscrita, A. J. Ferreira e a data 1952.

 

Esta assinatura corresponde a António Joaquim Ferreira (n. 1925), que chegara à fábrica no início daquela década, onde passou a colaborar na secção artística, e viria a adoptar a assinatura António Joaquim nas telas que, inicialmente ainda em paralelo com a sua actividade na empresa, passaria a pintar e expôr com frequência a partir da década de 1960 (https://www.youtube.com/watch?v=fxwOKg8n3Ts).

 

Note-se como a opção monocromática aqui patente se afasta completamente da tradição policromática da produção vianense dos séculos anteriores  –  onde o morado, ou vinoso, única tonalidade que se aproxima desta, surgia pontualmente, e não reflecte aquela que hoje se identifica como sendo a opção monocromática, azul, característica das mais recentes décadas de produção da louça de Viana. 

 

   António Joaquim Ferreira em 2010.

 

Fundada em 1774, e laborando já no ano seguinte, a primitiva fábrica de Viana viria a encerrar em 1855. Matos Reis, na já referida obra A Louça de Viana (2003), estabelece três períodos para a sua produção – 1774-1793, 1793-1829 e 1829-1855, períodos que se caracterizaram quer pela produção de faianças decoradas exclusivamente a azul, e menos frequentemente a morado, quer por outras combinações cromáticas onde predominavam o amarelo, o azul, o laranja, o morado e o verde.

 

Ainda a propósito da obra de Matos Reis, refira-se que o deslize patente na sua inacreditável e injustificável afirmação – "A produção de porcelana inicia-se em Sacavém por volta de 1830 e, sob a direcção de James Gilman, atinge a perfeição nos meados do século", não deve deixar-nos desconfiados sobre todos os restantes conteúdos de uma obra que, na generalidade, se apresenta como fidedigna e fundamental para a historiografia da cerâmica de Viana e do Minho.

 

A produção de louça artística, decorativa e doméstica viria a ser retomada industrialmente, por entre algumas tentativas malogradas, em finais da década de 1940, período de que se conhecem algumas peças em faiança, nomeadamente jarras moldadas, com a marca manuscrita, a preto, L. V. Viana.

 

Mas seria a partir de 1948, com a empresa Campos & Filhos, de Aveiro, e com a sua produção, nas instalações da Meadela, desta pasta de faiança fina, um grés feldspático não poroso, que a louça de Viana viria a reconquistar o seu anterior prestígio e a manter um nível de qualidade que perdurou até final do século XX e ainda hoje, apesar dos diversos percalços empresariais, produtivos, e comerciais, preserva a sua aura.

 

  Guido Andlovitz

 

Finalmente, note-se ainda como a cor escolhida para este cinzeiro se aproxima de outra opção monocromática já aqui ilustrada num frasco de chá produzido pela Artibus (http://mfls.blogs.sapo.pt/144303.html) e o motivo, lembrando os innamorati não mascarados da Commedia dell'Arte, apresenta uma gramática semelhante à que Guido Andlovitz (1900-1971) desenvolveu, entre 1923 e 1961, para algumas das suas criações e representações humanas na Società Ceramica Italiana di Laveno.

 

Como se sabe, a Vista Alegre lançou para as suas peças em porcelana, ainda na década de 1990, uma decoração denominada Viana (http://myvistaalegre.com/pt/viana-dinner-set-70-pieces-pf024350-pt), que celebra o amarelo e o azul como as cores por excelência da produção vianense, embora na mesma época tenha utilizado também esta combinação cromática no motivo Castelo Branco (http://myvistaalegre.com/pt/castelo-branco-servico-mesa-70-pecas-pf057801-pt).

 

 

© MAFLS

publicado por blogdaruanove às 21:01

Janeiro 22 2012

 

Grupo escultural em porcelana dourada e pintada à mão, da fábrica Artibus, Aveiro, com cerca de 17,7 cm. de altura.

 

Conforme aqui foi referido anteriormente (http://mfls.blogs.sapo.pt/12467.html), a Artibus produziu cerâmicas de alta qualidade, quer quanto à pintura quer quanto à modelação, sendo esta peça paradigmática dessa sua excelente execução.

 

Como se pode verificar abaixo, o logótipo da empresa pretende sugerir o da VA, através da haste levantada no início do A e da consequente sugestão de um pequeno v a anteceder essa letra, certamente não apenas porque alguns dos seus técnicos eram daí oriundos mas também pelo prestígio associado a essa marca.

 

De acordo com o Diário do Governo, a Artibus foi estabelecida por escritura pública de 11 de Abril de 1947, embora o início da sociedade ficasse registado nesse mesmo documento como tendo ocorrido a 1 de Janeiro desse ano.

 

O seu capital social inicial era de 400.000$00, distribuído pelas seguintes quotas: Hernâni Henriques Salgueiro com 150.000$00; José Maria Vilarinho com 150.000$00; e Carlos Alberto Pinto da Mota com 100.000$00.

 

Este último sócio, Carlos Alberto Pinto da Mota, assumiu o cargo de gerente técnico da fábrica.

 

 

     

Frasco de chá, a que falta a tampa, dourado e pintado à mão. 

Esta figura feminina, evocativa dos Ballets Russes, de Diaghilev (Sergei Pavlovich Diaghilev, 1872-1929), surgia já numa pequena jarra, datável de 1928-1930, decorada por Guido Andlovitz (1900-1971) para a empresa Società Ceramica Italiana di Laveno, como se pode verificar na página 37 do livro Artes Decorativas do Século XX: Art Déco (1990), de Carla Cerutti (n. 1955).

   

             

A 31 de Outubro de 1949 uma nova escritura veio alterar significativamente quer o pacto social quer o capital da sociedade, que foi aumentado para 4.400.000$00 e ficou assim distribuído:

 

José Maria Vilarinho, 2.000.000$00; Adélia Teixeira Vilarinho, 100.000$00; Fernando Arcanjo de Sá Marta, 600.000$00; Carlos Alegre Marta, 400.000$000; Eduardo Arcanjo de Sá Marta, 300.000$00; António de Ataíde Marta, 100.000$00; Manuel Alegre Marta, 200.000$00; Augusto Alegre Marta, 100.000$00; Lucílio Garcia, 100.000$00; António Luís Marta, 200.000$00; Maria Alice de Ataíde Marta Proença, 100.000$00; Mário Ferreira da Costa, 100.000$00; Armando Costa, 25.000$00; José Ferreira Correia, 25.000$00; João Fernandes Torrão, 25.000$00; e António Valente da Silva, 25.000$00.

 

Como se verifica por estes dados, José Maria Vilarinho foi o único elemento que transitou da sociedade anterior, ficando a Artibus, a partir de 1949, a ser controlada pelas famílias Vilarinho e Marta.

 

A saída de Carlos Alberto Pinto da Mota foi suprida com a entrada dos novos sócios António Valente da Silva, Armando Costa, João Fernandes Torrão e José Ferreira Correia, que vieram assegurar competências técnicas nos diversos sectores da fábrica.

 

Dos trabalhadores da fábrica registe-se ainda o nome de José Augusto Ferreira dos Santos (n. 1930), que aí trabalhou como oleiro, entre 1948 e 1959, antes de se transferir para a fábrica Aleluia onde permaneceu até 1969, tendo exercido nesta última a actividade de pintor de painéis e de modelador (cf. http://www.prof2000.pt/users/secjeste/ZeAugusto/Antospg31.htm e http://www.cm-aveiro.pt/www/cache/imagens/XPQ5FaAXX29248aGdb9zMjjeZKU.pdf).

  

A Artibus ainda existia em 1988, pois nas actas da C. M. de Aveiro de 8 de Agosto desse ano (http://www.cm-aveiro.pt/www/cache/imagens/XPQ5FaAXX20848aGdb9zMjjeZKU.pdf) refere-se que seriam imputados à empresa 50% dos custos globais (estimados em 42.266.600$00) das infraestruturas da área sul do Canal do Cojo, onde se situavam os terrenos da fábrica.

 

O grupo escultural aqui reproduzido ilustrou um dos artigos do catálogo da exposição Portuguese Ceramics in the Art Deco Period, realizada em 2005 nos EUA.

 

 

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