Memórias e Arquivos da Fábrica de Loiça de Sacavém

Julho 24 2013

 

A propósito da publicação desta caricatura do coleccionador e estudioso de cerâmica José Queirós (1856-1920), que foi executada em 1914 por Alberto de Sousa (1880-1961), foram-nos colocadas algumas questões.


Uma delas prendia-se com as iniciais patentes no vestuário do caricaturado e com a peça que este segura na sua mão direita, indagando-se se seria esta a peça que surge na capa do volume António Capucho: O Homem Através da Colecção (2004).


Ora, tal peça, como se pode comprovar pela catalogação presente nesse volume, corresponde a um dos dois cisnes (re)criados já na segunda metade do século XIX por Wenceslau Cifka (1811-1884), muito provavelmente nas instalações da Cerâmica Constância, às Janelas Verdes, em Lisboa.


Nesta caricatura, contudo, representa-se a célebre terrina ostentando as armas do Marquês de Pombal (Sebastião José de Carvalho e Melo, 1699-1782) executada por Tomás Brunetto (datas desconhecidas; activo na fábrica entre 1767 e 1771) na Fábrica do Rato (1767-1834), peça que desde 1947 integra o acervo do Museu Nacional de Arte Antiga (http://www.museudearteantiga.pt/pt-PT/exposicao%20permanente/outras%20obras%20essenciais/ContentDetail.aspx?id=132).

 

Obviamente, as abreviaturas correspondem, assim, às iniciais da Fábrica do Rato e à assinatura de Tomás Brunetto.


© MAFLS

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Junho 29 2013

 

Taça fruteira em faiança, com cerca de 8,5 de altura e 28,9 cm. de diâmetro, sem qualquer marca visível. A decoração do motivo central foi aplicada sobre stencil (chapa recortada) enquanto o rebordo recebeu complementos esponjados a verde.

 

A denominação destes recipientes deu origem a diferentes vocábulos, que muitas vezes são usados indistintamente - alguidar, bacia, escudela, malga, palangana, taça, tigela.

 

Neste conjunto lexical há alguns vocábulos mais arcaizantes, como o castelhanismo palangana ou o termo medieval escudela, e outros de aplicação mais discutível, como o termo malga, que em certas regiões é sinónimo de tigela.

 

A já mencionada (http://mfls.blogs.sapo.pt/103727.html) obra Cerâmica Portuguesa (1931), onde a figura tutelar do coleccionador e estudioso de cerâmica José Queirós (1856-1920) é evocada através da caricatura reproduzida abaixo, regista também um léxico alargado onde, entre as dezenas de vocábulos, surgem referências a "malgas, cuncas, covilhetes tigellas, almofias ou almofas (que eram antigamente vasos grandes do feitio de tigellas)" e "Alguidares, bacias de mãos, palanganas (vasos de muita circunferencia e pouco pé), tigellas da casa (...)".

 

 

O vocábulo cuncas é obviamento um castelhanismo, estando os recipientes denominados concas, cuencos e cuncas bem ilustrados na obra Cerámica Popular Española (1970), da autoria do poeta e historiador de arte J. Corredor-Matheos (n. 1929) e do célebre ceramista J. Llorens Artigas (1892-1980).

 

Já o vocábulo de origem árabe almofia surge referido na obra Vestigios da Lingoa Arabica em Portugal (1830), de frei João de Sousa (1735-1812) e frei José de Santo António Moura (1770-1840), sendo tal recipiente aí definido como uma "Sopeira de estanho, ou de barro vidrado".

 

Visando uma uniformização e aplicação mais precisa de terminologia, o volume Itinerário de Faiança do Porto e Gaia (2001) observa e propõe: "Ao longo dos tempos, os termos malga e tigela foram sendo utilizados para descrever indiferentemente peças de loiça fosca, de vidrado plumbífero, estanífero ou porcelana. Assim sendo, e para que se comece a constituir um corpus terminológico para a descrição das formas cerâmicas, propomos que se passe a utilizar o termo malga para descrever tão só as peças de barro com as características atrás definidas [Vasilha de faiança em forma de calote esférica, com pé, com ou sem perfil carenado.] e revestidas de esmalte estanífero (faiança) ficando o termo tigela cativo para as peças de barro fosco (vermelha ou preta) ou de vidrado plumbífero."

 

Esta proposta, que, além de subestimar a importância do substrato regionalista na pluralidade da oferta lexical, pretende curiosamente constituir um corpus terminológico de formatos com base nas pastas e nos vidrados, acaba por contribuir, obviamente, para aumentar ainda mais a galáxia da disparidade e confusão terminológica.

 

Seja como for, nos catálogos da FLS, e sem que se pretenda sugerir de forma alguma que esta é uma peça dessa fábrica, os recipientes semelhantes a este surgem catalogados quer sob a designação malgas quer sob a designação fruteiras, coadunando-se esta última, sem dúvida, com a decoração da peça que aqui se ilustra.

 

 

© MAFLS

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