Memórias e Arquivos da Fábrica de Loiça de Sacavém

Fevereiro 25 2012

 

Chávena de café e pires formato Porto, da Sociedade de Porcelanas de Coimbra, com filetagem dourada e decoração geométrica esmaltada sobre o vidrado. Ambas as peças apresentam a marca SP1.

 

O motivo geométrico triangular aplicado nesta decoração é claramente evocativo de uma famosa litografia construtivista de El Lissitzky (1890-1941), editada em 1919 e reproduzida abaixo, denominada Derrotar os Brancos com a Cunha Vermelha, título que alude ao confronto entre bolcheviques (vermelhos) e mencheviques na URSS.

 

A evocação é ainda mais evidente quando se sabe que esta decoração também foi comercializada pela SP em vermelho (cf. http://modernaumaoutranemtanto.blogspot.com/2012/01/servico-de-cafe-modelo-cubico-porcelana.html#links), embora neste caso se tratem de chávenas e pires octogonais do formato Cúbico, onde o valor simbólico da intersecção do círculo pelo triângulo está diluído.

 

Este exemplar foi exibido na exposição Portuguese Ceramics in the Art Deco Period, realizada nos EUA em 2005, conjuntamente com um bule, uma leiteira, um açucareiro e uma chávena de chá com pires (respectivamente, números 45 e 48 a 51 do catálogo) do mesmo formato e com a mesma decoração, embora as asas destes últimos estejam apenas decoradas com uma filetagem a ouro.

 

 

Conforme já foi referido anteriormente (cf. http://mfls.blogs.sapo.pt/143462.html), aquela que mais tarde ficou a ser a Sociedade de Porcelanas de Coimbra denominava-se Porcelana de Coimbra quando se constituíu como sociedade anónima de responsabilidade limitada, em 13 de Maio de 1922.

 

A designação Sociedade de Porcelanas, Limitada, foi instituída a 31 de Agosto de 1926, num período em que a situação empresarial e financeira da Porcelana de Coimbra (PC) era já preocupante e a SP lhe sucedeu, com a fábrica na Arregaça.

 

Com efeito, a PC acabou por ser dissolvida em 8 de Julho de 1929, tendo entrado em imediata liquidação, para a qual foram nomeados "com os mais amplos poderes" Faustino Corrito e José Cordeiro Guerra, poderes que incluíam os "de venda ou alienação de bens móveis e imóveis da sociedade particularmente, sem dependência de hasta pública".

 

O activo desta sociedade veio a ser colocado em praça a 17 de Julho desse ano. Ainda a 25 de Outubro de 1929, na sequência deste processo, foi contraído pela SP um empréstimo junto da Caixa Geral de Depósitos, Crédito e Previdência, garantido com hipoteca e penhor mercantil dos antigos bens da Porcelana de Coimbra.

 

Este empréstimo encontrava-se ainda por liquidar a 28 de Junho de 1935, data em que foi substituído o pacto social da SP. A 15 e 27 desse mês havia-se registado a primeira intervenção da Empresa Electro-Cerâmica (EEC), do Candal, e da Vista Alegre, de Ílhavo, no capital social da SP, que era então de 10.000$00 e passou a estar equitativamente dividido por estas duas empresas.

 

Um dos responsáveis pela VA, João Teodoro Ferreira Pinto Basto (1870-1953), na sua obra A Cerâmica Portuguesa (1935), que reproduz um discurso proferido em 20 de Dezembro de 1934, refere o seguinte sobre a SP:

 

"6.º Centro – Coimbra – Porcelana – Sociedade de Porcelanas. Produz loiça domestica e artigos electricos. Começou a sua laboração há cerca de 12 anos. Emprega caolino da sua concessão de S. Vicente em Ovar e tem aperfeiçoado principalmente o fabrico de loiça domestica de uso corrente."

 

Conforme também já foi anteriormente referido, a aposta da VA na SP consolidou-se em 1945.

 

 

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Fevereiro 20 2011

 

 

Terrina em faiança, da fábrica Lopes & C.ª, decorada com esmalte e filetagem cor-de-laranja sobre o vidrado.

 

Fundada em 1885, a fábrica localizava-se em Alcântara, Lisboa, e daí o facto de ser vulgarmente designada por Fábrica de Alcântara. A empresa, criada por Stringer, Silva & C.ª, foi adquirida no ano seguinte pela sociedade Lopes & C.ª, a qual parece ter administrado a fábrica até ao seu encerramento. 

 

Este encerramento ocorreu em data não confirmada, mas antes de 1935, pois Pinto Basto, ao mencionar as fábricas de faiança fina existentes em Lisboa, na sua obra A Cerâmica Portuguesa (1935), declara – "Houve uma fabrica em Alcantara que já acabou."

 

Acerca da designação terrina, note-se que algumas fábricas estabeleceram uma distinção entre o formato redondo e o formato oval, chamando terrina a este último e sopeira ao primeiro. Assim, a peça reproduzida, sendo redonda, poderia também denominar-se sopeira, embora se desconheça se essa designação ocorria na produção da Fábrica de Alcântara.

 

Para informação mais pormenorizada sobre a produção desta fábrica, consulte: http://fabricadealcantara.blogspot.com/.

 

 

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Março 22 2010

 

Terrina formato Leiria decorada com decalcografia e filete a esmalte, sobre o vidrado.

 

Este modelo não se encontra reproduzido no Catálogo de Formatos de Loiças Domésticas, de Maio de 1950, pelo que, provavelmente, é um modelo posterior a esta data.

 

Na já citada obra A Cerâmica Portuguesa (1935), pronunciou-se assim um dos responsáveis da VA, João Teodoro Ferreira Pinto Basto (1870-1953), sobre o processo de decalcografia em Portugal e as decalcomanias:

 

"Para tornar possivel e facilitar a exportação, ha necessidade de baixar os direitos das tintas vitrificaveis, e das decalcomanias, que servem para ornamentar a louça. São direitos que pouco rendem ao Estado e que encarecem muito os produtos a exportar, mesmo os que se destinam ás colonias.

 

Não sendo pratico dar qualquer compensação de drawback á industria, devem as alfandegas prescindir dessa receita, para elas insignificante. Acresce que indubitavelmente se trata de materias primas da industria, sobre as quais não devem pesar direitos fortes.

 

 

As decalcomanias poderiam talvez ser impressas em Portugal, e não se deve pôr de parte essa ideia, mandando vir um gravador especializado para criar essa industria no País, onde, pelo concurso dos seus artistas, poderiam essas gravuras tomar vantajosamente uma feição artistica caracteristicamente nacional.

 

A uma fabrica só, não convem porém criar subsidiariamente essa industria.

 

O publico é exigente quanto á variedade de desenhos, e uma fabrica por si não teria capacidade para consumo de grandes series de cada desenho, como só vale a pena a sua impressão.

 

Assim, hoje, cada fabrica tem de adquirir decalques de todos os gostos, e em todas as fabricas estrangeiras.

 

Reputamos essa importação ainda em cerca de 800 contos anualmente.

 

Quanto ás tintas preparadas, outra materia prima da ceramica, não julgo a sua industria comercialmente adaptavel no País, conquanto o seu consumo aumente com a pintura á pistola, aplicação que em parte substitui o emprego de decalques.

 

O consumo nacional de tintas, nunca poderia compensar o capital a empregar em tão dispendiosa industria."

 

 

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Setembro 01 2009

 

Pormenor do painel cerâmico, executado por Armando Mesquita (1907-1982) em 1946, colocado à entrada do Museu de Cerâmica de Sacavém.

 

Na insuspeita e categorizada opinião de um administrador da fábrica da Vista Alegre, João Teodoro Ferreira Pinto Basto (1870-1953), expressa na obra anteriormente citada, a FLS apresentava no início da década de 1930 a maior produção do país naquele tipo de cerâmica:

 

"Fabrica de Sacavem. Antiga e importante fabrica de faiança fina. Produz loiças domesticas, artigos de ornamentação artisticos, sanitarios, mosaicos ceramicos e azulejos. Tem feito grandes ampliações e melhoramentos. Abastece o mercado da Metropole e exporta principalmente para Marrocos. É a fabrica de loiça de maior produção no Paíz; (...)"

 

A verdade, porém, é que a FLS se afirmou ainda como a fábrica cerâmica portuguesa de produção mais diversificada. Para além da loiça sanitária, dos azulejos e da loiça utilitária produziu uma enorme gama de loiça decorativa.

 

Nesta última área a sua produção foi impressionante pela diversidade das técnicas utilizadas, pelos modelos lançados, pela multiplicidade decorativa e pelas pastas cerâmicas desenvolvidas. Porque sendo essencialmente uma fábrica de faiança, a FLS produziu também peças de cerâmica decorativa em grés, em porcelana biscuit, que aqui assumiu a designação inglesa Parian Ware, e camafeus em Jasper Ware, à semelhança da famosa pasta desenvolvida pela fábrica inglesa Wedgwood.

 

 

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publicado por blogdaruanove às 13:09

Setembro 01 2009

 

Secção do Museu de Cerâmica de Sacavém que preserva no local original o forno número 18.

 

Fundada entre 1856 e 1859 na localidade de Sacavém, à época pertencente a Lisboa e a partir de 1886 ao então recém-criado concelho de Loures, a fábrica manteve durante décadas a mítica referência a 1850 como ano de fundação, tendo a administração celebrado oficialmente o seu centenário em 1950.

 

Não se conhece, contudo, documentação que consolide a referência de 1850 como data de fundação da empresa, pelo que actualmente se aceita 1856 como o ano em que Manuel Joaquim Afonso (1804-1871) procedeu à efectiva fundação da fábrica, embora João Teodoro Ferreira Pinto Basto (1870-1953), na sua obra A Cerâmica Portuguesa (1935), indique a data de 1859.

 

Antes de estabelecer esta empresa, Manuel Joaquim Afonso administrara a fábrica de vidros da Marinha Grande, que fora de John Beare (datas desconhecidas) e depois dos irmãos Stephens (Guilherme, 1731-1803, e João Diogo, 1748-1826), e a fábrica de vidros da Rua das Gaivotas, em Lisboa.

 

A permanência de Manuel Joaquim Afonso na empresa que fundara foi breve, tendo-a vendido entre 1861-1863 a John Stott Howorth (1829-1893; nomeado Barão Howorth de Sacavém em 1885). Logo após a morte deste último proprietário, os seus herdeiros estabeleceram uma parceria empresarial em comandita com James Gilman (1854-1921), antigo funcionário da fábrica.

 

John Stott Howorth teve descendêndia de três senhoras – Alice Rawstron (1831-1925), mãe de Alice Annie Howorth (nasceu e faleceu em 1859); Henriquete da Conceição Almeida (datas desconhecidas), mãe de João George Howorth (1865-?) e Henrique Almeida Howorth (1868-?); e Maria Margarida Pinto Bastos (1866-1916; registos alternativos referem 1936 como data de falecimento), mãe de John Pinto Stott Howorth (?-1949), Mary Stott Howorth (1890-1977) e Henrique Anthony Stott Howorth (1891-1981).

 

Embora este assunto esteja longe de ser consensual, algumas fontes referem que foi Maria Margarida Pinto Bastos quem usou o título de Baronesa Howorth de Sacavém, e não Alice Rawstron, o que parece consentâneo quer com as suas datas de maternidade quer com a data em que o título foi conferido a John Stott Howorth.

 

No entanto, nem ela (entretanto falecida?) nem nenhum dos seus descendentes surgiam como accionistas da FLS entre 1922 e 1946, ao contrário do que acontecia com Alice Rawstron, que, com o apelido Howorth, surgia ainda como accionista da FLS em 1922.

 

Espaço envolvente do Museu de Cerâmica de Sacavém.

 

Após a morte de James Gilman, sucedeu-lhe na orientação da fábrica seu filho Raul Gilman (?-1935), em associação com Herbert Gilbert, tendo a fábrica sido administrada até ao seu encerramento por três gerações desta última família, que entretanto se tornara proprietária da FLS  –  Herbert Gilbert (1878-1962), Leland Gilbert (1907-1979) e Clive Gilbert (n. 1938).

 

Depois de um período áureo que se desenvolveu até princípios da década de 1970, a fábrica acabou por encerrar, segundo algumas fontes em 1983 (embora se conheçam peças datadas de 1986...), segundo fontes mais fidedignas, como Clive Gilbert e o MCS, em 1989, tendo a falência judicial sido declarada em 1994.

 

Contudo, segundo os registos do MCS, cerca de meia centena de trabalhadores garantiram o funcionamento da empresa entre 1989 e 1994.

 

No local onde originalmente se encontrava a fábrica desenvolveu-se uma urbanização que, entre as contrapartidas negociadas pelo município com a empresa construtora, promoveu a preservação de um pequeno espaço da zona fabril, onde se veio a implantar o Museu de Cerâmica de Sacavém (http://www.cm-loures.pt/aa_patrimonioredemuseussacavema.asp), inaugurado em 2000.

 

Este museu integrou parte dos arquivos da antiga FLS no acervo do Centro de Documentação Manuel Joaquim Afonso (http://www.ipmuseus.pt/pt-PT/rpm/museus_rpm/admin_local/PrintVersionContentDetail.aspx?id=1234) e apresenta algumas centenas de peças da produção da fábrica, promovendo ainda exposições e actividades regulares de divulgação da história, do património e do saber-fazer na cerâmica.

 

O Museu Nacional do Azulejo (http://mnazulejo.imc-ip.pt/) é também depositário de parte do património cerâmico da Fábrica de Loiça de Sacavém, conservando nas sua reservas exemplares de particular relevância na história dos vidrados, da modelagem e das diversas técnicas da fábrica.

 

Em 2007 constituiu-se a Associação Amigos da Loiça de Sacavém, que conta entre os seus associados com Clive Gilbert, último administrador e proprietário da fábrica.

 

Veja mais algumas fotografias do exterior do museu aqui: http://www.trekearth.com/viewphotos.php?l=3&p=1018222 e aqui: http://www.trekearth.com/gallery/Europe/Portugal/South/Lisboa/Sacavem/photo883468.htm.

 

Uma das entradas do Museu de Cerâmica de Sacavém.

 

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publicado por blogdaruanove às 09:01

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