Memórias e Arquivos da Fábrica de Loiça de Sacavém

Abril 09 2015

 

Com a publicação deste terceiro volume, parece confirmar-se que a predominância de ilustrações alusivas às artes gráficas, aqui representando cerca de dois terços das imagens totais, configura uma opção da coordenação editorial e não dos diversos autores do texto principal de cada volume.

 

Continua a ser surpreendente o contraste entre a diversidade dos temas abordados nos textos principais, regra que a autora também segue neste volume, e as obsessivas opções pela arte gráfica que os acompanham. Infelizmente, continua a ser evidente, também, a ausência de uma revisão atenta e unificadora das afirmações patentes nos artigos de diferentes autores.

 

Só assim se compreende como é possível que, no mesmo volume, José Bártolo e Maria João Baltazar afirmem que a Secla foi fundada em 1947, enquanto Rita Gomes Ferrão nos assegura que a empresa surgiu em 1944. Quem acompanha este blog sabe bem qual destes três autores é o grande especialista na Secla e em qual destas duas datas deve confiar.

 

Mas, à puridade, à puridade, sublinhe-se que embora esta tenha as suas origens em 1944, a escritura pública da constituição legal de uma empresa sob a designação Secla apenas foi estabelecida em 18 de Dezembro de 1946 (http://mfls.blogs.sapo.pt/60571.html).

 

 

No artigo anterior referiram-se os sinetes como pequenos objectos do quotidiano que, na sua singeleza, poderiam traduzir também l'air du temps. E assim é, embora a sua origem remonte a uma tradição secular, bem anterior ao século XX. Mas é indubitavelmente através de alguns deles que podemos testemunhar uma mudança patente nas décadas de 1930 e 1940.

 

Com efeito, é nestas duas décadas que os tradicionais materiais nobres empregados na sua constituição, como a madrepérola, a prata, e o marfim, começam a ceder lugar ao bronze e a metais cromados, e a novos e sedutores materiais sintéticos, como a baquelite e o plástico.

 

Acima podem ver-se alguns exemplares com acabamento em prata de punção portuguesa, e punhos em madrepérola ou marfim, mas também dois exemplares com punho em baquelite e um outro com punho em plástico verde e preto.

 

A iconografia religiosa não ficou imune a estes materiais inovadores, como se  pode constatar abaixo, surgindo nestas décadas diversas imagens em plástico ou baquelite, muitas vezes combinadas com o alumínio que, numa versão popular, veio substituir a prata nos produtos de menor custo.

 

 

Datam também deste período as famosas figuras religiosas em plástico fosforescente, de que as esculturas evocativas de Nossa Senhora do Rosário de Fátima se tornaram paradigma incontornável, em Portugal.

 

Foi ainda no pós-guerra que a indústria de moldes para plástico, intimamente associada à tradição de moldes para vidro, teve particular expansão na área de Leiria e da Marinha Grande, permitindo aproximações inovadoras à prática do design nacional (http://mfls.blogs.sapo.pt/34301.html).

 

Um outro material que se popularizou neste período, particularmente nos brinquedos, embora já viesse a ser largamente utilizado desde o século XIX noutras áreas, como a dos enlatados, foi a folha de flandres.

 

Esta chapa metálica estanhada, frequentemente revestida a tinta de esmalte, pode-se combinar em diferentes secções para constituir modelos mais complexos, com movimento de corda, como o exemplar que se apresenta abaixo, o qual pretende ser uma réplica relativamente fidedigna de uma automotora da CP (http://www.transportes-xxi.net/tferroviario/automotoras).

 

 Exemplar em folha de flandres litografada, com logótipo da casa Coelho de Sousa. Porto, década de 1950.

 

 

No entanto, a ausência iconográfica mais notória nestes três volumes prende-se com o design da indústria vidreira.

 

Perante a magnífica fotografia, reproduzida no volume II, do stand que a Companhia Industrial Portuguesa apresentou na V Exposição Industrial e Agrícola das Caldas da Rainha, realizada em 1927, parece inacreditável que nestes volumes não se tenha dedicado maior espaço à arte do vidro e da cristalaria, que no nosso país conta já com cerca de 300 anos de constante produção industrial.

 

Não interessará aqui resumir a história das dezenas de empresas que, desde 1719, ano em que se fundou a Real Fábrica de Vidros de Coina, até ao presente, contribuíram e têm contribuído para criar um notável património português na história da indústria vidreira e no nosso quotidiano.

 

Muitos dos diversos aspectos do design e da indústria vidreira nacional do século XX foram já anteriormente referidos e documentados, embora traduzindo as limitações da fotografia não profissional e as dificuldades inerentes à especificidade do registo de imagem do vidro, quer num outro espaço (http://blogdaruanove.blogs.sapo.pt/?skip=10&tag=vidro) quer aqui mesmo (http://mfls.blogs.sapo.pt/tag/vidro), pelo que agora apenas se reproduzirão três significativas peças da produção nacional com diferentes técnicas decorativas. 

 

 

Acima apresentam-se dois pequenos copos evocativos da secular tradição de decoração a esmalte, que em Portugal remonta ao século XVIII e aos famosos copos de saudação ao rei D. João V (1689-1750; rei, 1707-1750), promotor e protector da indústria vidreira.

 

Estas duas peças, contudo, são datáveis de 1929, foram fabricadas pela Companhia Industrial Portuguesa e ostentam a decoração que o consagrado arquitecto e designer Raul Lino (1879-1974) concebeu para que exemplares semelhantes, bem como garrafas licoreiras ostentando os mesmos motivos, fossem exibidos durante aquele ano no pavilhão português da Exposição Internacional de Sevilha (http://blogdaruanove.blogs.sapo.pt/tag/sevilha+1929).

 

Abaixo ilustra-se uma grande jarra, com cerca de 42 cm. de altura, elaborada em vidro doublé, com camada exterior de tonalidade ametista, lapidado e gravado a ácido e à roda.

 

Paradigma maior da arte vidreira portuguesa do segundo quartel do século XX, ostenta na sua secção central a representação de um campino conduzindo toiros numa lezíria, através de uma composição atribuível a Jorge Barradas (1894-1971).

 

 

© MAFLS

publicado por blogdaruanove às 21:01

Abril 07 2015

 

O jornal Público começou a distribuir semanalmente, a partir da passada terça-feira, 24 de Março, um conjunto de oito volumes intitulados Design Português, que pretendem dar uma visão do design em Portugal desde o início do século XX até ao presente.

 

Com a saída do terceiro volume da série, hoje ocorrida, já é possível ter uma ideia geral dos critérios editoriais da obra, coordenada por José Bártolo (n. 1972), docente da Escola Superior de Artes e Design, em Matosinhos, e apresentando diversos autores responsáveis pelo texto principal de cada um dos volumes.

 

Maria Helena Souto (n. 1956), docente do IADE, que assina o texto principal do primeiro volume, declara logo na sua introdução – "Quando se investiga na área da História do Design, uma das verificações é que não existe uma História do Design, mas antes diversas histórias do Design. Através deste estudo que agora se propõe, queremos dar a ler a nossa História do Design em Portugal de uma forma não exaustiva, mas que se espera pedagógica, suscitando algumas ideias sobre a emergência do design no país."

 

Estas palavras aplicam-se perfeitamente aos três volumes que até agora se publicaram. Estamos perante a História do Design em Portugal destes autores que, de facto, do ponto de vista iconográfico, não é exaustiva nem contempla áreas significativas da produção industrial, e dos objectos do quotidiano, que são quase completamente ignoradas.

 

Não interessa aqui efectuar uma crítica de conteúdos, nem uma crítica da selecção iconográfica. Até porque esta série passará, inquestionavelmente, a ser uma obra de referência na historiografia do design e das artes decorativas em Portugal.

 

E porque assim é, lamenta-se que não tenha existido um maior cuidado na revisão dos conteúdos. Poder-se-ia, desse modo, ter evitado que, no volume I, a obra cerâmica de Rafael Bordalo Pinheiro (1846-1905) seja exemplificada através de réplicas das jarras com rãs de produção recente, que a produção de Sacavém surja representada, sem qualquer contextualização evidente, por uma pobre e deteriorada tigelinha estampada, com a surpreendente indicação de ser datável de c. 1910, ou que se afirme que a capa da obra Tentações de Sam Frei Gil (1907), de António Corrêa d'Oliveira (1878-1960), não se encontra assinada, quando, de facto, apresenta as iniciais A. C., correspondentes ao consagrado pintor António Carneiro (1872-1930).

 

E também porque não interessa centrar a nossa atenção nesses pequenos deslizes, publicar-se-ão, amanhã e depois, dois artigos que pretendem exemplificar a iconografia de outras áreas que não foram contempladas nestes três volumes mas poderiam surgir noutras Histórias do Design em Portugal. 

 

   Capa com ilustração de Raul Lino (1879-1974).

 

© MAFLS

 

publicado por blogdaruanove às 21:01

Junho 19 2011

© CDMJA/MCS

 

Folha de finais da década de 1950, com desenho para um motivo da FLS, que se encontra depositada nos arquivos do Centro de Documentação Manuel Joaquim Afonso/Museu de Cerâmica de Sacavém.

 

Esta decoração recorda os elementos geométricos do Jugendstil alemão, do  movimento austríaco Wiener Werkstätte e da gramática decorativa do consagrado arquitecto e designer escocês Charles Rennie Mackinstosh (1868-1928).

 

Recorda ainda, através das formas geométricas a preto e verde, alguns estudos decorativos desenvolvidos entre 1915 e 1925 pelo também consagrado arquitecto e designer português Raul Lino (1879-1974), como se pode constatar no catálogo da exposição Raul Lino: Artes Decorativas, publicado em 1990 pela Fundação Ricardo Espírito Santo Silva.

 

A propósito, sublinhe-se que Raul Lino estudou em Inglaterra, entre 1890 e 1893, e na Alemanha, entre 1893 e 1897. A este último país voltou, para permanecer durante um semestre, em 1911.

 

A reprodução do desenho da FLS é uma cortesia do CDMJA/MCS.

 

Estudo decorativo de Raul Lino.

 

© MAFLS

publicado por blogdaruanove às 21:01

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