Memórias e Arquivos da Fábrica de Loiça de Sacavém

Setembro 04 2009

Catálogo da exposição de Maria de Lourdes Castro realizada em 2005, reproduzindo uma peça executada em Faenza.

 

Na pintura, na escultura e na literatura o modernismo português expressou-se logo durante a década de 1910 e, numa segunda fase, em finais da década de 1920 e princípios da seguinte.

 

Nas artes decorativas, se excluirmos casos como os de Raul Lino (1879-1974), de João da Silva (1880-1960), do imigrante Franz Torka (1888-1953), do grupo do Bristol Club e da revista ABC, o modernismo foi um movimento com uma expressão mais vincada no período que se seguiu à II Grande Guerra, aproximando-se já da renovação modernista do pós-guerra preconizada pelas escolas escandinavas.

 

Na produção industrial que acompanhou este movimento renovador assumiram papel de relevo as fábricas de vidro e cerâmica. Destacaram-se, entre estas últimas, as fábricas Aleluia (Aveiro), FLS e Secla (Caldas da Rainha), tendo a Vista Alegre (Ílhavo), as suas associadas Candal (V. N. Gaia) e S. P. (Coimbra), e a Lusitânia (Lisboa e Coimbra) sido mais comedidas na exploração de novas formas e decorações. No âmbito da produção de painéis de azulejo, destacou-se a Fábrica Viúva Lamego (Lisboa).

 

Neste movimento renovador teve grande importância o contributo de diversas artistas, referindo-se aqui os nomes daquelas que mais estreita e regularmente desenvolveram o seu trabalho numa dada fábrica. Na indústria vidreira da Marinha Grande, na Fábrica-Escola Irmãos Stephens, desenvolveram-se as obras de Maria do Carmo Valente (datas desconhecidas) e Maria Helena Matos (n. 1924). Na indústria cerâmica, desenvolveram-se as obras de Hansi Stäel (1913-1961), na Secla, e de Maria de Lourdes Castro (n. 1934), na FLS.

 

Proveniente da Escola António Arroio, em Lisboa, onde tivera como professor o pintor e ceramista Manuel Cargaleiro (n. 1927), Maria de Lourdes Castro desenvolveu a sua obra na FLS em diversos períodos, 1955-1959, 1972-1973 e 1979-1982, tendo entretanto trabalhado em Faenza, Itália, entre 1960 e 1964, e efectuado uma passagem pela fábrica Secla em 1959-1960.

 

A primeira estadia da ceramista na FLS permitiu-lhe desenvolver várias peças da série Arte Nova, constituída por 57 modelos na tabela de preços de 1960, algumas das quais serão aqui reproduzidas em breve.

 

 

© MAFLS

publicado por blogdaruanove às 13:09

Setembro 01 2009

 

Grande prato de parede decorado com técnica mista de stencil, aerógrafo e pequenos toques de pintura manual, sob o vidrado. Os retoques de pintura manual foram realizados apenas para acabamento, a preto, nos focinhos dos animais.

 

A técnica de aerógrafo era já muito usada na cerâmica desde finais do século XIX e passou a ser aplicada frequentemente na FLS a partir do final da década de 1920, talvez por influência dos intercâmbios técnicos que a fábrica realizou com algumas congéneres alemãs e europeias, de onde recebeu alguns mestres e operários especializados nesta decoração.

 

Nesta peça utilizou-se uma técnica comum à serigrafia, que exige diferentes passagens para cada uma das cores, começando pelas cores mais claras. Aqui o preto foi colocado sem qualquer sobreposição, pelo que o castanho terá sido a última cor a ser aplicada. A técnica de aerógrafo nota-se particularmente no esfumado que aparece junto do recorte da base de algumas hastes e das orelhas dos animais.

 

Muito embora a decoração seja ao gosto Art Déco, nas cores e no tratamento estilizado dos animais, este prato será provavelmente da década de 1960.

 

Conhece-se um prato desta série com a decoração "Flamingos", em tons de rosa e lilás.

 

 

© MAFLS

publicado por blogdaruanove às 21:01

Setembro 01 2009

 

Pormenor do painel cerâmico, executado por Armando Mesquita (1907-1982) em 1946, colocado à entrada do Museu de Cerâmica de Sacavém.

 

Na insuspeita e categorizada opinião de um administrador da fábrica da Vista Alegre, João Teodoro Ferreira Pinto Basto (1870-1953), expressa na obra anteriormente citada, a FLS apresentava no início da década de 1930 a maior produção do país naquele tipo de cerâmica:

 

"Fabrica de Sacavem. Antiga e importante fabrica de faiança fina. Produz loiças domesticas, artigos de ornamentação artisticos, sanitarios, mosaicos ceramicos e azulejos. Tem feito grandes ampliações e melhoramentos. Abastece o mercado da Metropole e exporta principalmente para Marrocos. É a fabrica de loiça de maior produção no Paíz; (...)"

 

A verdade, porém, é que a FLS se afirmou ainda como a fábrica cerâmica portuguesa de produção mais diversificada. Para além da loiça sanitária, dos azulejos e da loiça utilitária produziu uma enorme gama de loiça decorativa.

 

Nesta última área a sua produção foi impressionante pela diversidade das técnicas utilizadas, pelos modelos lançados, pela multiplicidade decorativa e pelas pastas cerâmicas desenvolvidas. Porque sendo essencialmente uma fábrica de faiança, a FLS produziu também peças de cerâmica decorativa em grés, em porcelana biscuit, que aqui assumiu a designação inglesa Parian Ware, e camafeus em Jasper Ware, à semelhança da famosa pasta desenvolvida pela fábrica inglesa Wedgwood.

 

 

© MAFLS

publicado por blogdaruanove às 13:09

Setembro 01 2009

 

Secção do Museu de Cerâmica de Sacavém que preserva no local original o forno número 18.

 

Fundada entre 1856 e 1859 na localidade de Sacavém, à época pertencente a Lisboa e a partir de 1886 ao então recém-criado concelho de Loures, a fábrica manteve durante décadas a mítica referência a 1850 como ano de fundação, tendo a administração celebrado oficialmente o seu centenário em 1950.

 

Não se conhece, contudo, documentação que consolide a referência de 1850 como data de fundação da empresa, pelo que actualmente se aceita 1856 como o ano em que Manuel Joaquim Afonso (1804-1871) procedeu à efectiva fundação da fábrica, embora João Teodoro Ferreira Pinto Basto (1870-1953), na sua obra A Cerâmica Portuguesa (1935), indique a data de 1859.

 

Antes de estabelecer esta empresa, Manuel Joaquim Afonso administrara a fábrica de vidros da Marinha Grande, que fora de John Beare (datas desconhecidas) e depois dos irmãos Stephens (Guilherme, 1731-1803, e João Diogo, 1748-1826), e a fábrica de vidros da Rua das Gaivotas, em Lisboa.

 

A permanência de Manuel Joaquim Afonso na empresa que fundara foi breve, tendo-a vendido entre 1861-1863 a John Stott Howorth (1829-1893; nomeado Barão Howorth de Sacavém em 1885). Logo após a morte deste último proprietário, os seus herdeiros estabeleceram uma parceria empresarial em comandita com James Gilman (1854-1921), antigo funcionário da fábrica.

 

John Stott Howorth teve descendêndia de três senhoras – Alice Rawstron (1831-1925), mãe de Alice Annie Howorth (nasceu e faleceu em 1859); Henriquete da Conceição Almeida (datas desconhecidas), mãe de João George Howorth (1865-?) e Henrique Almeida Howorth (1868-?); e Maria Margarida Pinto Bastos (1866-1916; registos alternativos referem 1936 como data de falecimento), mãe de John Pinto Stott Howorth (?-1949), Mary Stott Howorth (1890-1977) e Henrique Anthony Stott Howorth (1891-1981).

 

Embora este assunto esteja longe de ser consensual, algumas fontes referem que foi Maria Margarida Pinto Bastos quem usou o título de Baronesa Howorth de Sacavém, e não Alice Rawstron, o que parece consentâneo quer com as suas datas de maternidade quer com a data em que o título foi conferido a John Stott Howorth.

 

No entanto, nem ela (entretanto falecida?) nem nenhum dos seus descendentes surgiam como accionistas da FLS entre 1922 e 1946, ao contrário do que acontecia com Alice Rawstron, que, com o apelido Howorth, surgia ainda como accionista da FLS em 1922.

 

Espaço envolvente do Museu de Cerâmica de Sacavém.

 

Após a morte de James Gilman, sucedeu-lhe na orientação da fábrica seu filho Raul Gilman (?-1935), em associação com Herbert Gilbert, tendo a fábrica sido administrada até ao seu encerramento por três gerações desta última família, que entretanto se tornara proprietária da FLS  –  Herbert Gilbert (1878-1962), Leland Gilbert (1907-1979) e Clive Gilbert (n. 1938).

 

Depois de um período áureo que se desenvolveu até princípios da década de 1970, a fábrica acabou por encerrar, segundo algumas fontes em 1983 (embora se conheçam peças datadas de 1986...), segundo fontes mais fidedignas, como Clive Gilbert e o MCS, em 1989, tendo a falência judicial sido declarada em 1994.

 

Contudo, segundo os registos do MCS, cerca de meia centena de trabalhadores garantiram o funcionamento da empresa entre 1989 e 1994.

 

No local onde originalmente se encontrava a fábrica desenvolveu-se uma urbanização que, entre as contrapartidas negociadas pelo município com a empresa construtora, promoveu a preservação de um pequeno espaço da zona fabril, onde se veio a implantar o Museu de Cerâmica de Sacavém (http://www.cm-loures.pt/aa_patrimonioredemuseussacavema.asp), inaugurado em 2000.

 

Este museu integrou parte dos arquivos da antiga FLS no acervo do Centro de Documentação Manuel Joaquim Afonso (http://www.ipmuseus.pt/pt-PT/rpm/museus_rpm/admin_local/PrintVersionContentDetail.aspx?id=1234) e apresenta algumas centenas de peças da produção da fábrica, promovendo ainda exposições e actividades regulares de divulgação da história, do património e do saber-fazer na cerâmica.

 

O Museu Nacional do Azulejo (http://mnazulejo.imc-ip.pt/) é também depositário de parte do património cerâmico da Fábrica de Loiça de Sacavém, conservando nas sua reservas exemplares de particular relevância na história dos vidrados, da modelagem e das diversas técnicas da fábrica.

 

Em 2007 constituiu-se a Associação Amigos da Loiça de Sacavém, que conta entre os seus associados com Clive Gilbert, último administrador e proprietário da fábrica.

 

Veja mais algumas fotografias do exterior do museu aqui: http://www.trekearth.com/viewphotos.php?l=3&p=1018222 e aqui: http://www.trekearth.com/gallery/Europe/Portugal/South/Lisboa/Sacavem/photo883468.htm.

 

Uma das entradas do Museu de Cerâmica de Sacavém.

 

© MAFLS

publicado por blogdaruanove às 09:01

Setembro 01 2009

Pormenor do painel cerâmico, executado em 1946 por Armando Mesquita (1907-1982) , colocado à entrada do Museu de Cerâmica de Sacavém.

 

A Fábrica de Loiça de Sacavém desenvolveu durante décadas uma produção, de notável qualidade e diversidade, que a projectou como uma das mais importantes empresas cerâmicas da Península Ibérica.

 

Este espaço surge como uma homenagem a todas as pessoas que fizeram da Fábrica de Loiça de Sacavém uma fábrica excepcional, pretendendo ainda ser um espaço de preservação da memória das famílias que dirigiram a fábrica, das famílias que trabalharam na fábrica e das famílias que desfrutaram, e ainda desfrutam, da produção da fábrica.

 

Para isso conta com a vossa colaboração e com os vossos contributos – comentários, imagens, registos audiovisuais, enfim, tudo o que possa contribuir para complementar no ciberespaço o património, as memórias e  os arquivos depositados nos museus e centros de documentação.

 

 

© MAFLS

publicado por blogdaruanove às 01:09

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