Memórias e Arquivos da Fábrica de Loiça de Sacavém

Junho 02 2014

James Gilman, à esquerda, e José de Sousa.

Fotografia publicada na revista Ilustração Portuguesa, número 346, de 7 de Outubro de 1912.

 

Um Pequeno Mundo…

 

Depois de acabar os meus estudos secundários segui para Stoke-on-Trent, a cidade da cerâmica, inserida numa área urbana e industrial conhecida como as "Potteries" (http://www.thepotteries.org/index.html), como já referi num anterior artigo (http://mfls.blogs.sapo.pt/185878.html).

 

Para complementar aquele relato, gostaria de contar um episódio curioso que teve lugar pouco tempo depois de eu chegar a Stoke-on-Trent. Entre outros colegas de curso, fiquei a conhecer uma colega, a Janet Hanley, a qual veio a saber que eu vivia em Portugal.

 

Passados uns tempos, ela convidou-me a ir tomar chá (tinha que ser!) a casa de uma tia dela, pois essa tia queria mostrar-me uma coisa.

 

Lá fui, então, e depois de alguma conversa a senhora entregou-me uma fotografia, perguntando-me se eu conhecia a pessoa que lá estava representada.

 

Olhei e qual não foi o meu espanto quando reconheci um João de Sousa muito mais novo, o filho do Mestre José de Sousa, que tinha sido o primeiro chefe fabril português da Sacavém!

 

De facto, o João de Sousa fez o mesmo curso que eu, como também já tive oportunidade de relatar anteriormente (http://mfls.blogs.sapo.pt/194586.html), e na altura ele tinha namorado com a tia daquela minha colega de curso!

 

Num caso posterior, e já no meu último ano, conheci outra colega de curso, a Kendal Heath. Um dia, em conversa, fiquei a saber que ela era neta do Sr. Heath, técnico de tintas e vidros (corantes e esmaltes) que prestou assistência técnica à Sacavém na segunda metade dos anos 40.

 

O seu nome completo era Sidney George Heath e de acordo com um registo da secretaria da FLS, actualmente depositado no CDMJA, colaborou com a empresa entre 5 de Abril de 1946 e 7 de Outubro de 1947.

 

Entre outros trabalhos inovadores que realizou para a FLS, foi o criador do vidrado Porto, um vidrado mate creme, muito bonito, que foi aplicado a serviços de chá e café cuja decoração era complementada ainda com as asas e as pegas pintadas a ouro.

 

Como o mundo é pequeno!

 

 

© Clive Gilbert

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Novembro 01 2012

 

O INÍCIO DE UMA CARREIRA NA FLS (III)

 

Tendo concluído os meus estudos em Stoke-on-Trent, no verão de 1960, planeei um regresso a Portugal juntamente com um amigo e colega de curso, no carro dele, por forma a aproveitar a viagem visitando fábricas de cerâmica. Assim, decidimos escrever a empresas da Holanda (Sphinx), Alemanha e Luxemburgo (Villeroy & Boch), Suíça (Laufen), Itália (Gibertini) e Espanha (Roca), solicitando autorização para visitar as suas instalações e conhecer os seus meios de produção.

 

Todas as empresas foram impecáveis e convidaram-nos para as visitar quando quiséssemos. Foi uma óptima oportunidade para comparar processos de produção diferentes daqueles que estávamos acostumados a ver em Inglaterra, tudo isto em relação ao fabrico de loiça sanitária, loiça de mesa, azulejos e mosaicos, bem como tijolos e telhas. A viagem foi extraordinariamente interessante pois aprendemos muito, para além de conhecermos uma boa parte da Europa, ou seja, foram dois coelhos de uma só cajadada!

 

De regresso a Portugal, iniciei a minha carreira na Divisão Técnica da FLS, supervisionada na altura pelo extraordinário João de Sousa, filho de José de Sousa, o primeiro Encarregado Geral português da Fábrica de Loiça de Sacavém. O João de Sousa, que tirou o mesmo curso que eu em Stoke-on-Trent, nos anos 30, habitou toda a sua vida dentro da fábrica, pois a empresa disponibilizava meia dúzia de moradias na parte alta dos seus terrenos para os técnicos ou quadros indispensáveis a que tudo corresse bem no dia-a-dia.

 

Uma das razões, se não a principal, para a existência destas casas devia-se ao facto de Sacavém, na época, não ter infra-estruturas que assegurassem rápida ligação a Lisboa, ou a outras localidades - a estrada era péssima e os transportes públicos regulares, com excepção dos comboios, quase não existiam.

 

Quem vivia dentro dos muros da empresa eram o Encarregado Geral, o Director da Produção, o Director dos Recursos Humanos, o Chefe dos Fornos, o Chefe dos Electricistas e o Director Técnico. As casas foram construídas pelo pessoal da Secção dos Pedreiros, sendo o projecto das últimas quatro da autoria de Leonardo (Rey Colaço) Castro Freire (1917-1970), arquitecto que veio a ser distinguido com o prémio Valmor em 1970.

 

Para além destes aspectos, a Sacavém foi pioneira numa política social inovadora, pois o Estado, nos anos 20 e 30, pouco fazia pelos trabalhadores em termos sociais. Assim, o meu avô Herbert Gilbert (1878-1962) lançou nessa época os seguintes serviços de apoio:

 

● Cantina subsidiada (poucas empresas nessa altura tinham cantinas).

● Creche para as crianças do pessoal

● Subsídio de férias e férias junto ao mar para todas os trabalhadores (casas alugadas em S. Martinho do Porto, Ericeira, e outros locais)

● Médico da empresa

● Suplemento da reforma

● Aulas de ginástica para os mais novos dentro do horário de trabalho

 

Mais tarde, a empresa foi das primeiras em Portugal a introduzir a semana inglesa (trabalho durante cinco dias e meio, em vez de seis) e, já nos anos sessenta, a semana americana (trabalho durante cinco dias).

 

© Clive Gilbert 

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Outubro 02 2012

 

O INÍCIO DE UMA CARREIRA NA FLS (II)

 

Iniciei os meus estudos em matéria cerâmica no então denominado North Staffordshire Technical College (hoje, North Staffordshire University), em Stoke-on-Trent, em Setembro de 1956.

 

Os cursos estavam divididos entre Barro Branco e Barro Vermelho e, em princípio, tinham a duração de três anos. O ano escolar, por sua vez, estava dividido em dois períodos (de Setembro a Abril, para a teoria, e de Maio a Agosto, para a prática). Neste último período o estudante tratava de arranjar o seu estágio numa fábrica, em Inglaterra ou no estrangeiro, podendo o NSTC encarregar-se disso caso ele não o conseguisse.

 

O primeiro ano foi essencialmente bastante básico, abordando, em termos de Física e Química, matéria tratada no antigo 7.º ano do secundário. Era um ano comum aos estudantes de Barro Branco e de Barro Vermelho.

 

Por sua vez, o segundo ano já era mais especializado em termos da área cerâmica que cada qual tinha escolhido. No meu caso era o Barro Branco, tratando portanto de áreas que lhe estavam directamente ligadas – vidros, corantes, moldes, madres, e outros aspectos técnicos.

 

Finalmente, o terceiro ano era ainda mais especializado e incluía outros aspectos práticos desenvolvidos nas fábricas de Stoke. Lembro-me, por exemplo, que fui o primeiro aluno a produzir uma sanita, do princípio ao fim, na fábrica Royal Doulton. Enchi e despejei o molde, tirei a peça do molde, acabei-a, coloquei-a no secador, vidrei-a, coloquei-a e tirei-a do forno antes de fazer a escolha. Hoje a peça faz parte da colecção do museu da Universidade.

 

No curso, o mais surpreendente era o facto de a matéria continuar a ser exactamente igual há mais de vinte anos. Curiosamente, o Director do Departamento Técnico da FLS era o João de Sousa, filho do Mestre José de Sousa, o primeiro português a ocupar este lugar depois dos ingleses Barlow, pai e filho. O João de Sousa tinha estudado em Stoke nos anos 30, pelo que pude comparar os meus apontamentos com os dele. Eram praticamente iguais!

 

Algo de ainda mais extraordinário ocorria nos estudos relativos ao cozimento. Aqui, noventa por cento da matéria era dedicada aos fornos intermitentes redondos e apenas o muito pouco que restava aos fornos-túneis, que já eram norma em grande parte das empresas. Quanto aos fornos de rolos para azulejos, que já existiam na Sacavém, nenhuma referência! Quando levantei a questão responderam que ainda não estavam suficientemente testados nem dados como fiáveis! Estou convencido que lá no NSTC ainda nem sequer tinham ouvido falar deles!

 

© Clive Gilbert 

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Setembro 01 2012

 

O INÍCIO DE UMA CARREIRA NA FLS (I)

 

Nunca na minha infância sonhei que algum dia iria trabalhar na indústria cerâmica, embora soubesse que a minha família era dona da Fábrica de Loiça de Sacavém e que o meu avô e o meu pai trabalhavam lá. Só quando acabei o secundário em Londres, sem quaisquer ideias quanto ao meu futuro, é que aceitei ir fazer o curso de cerâmica em Stoke-on-Trent. Isto passou-se em 1956.

 

As primeiras impressões não foram nada boas. As "Potteries", como era conhecida a área da cidade de Stoke-on-Trent (composta por seis vilas – Burslem, Fenton, Hanley, Longton, Stoke e Tunstall), eram o centro da indústria cerâmica de Inglaterra e nessa altura existiam centenas de pequenas e médias empresas todas à volta das grandes cerâmicas, tais como a H&R Johnson, Royal Doulton, Twyfords, Wedgwood, e outras. Todas estas fábricas, particularmente as centenas das mais pequenas que ainda não tinham investido em fornos modernos devido às dificuldades económicas do pós-guerra, debitavam cá para fora uma espessa camada de fumo proveniente dos antigos fornos redondos, bottle ovens, e das chaminés das caldeiras que ainda eram alimentadas a carvão. Nessa época era impossível usar uma camisa branca pois era sabido que pela altura do almoço o colarinho já estaria preto... Só para dar uma ideia, as papelarias e tabacarias locais vendiam uns postais de Stoke-on–Trent apresentando uma imagem totalmente a preto com o título "Stoke-on-Trent by night", havendo outros exactamente iguais mas com o título "Stoke-on-Trent by day"!

 

Ao fim de algum tempo ficávamos habituados não só ao denso fumo como à chuva e ao frio, sendo tudo atenuado pelas amizades que se criavam – ainda em Julho passado me veio visitar um antigo colega de curso que hoje em dia vive na Austrália e eu não via há mais de quarenta anos!

 

© Clive Gilbert 

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